"Erick"
Eu mal consegui dormir nas poucas horas que restaram da minha noite com a Scarlat e quando eu acordei essa manhã, atrasado, ela não estava mais lá. Porém, o rastro dela ainda estava em todo lugar, no lençol bagunçado, na mancha de maquiagem na minha camisa e, principalmente, no envelope com o dinheiro que ela teve a audácia de devolver outra vez.
Dessa vez ela tinha escrito com o bilhete e não apenas impresso. "Você continua não comprando o meu tempo". A frase martelava na minha cabeça enquanto eu dirigia de volta para casa.
Eu entrei na cozinha e vi a nova babá conversando com a Alice, com aquele brilho nos olhos e parecendo ter tido uma noite perfeita de sono tranquilo e bons sonhos. Era como se eu olhasse para o oposto do caos da noite anterior. A babá era a ordem, a doçura, um irritante temperamento tímido e aquele cheiro de coco que parecia impregnar as paredes.
Eu precisava de um banho, precisava tirar o cheiro da Scarlat do meu corpo, porque o contraste entre a capetinha que me deixava louco e a babá que me tirava do sério estava causando pane no meu sistema. As duas eram opostos perfeitos, como fogo e gelo. Num segundo eu me dei conta do que estava fazendo e saí da cozinha irritado comigo mesmo
- Onde já se viu, Albelini? Comparar essas duas não tem o menor cabimento. - Eu murmurei para mim mesmo logo que saí da cozinha.
Eu tomei um longo banho, tirando cada marca de batom e maquiagem que aquela mulher deixou no meu corpo. A maquiagem dela grudava tanto quanto o perfume. Mas tirar as evidências da minha pele não removeu a Scarlat de mim, era como se eu ainda pudesse sentir cada beijo que ela me deu. Mas eu precisava me concentrar, eu tinha coisas importantes a resolver, eu tinha que cuidar dos interesses da minha filha.
Do alto da escada eu vi a Srta. Valente de pé e a Alice sentada na ponta do sofá. Eu me aproximei silenciosamente pelas costas da Srta. Valente, sentindo uma estranha necessidade de me aproximar mais dela e testar se a rigidez na sua postura era real ou apenas medo.
Fazendo um gesto para a Alice ficar em silêncio. A minha filha era uma pequena bruxinha que amava uma traquinagem e por isso eu tinha certeza de que ela ficaria quieta, como ficou, com aquela carinha de anjo. Por um breve momento eu senti o cheiro de açúcar e coco da nova babá, mas o perfume dela parecia mais forte e mais confuso para mim do que no dia anterior.
Enquanto ela murmurava sobre o meu atraso eu tive vontade de rir, mas me mantive sério porque queria ver até onde iria a coragem dela, se me enfrentaria ou viria com aquele "sim, senhor" irritante. Ao ouvir a minha voz, ela girou nos próprios calcanhares lentamente, seu rosto com aquela expressão de neutralidade profissional entediante e seus olhos castanhos, que pareciam destoantes demais daquela imagem de submissão e timidez, brilhavam diferente esta manhã.
- Apenas comentando com a Alice que a pontualidade é uma virtude que o senhor parece apreciar, Sr. Albelini, e que certamente o senhor teve um imprevisto importantíssimo. - Ela respondeu baixo e delicamente, num tom respeitoso, mesmo assim me pareceu que ela me repreendia de alguma maneira.
- Eu tive uma noite... produtiva, Srta. Valente. Algumas negociações exigem mais tempo do que o planejado. - Eu me inclinei um pouco mais em direção a ela, havia algo diferente nesta manhã. - Vamos? O carro está esperando.
Enquanto caminhávamos para o carro eu a observei. A gola alta da blusa preta me incomodava por alguma razão, e o cabelo estava preso de forma tão severa que parecia uma armadura.
Eu peguei as chaves com o motorista e observei a Srta. Valente prestes a entrar no carro ao lado da Alice.
- Srta. Valente. - Eu chamei com a voz firme e abri a porta do carona. - Na frente comigo.
A minha pergunta fez a mulher ao meu lado tremer, gaguejar e eu tinha certeza que dessa vez ela poderia desmaiar. Eu tinha achado a brecha, havia algo, mas o que era?
- E-eu... n-não há segredo, senhor. Apenas... me desculpe, senhor, mas a sua presença é intimidante. - Ela respondeu como se não encontrasse a desculpa certa e eu acabei rindo.
- Não me diga que está realmente acreditando que eu sou o bicho papão como a Alice disse ontem no almoço? - Eu voltei a minha atenção para o trânsito.
- Não, senhor. Me descupe. O senhor é o meu chefe, um homem importante, eu sou apenas uma babá. Alguém invisível. - Ela voltou a mexer nervosamente na gola.
- A pessoa que cuida do que eu tenho de mais precioso não é invisível para mim. Eu te observo, Srta. Valente, o tempo todo. - Eu declarei e pelo canto do olho vi ela arregalar os olhos e quase engasgar com próprio fôlego.
Aquela mulher tentava se apagar, mas o brilho que vi nela na escola, a inteligência viva, a autoridade natural com que conduziu as conversas, me dizia que havia uma mulher vibrante enterrada sob a austeridade cuidadosamente construída.
Enquanto eu dirigia o restante do trajeto em silêncio, a imagem daquela gola alta sufocante e do coque que parecia punir o seu couro cabeludo continuava a me intrigar. Uma ideia começou a tomar forma. Eu acabava de decidir alterar um detalhe crucial nas suas condições de trabalho, algo que a ensinaria, de uma vez por todas, que sob o meu teto, ela não poderia desaparecer.

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