"Érick"
Enquanto a Adelaide falava, eu me dei conta de que a mantive por perto para ficar de olho, mas eu não estava tão de olho nela assim. O assunto do novo sócio misterioso havia me consumido completamente e eu estava levando o trabalho para casa e mantendo a Lorena e a Marcelina ocupadas com isso também. Ninguém estava de olho naquela traidora. Eu tinha cometido um erro básico: subestimar meus inimigos.
- O que eu não entendo é como essa vagabunda veio parar nesta casa. Eu mesma liguei para a agência, dei instruções claríssimas, dei o nome da minha amiga que deveria ser enviada para o seu esritório. Ela sim, uma babá perfeita. Pulso firme. Respeitável. Tudo o que essa casa e a menina Alice precisam. Não essa vagabunda sem classe e sem sobrenome. - A Adelaide parecia não conseguir parar a sua torrente de palavras.
- O que você disse? Você tentou manipular a contratação da babá da minha filha, mesmo depois que eu disse que não queria uma indicação sua? Que não queria alguém rígida como você responsável pela minha filha? - Eu elevei o tom de voz.
- O senhor não sabe o que quer! - Ela respondeu inabalável. - O senhor claramente não sabe cuidar de uma casa. Não sabe nem cuidar daquela menina. Se soubesse não permitiria que ela ficasse por aí chutando uma bola. Se soubesse, não teria colocado essa mulherzinha dentro de casa.
- Quanta audácia, Adelaide! - Eu a encarei. - Quem te deu o direito de pensar que sabe o que é melhor para mim, para a minha filha ou para a minha casa? Quem você pensa que é?
- Eu sou a guardiã da linhagem dos Albelini! A sua avó me deu essa missão, quando o seu pai enlouqueceu e se casou com a sonsa da sua mãe!
- Dobra a porra da língua e nãop fala da minha mãe! - Eu vociferei, mas ela não deu a mínima.
- Pelo menos a sua mãe só não tinha uma linhagem, mesmo. Era só uma estudantezinha universitária sem ter onde cair morta quando o seu pai perdeu o juízo por causa dela. Essas ideias de amor. - Ela bufou. - Ah, seria tudo tão diferente se ele tivesse seguido os planos da sua avó e se casado com uma das filhas dos Albuquerque. A D. Rosenda sim era uma mulher digna, que sabia como manter a linhagem de uma família. Mas o seu avô amoleceu o coração com o sorrisinho da sonsa da sua mãe e o seu pai se casou com ela. Quando você se casou com a mãe da menina Alice, que não era a mulher mais enérgica, mas tinha um sobrenome pelo menos, era claro que você não se deixava guiar por aquelas bobagens de amor. Pelo menos até essa vagabunda dessa acompanhante de luxo se disfarçar de babá e entrar nessa casa como a serpente no paraíso.
Eu estava chocado com a quantidade de impropérios que a Adelaide derramou sobre mim. Foi como se uma barreira tivesse se rompido e ela não conseguisse parar de falar.
- CHEGA! - Eu gritei, batendo na mesa.
Eu atirei o envelope sobre a mesa e me levantei, dei a volta e parei bem em frente a Adelaide. Ela era muito pior do que eu imaginava. Eu queria arrancar a cabeça dela. Eu a encarei por alguns segundos, ela não demonstrou qualquer sinal de respeito, apenas aquele ar arrogante de quem se acha a dona da verdade.
- Fora da minha casa!
- O quê? - Ela riu, parecendo confusa.


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