"Julian"
Eu sabia gerenciar crises operacionais de grandes multinacionais de olhos fechados, mas tentar encontrar o novo sócio misterioso da holding e manter o controle do segredo da Lorena enquanto aquela tempestade de cabelos escuros morava no quarto ao lado e desfilava o dia todo naquele maldito uniforme customizado estava testando todos os meus limites e bagunçando os meus pensamentos.
Eram três da manhã, meus olhos ardiam diante das três telas de notebook abertas em minha frente. Eu estava tentando me manter focado em quebrar a criptografia das contas que a Lorena tinha mapeado há dois dias, quando nos reunimos no escritório com os arquivos que o Andrey conseguiu. Ao mesmo tempo a minha mente fervilhava com latório telefônico da Adelaide, que os meus contatos na inteligência privada me encaminharam trinta minutos antes.
Por fim, o relatório telefônico da Adelaide começou a me preocupar mais que o novo sócio oculto. A Lorena tinha razão. Depois de um pequeno hiato em silêncio, a Adelaide voltou a receber ligações da Verônica Albuquerque e isso foi logo depois do jantar do Conselho. E ainda havia duas ligações da governanta para um número pré-pago, e a segunda ligação foi justamente a que a Lorena ouviu. Aquilo estava muito estranho mesmo.
Eu esfreguei a testa, enquanto o Érick estava em surto paranoico farejando o ex-noivo da Fada, a Adelaide estava vendendo informações ou qualquer coisa do tipo. Mas para quem? Eu precisava descobrir com quem a Adelaide estava falando além da Verônica.
Eu estava prestes a iniciar uma pesquisa para localizar de onde saiu o sinal daquele número pré-pago quando um barulho seco na minha fechadura chamou a minha atenção. Em um reflexo puramente defensivo, eu minimizei os arquivos abertos nos computadores.
A maçaneta girou. A porta foi empurrada e, no segundo seguinte, uma silhueta deslizou para dentro, trancando a fechadura logo em seguida com um clique pouco discreto. Mas eu não relaxei quando eu vi a silhueta que cruzou a porta.
A Marcelina entrou como um furacão silencioso, usando nada mais que aquele pijaminha indecente de short e blusa que parecia dizer para mim que eu podia olhar, mas não podia tocar. O cabelo dela estava desalinhado. Mas o rosto dela parecia uma máscara de medo, como se ela estivesse em um filme de terror.
Ela estava arfante, encostada na porta como se tivesse congelado. Eu me levantei e fui até ela, a preocupação me fazendo esquecer o pijaminha sedutor.
- Julian... - A voz dela saiu num sopro, trêmula. Nem parecia a Marcelina. - Deu merda. Deu muita merda.
- Respira, Marcelina. - Eu segurei os ombros dela como se para impedir que ela desmoronasse. - O que aconteceu?
- A Morgana acabou de me ligar da Infernal. - As palavras dela atropelavam o ritmo do quarto.
- Morgana?
- A garota que fica no bar. A Medusa, aquela cretina ordinária, saiu da Infernal. - A Marcelina revelou como se aquilo fosse uma enorme tragédia. - A voz da Marcelina não era mais que um sussurro.
- Marcelina, Calma. - Eu a segurei e a fiz olhar nos meus olhos. - Agora respira e me explica direito o que está acontecendo.
- Você sabe quem é a Medusa, ela ficava em cima do Albelini como formiga no doce quando vocês iam até lá. Ele nunca deu mole pra ela... pra nenhuma. Mas quando o Barão mandou a Scarlet atender vocês no trono, a Medusa ficou uma fera, e quase morreu de inveja quando viu o Albelini sair da boate com a Scarlat.
- Tá, eu sei quem é essa Medusa, o Érick a detestava. Mas o que tem de mais no fato dela ter saído da boate? - Eu perguntei sem conseguir entender onde a Marcelina queria chegar.
- Julian, você não é tão inteligente quanto o Albelini pensa que é. - A Marcelina me encarou irritada.
- Também não precisa ofender, Baby. Você entra no meu quarto as três da manhã, dessa parte eu gostei, mas não está falando nada com nada e está me deixando confuso.
- Julian, quem está na Infernal está sob as regras do Barão e está proibido de abrir a boca sobre Scarlat ou Pandora. E agora a filha da puta da Medusa não está mais lá e ela morria de inveja da Scarlat. Entendeu?

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