"Lorena"
Todo aquele tempo ao lado do Erick Albelini aquela manhã tinha fritado os meus nervos. Ele era observador e eu estava quase desmoronando. Assim que ele parou o carro na frente da casa eu desci e comecei a caminhar em direção a entrada dos fundos da casa. Eu estava com a nítida sensação de que ele estava brincando de gato e rato comigo. Mas era melhor deixar as coisas acontecerem, eu já estava na chuva, completamente molhada, então não me custava dançar conforme a música.
Eu entrei na cozinha no momento em que a Adelaide desligava o celular e o deslizava para o bolso do casaco. Ela me olhou como se quisesse um relatório formal da visita à escola, mas eu não precisava fazer isso, embora ela fosse a governanta da casa, eu não respondia diretamente a ela sobre as coisas da menina.
- O que aconteceu na escola? - A pergunta dela foi entre acusadora e desconfiada.
- Nada demais. Por que da pergunta? - Eu a encarei, já estava meio cansada da Adelaide tentando me apavorar como se me quisesse longe dali. Mas ela apenas me deu as costas.
O resto da manhã passou como um borrão enquanto eu organizava as coisas da Alice e tentava, sem sucesso, decifrar o que omeu chefe estaria aprontando, ele pareceu tão enigmático, com aquele sorrisinho de lado quando estacionou em frente a casa.
Buscar a Alice na escola com o motorista me deu um breve respiro. Perto dela, eu era apenas a Lorena que cheirava a "doce de vitrine", a babá que os seus cabelos e com quem ela compartilhava pequenas observações. Mas o retorno à mansão para o almoço trouxe a sombra dele de volta, porque eu sabia que ele estaria lá.
O almoço foi um exercício de autocontrole, eu não conseguia controlar o nervosismo perto do Erick. Ele estava silencioso, mas eu sentia seus olhos azuis sobre cada movimento meu, como se estivesse procurando algo.
- Lorena, você tem namorado? - A pergunta pessoal e sem rodeios da Alice me fez sobressaltar na cadeira.
Eu quase me engasguei. Senti o ar da sala congelar instantaneamente. Erick, que estava prestes a levar o copo de vinho aos lábios, parou o movimento. O azul dos seus olhos escureceu, fixando-se em mim com uma intensidade que eu conhecia. Foi como se a pergunta despertasse o seu interesse.
- Não, Alice, eu não tenho namorado. - Eu respondi um tanto tensa, fazendo aquele esforço de quem carrega um piano nas costas para parecer normal. Mas eu senti o meu rosto esquentando imediatamente.
- É que o Professor Renato, de educação física, ficou me perguntando um monte de coisas sobre você. - A menina continuou falando enquanto brincava com as ervilhas no prato, alheia à tensão que se formou no ambiente. - Ele disse que você é a babá mais bonita que já passou por aquela escola. E perguntou se você era solteira.
O som do cristal do copo batendo sobre a mesa foi seco e não era a minha taça. O Erick se inclinou para frente, mas ele não olhou para a filha, embora falasse com ela.
- E o que mais o Professor Renato teve a audácia de perguntar, Alice? Ele deveria estar preocupado com as aulas dele e não com as babás, ou será que eu devo fazer uma reclamação junto a diretoria? - A voz dele saiu em um tom baixo, perigosamente calmo, mas carregado de uma autoridade que me fez tremer por baixo da mesa.
- Nada, papai. Ele só perguntou isso e disse que ela é muito bonita. - Ela deu de ombros, sorrindo para mim. - Eu disse que você era legal e cheirava a doce. Mas o professor está certo, a Lorena é linda, não é, papai?
O Erick não desviou os olhos de mim. A mandíbula dele estava tão tensa que eu podia ver os músculos saltarem. Ele ignorou a comida, ignorou a filha por um segundo, focado apenas na babá que agora era alvo de cobiça alheia.
Eu ergui os olhos para ele, em pânico. Ele sabia. Se não sabia, eu estava encrencada para esconder as marcas.
- Algum problema, Srta. Valente? - Ele se inclinou, a voz rouca perto demais do meu ouvido. - Você parece ter perdido a voz. Ou será que não usa vestidos?
- É... um vestido. - Eu sussurrei, sentindo o peso do tecido nas mãos. - Senhor, acho que esse vestido é muito elegante para o uniforme de uma simples babá.
- Você não é uma simples babá, Srta. Valente, você é a babá de uma Albelini. Esse é o seu novo padrão. - Ele respondeu sem se afastar um milímetro, baixando a voz meio tom. - Nada de golas sufocantes. Nada de cores que tentam desaparecer nas paredes. Se o Professor Renato consegue enxergar a mulher sob o disfarce, eu prefiro que essa mulher esteja devidamente apresentável ao lado da minha filha. Abra a outra caixa.
Na outra caixa um sapato de salto que parecia saído de um editorial de moda europeu. Eram de um verniz preto impecável, com uma tira fina que abraçava o peito do pé com uma fivela dourada minúscula. O salto era em bloco, médio e robusto, o que dava uma estabilidade elegante. Aquilo gritava que não era um sapato comum, era um acessório para exibição.
Ele se inclinou, a voz baixando para aquele tom rouco que eu conhecia tão bem da suíte.
- Seus saltos são perigosamente finos para as escadas desta casa, embora sejam de muito gosto, talvez estes sejam mais confortáveis para passar o dia atrás de uma criança. - Ele me encarou por um segundo, minha boca estava aberta e eu estava estática, sem respirar. Ele limpou a garganta e finalmente se afastou. - E prenda o cabelo de um jeito menos... agressivo, não quero que as pessoas pensem que a babá da minha filha é uma torturadora. Pode ir se trocar.
Com aquelas caixas nas mãos eu me arrastei para fora do escritório sem dizer uma palavra. Aquele uniforme não só mostraria as marcas no meu pescoço, ele me deixaria em evidência... e faria a Adelaide espumar de raiva.

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