"Lorena"
Assim que entramos no escritório do Érick o Andrey espalhou relatórios sobre a mesa. Eram listas de todos os tipo, gráficos financeiros, relatórios de transações bancárias e mais um sem fim de papéis cheios de números.
- Muito bem, fadas, tsunamis e pobres mortais, o beco está sem saída. Vamos ver se a intuição feminina nos salva. - O Érick disse, puxando uma cadeira para mim enquanto o Andrey jogava um calhamaço de documentos em minha frente.
- Intuição feminina não limpa balanço patrimonial, Albelini. Para a sua sorte eu sou boa com números. - Eu brinquei.
- Eu continuo achando um desperdício você não ter um cargo na empresa, Lolô. - O Andrey comentou separando mais um calhamaço de papéis. - Você tem algum talento com números e repetições, Tentação? - Ele se virou para a Marcelina sedutor.
- Você pode se surpreender com os meus talentos, Tigrão. - A Marcelina sorriu num flerte descarado que fez o Julian revirar os olhos. O Andrey riu e pegou a mão da Marcelina a levando para o sofá.
- Aqui, Tentação, isso são movimentos bancários, nós precisamos de um padrão, como essas contas se comunicam. Entende?
- Tipo quem fala com quem e quando fala. Deixa comigo. - A Marcelina pegou os papéis estreitando os olhos.
- Aqui, marca com essa canetinha aqui, da cor da gravata do Albelini olha só... marca todas as contas que falam diretamente com essa aqui. - O Andrey foi dando as instruções para a Marcelina.
Eu me virei para os documentos a minha frente, o Julian tinha se sentado ao meu lado e o Érick em nossa frente, cada um de nós com um calhamaço de papéis.
- Porque não estamos fazendo isso no computador? Facilitaria muito. - Eu perguntei.
- Porque não queremos deixar rastro e não queremos correr o risco de sermos espionados. - O Érick falou sem erguer os olhos.
Eles estavam sendo excessivamente cautelosos e não estavam errados. Assim que meus olhos bateram naquelas colunas de números, algo dentro de mim despertou.
Desde o golpe financeiro que sofri do meu ex-noivo, eu tinha trancado o meu diploma de contabilidade em uma gaveta mental. Eu tinha sido banida do mundo contábil, ninguém queria me contratar e, por fim, a dor de ter sido usada e roubada me fez odiar os números. Mas ali, vendo o estresse dominar o Érick, a contadora que eu costumava ser assumiu o controle. E não demorou para que eu encontrasse a primeira discrepância.
- Vejam isso aqui. - Eu apontei com a ponta do lápis para uma linha de transferência de ativos. - Essas contas na Suíça estão fazendo triangulação de dividendos através dessas empresas de fachada. Isso é uma engenharia de blindagem fiscal internacional. Alguém está limpando o dinheiro de origem antes de injetar na Albelini... e está fazendo isso muito bem. Ele não quer ser encontrado. Ele não quer que vocês saibam quem ele é.
O Érick me encarou, o orgulho brilhava nos olhos azuis dele.
- Continue sendo o meu gênio, Fada. Eu não vou deixar ninguém te atingir. - Ele falou baixo para mim e o nó na minha garganta apertou um pouco mais.
No segundo em que a porta se fechou, a postura relaxada do Julian sumiu. Ele largou a caneta na mesa, inclinou-se na minha direção e fixou os olhos nos meus. A preocupação que ele tinha guardado a manhã inteira finalmente veio à tona.
- Você enlouqueceu de vez, Lorena? - O Julian sibilou, a voz baixa e cortante. - Que porra de história foi aquela de sugerir durante o café que o seu ex-noivo é o sócio oculto? E agora sugerir alguém do seu passado?
- Vou vigiar a porta. - A Marcelina se levantou rapidamente e saiu do escritório, provavelmente se postando do lado de fora da porta para impedir qualquer aproximação.
- Julian, eu estou preocupada! - Eu rebati em um sussurro tenso, sentindo minhas mãos tremerem sobre os extratos. - O Érick está uma pilha de nervos. Eu pensei... isso tudo só começou depois que o Érick me assumiu publicamente. Isso só pode ter a ver comigo. Ou é o Carlos Eduardo, ou alguém da boate. Eu preciso contar toda a verdade sobre a boate e a Scarlat para ele. Ele precisa saber de tudo para saber onde procurar.
- E você acha, Lorena, que eu já não chequei os clientes da boate? - O Julian me encarou como se me dissesse o óbvio. - O Érick não precisa saber de tudo, porque eu sei e eu sei fazer o meu trabalho. E se eu bem o conheço, agora ele vai mandar revirar o mundo até encontrar o seu ex noivo. Como você disse, ele está uma pilha de nervos, se você soltar a palavra "boate" ou "Scarlat" agora, com ele nesse estado de fúria ciumenta, ele destrói meio mundo antes de ouvir a sua explicação. Ele vai se desestabilizar completamente no meio dessa transição da holding que já é estressante o suficiente. O mercado é sensível, Lorena. Um empresário instável emocionalmente destrói bilhões em um dia. Ainda não.
- Eu não suporto mais mentir para ele, Julian. A cada beijo de bom dia eu sinto que estou traindo a confiança dele. - Uma lágrima de frustração subiu aos meus olhos.
- Você começou isso, Lorena. Agora vai sustentar essa mentira até eu te dar o sinal verde, até que a verdade não destrua o Érick. Pense como a mulher que encurralou o Simão, não como a babá assustada. Nós não sabemos quem é o novo sócio, ele pode inclusive ser o próprio Simão se divertindo com a gente correndo atrás dele. O seu silêncio, hoje, é a única blindagem que a presidência do Érick tem. Ficou claro?

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