"Lorena"
Eu engoli o choro e fechei os olhos por um segundo. O Julian tinha razão, eu precisava pensar menos como a babá assustada. Se eu quisesse que as coisas dessem certo eu precisava pensar com a audácia e a segurança da Scarlat. Eu abri os olhos e limpei a garganta.
- Ficou claro. - Eu encarei o Julian. - Você tem razão, não é o momento.
- Eu não estou contra você, Lolô, mas eu vou proteger o Érick. - O Julian suavizou o olhar. - E eu estou de olho no seu passado. Eu chequei os clientes da boate, está tudo limpo. Fica tranquila. - Eu fiz que sim e ele se afastou e elevou a voz. - Baby, volta para onde os meus olhos podem te ver.
A porta do escritório se abriu de leve.
- Vou buscar um café pra gente. - A Marcelina avisou e fechou a porta novamente.
O Julian não disse mais nada. Ele apenas me encarou por alguns segundos e nós voltamos a nos concentrar nos papéis. Eu precisava focar, quanto antes descobríssemos quem era esse sócio oculto, mais rápido acabaria esse inferno de mentiras.
Quando a Marcelina voltou para o escritório, ela trazia consigo uma bandeja com uma garrafa de café e xícaras, ela apoiou a bandeja sobre o móvel de apoio lateral e serviu cuidadosamente uma xícara de café para cada um de nós. Quando me entregou a minha, me deu também uma barra de chocolate meio amargo que eu sabia exatamente de onde vinha.
- Eu também quero chocolate, Baby. - O Julian reclamou quando a Marcelina colocou a xícara perto dele na mesa.
- Pensei que você queria beijo de bom dia. - Ela o provocou.
Num átimo de segundo o Julian se levantou, puxou a Marcelina pela cintura deu um selinho demorado nela, sem que ela tivesse tempo para reagir. Foi nesse momento de distração deles que eu aproveitei e puxei o pequeno bilhete com a caligrafia firme do Alberto preso a barra de chocolate: “Cuidado com as cobras que rastejam na cozinha. Há algo agitando a serpente.”
Eu senti o meu estômago dar um nó. O bilhete do Alberto era um alerta do perigo a espreita dentro de casa. Eu pensava que a Adelaide era um inimigo abatido, mas pelo visto ela ainda não tinha se dado por vencida. E eu estava trancada na mentira por mais tempo. Era como se o mundo estivesse anunciando o seu fim.
- A Lili sempre tem razão, meu dia acabou de ficar muito melhor. - O Julian comentou ao soltar a Marcelina que o encarava completamente atordoada, enquanto eu aproveitava para guardar o bilhete no bolso do meu vestido.
- Querem saber, eu acho que preciso é de um chá. - Eu me levantei. - Mas não se empolguem, eu vou apenas pegar um chá, então mantenham-se compostos. - Eu sorri para a Marcelina que ainda olhava para o Julian como se processasse o que tinha acabado de acontecer.
Eu fui para a cozinha e, enquanto a água fervia para o chá, eu me aproximei da porta da entrada de serviço que estava aberta e olhei para fora, enchendo o peito com o ar fresco da manhã, mas sem realmente passar pela porta. O som de um sussurro abafado veio do lado de fora. Era a Adelaide.
Eu fiquei parada, como se me escondesse, prendendo a respiração. Coloquei a cabeça para fora devagar, apenas a metade suficiente para que um dos meus olhos visse a governanta do diabo próxima a parede mais a direita, de costas para mim, há uns bons passos de distância, segurando o telefone celular contra a orelha e sussurrando. O que me chamou a atenção imediatamente foi a postura dela: os ombros estavam erguidos, firmes. Ela parecia fria. Calculista. E o sussurro não parecia de alguém nervoso ou preocupado.
Eu não consegui ouvir o que ela dizia, ela falava baixo demais e tudo o que chegava aos meus ouvidos era um zumbido e palavras cortadas. Minhas mãos congelaram. Ela estava falando de mim? Com quem? Com a Verônica? Com o Simão? Eu dei um passo para trás e o meu salto estalou no piso. Eu me apressei para chegar ao fogão.


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