"Érick"
Eu fiquei estático por alguns segundos, encarando o envelope pardo em cima da mesa e todos aqueles papéis e fotos que eu havia tirado de dentro dele. A primeira coisa que eu vi? Uma foto da Scarlat no camarim da Infernal de frente para o espelho, ainda sem a peruca azul e vermelha, os cabelos castanhos como os da Lorena caindo pelos seus ombros.
O escritório estava mergulhado em um silêncio sepulcral, quebrado apenas pelo farfalhar das folhas de papel que eu passava. Folhas de papel sulfite com relatórios timbrados da agência de investigação. Fichas financeiras. E fotos. Muitas fotos. Eu conseguia ouvir o som da minha própria respiração, pausada, controlada, mas o sangue nas minhas veias corria depressa, espalhando o veneno pelo meu corpo e causando uma dor lancinante. Era como se eu estivesse morrendo, lenta e dolorosamente.
Meus dedos rígidos tocaram a primeira imagem. Meus olhos arderam. Eu me sentia sufocando, meu peito subindo e descendo rápido, lutando para manter a minha respiração. Eu puxei a foto de lado e olhei a segunda.
Era uma fotografia em alta resolução, tirada na penumbra vermelha e dourada da boate Infernal. Na imagem, uma mulher estava sentada de forma provocante num dos camarotes reservados. Ela usava aquele espartilho que eu me lembrava tão bem e que desenhava suas curvas com uma perfeição pornográfica, a maquiagem perfeita como uma máscara ocultava o seu rosto, e o sorriso escancarado como se debochasse de mim. Scarlat.
Aquela foto parecia ter ganhado vida. Era como se ela olhasse nos meus olhos e risse de mim, do quão idiota eu era. Eu senti o ar sumir dos meus pulmões como se tivesse levado um soco no estômago. O déjà vu que me assombrou quando eu saí do quarto mais cedo... eu de fato já tinha visto aquela imagem antes. Essa era a porra da realidade.
A capetinha que havia me enlouquecido na boate, me levado para o inferno, a mulher misteriosa cujo perfume e garras ficaram cravados na minha memória por meses, que tinha me deixado obcecado... ela não tinha desaparecido como fumaça. Ela estava dormindo na minha cama. Cuidando da minha filha. Se infiltrando na minha empresa.
Eu comecei a passar as fotos, uma a uma, as folhas de papel com uma raiva fervendo dentro de mim. Os relatórios de atendimento da Infernal. O nome de registro civil estava lá, impresso em tinta preta, totalmente legível, sem chance para equívocos, ao lado do pseudônimo: Lorena. Para confirmar o desastre, anexada à ficha, estava a cópia do formulário de admissão da boate, preenchido à mão numa letra apressada. Cada dado dela estava ali.
A Fada. A Scarlat. A babá pura. A acompanhante de luxo. Coco e açúcar mascavo. Absinto. Claro e escuro. Noite e dia. Doce e amargo. Tudo a mesma pessoa. E por que? Qual era a real intenção por trás dessa farsa?
A minha mente de empresário, acostumada a prever golpes de mercado, entrou em colapso completo. Eu não previ o pior gospe que eu poderia levar. Cada sorriso doce da Lorena no café da manhã passou pela minha memória como me retalhasse. A Marcelina... Pandora... fingindo deboche e vigiando os meus inimigos.
E para piorar, eu me dei conta de um detalhe, aqueles três andavam juntos como uma trindade ultimamente. Meu instinto gritava que ele sabia. O Julian sabia. O meu melhor amigo, meu homem de confiança, tinha montado um maldito teatro pelas minhas costas para me manter cego. Eles me trataram como um idiota na minha própria casa.
Um silêncio mortal e calculista me dominou. Eu não gritei. Não quebrei os objetos da mesa. Apenas duas lágrimas quentes romperam a barreira e escorreram pelo meu rosto, mas eu as sequei. O meu exterior pacífico e silencioso era o completo oposto do meu interior que gritava de dor e desespero me rasgando por dentro.
Eu respirei fundo, eu era um homem inteligente, um homem que sempre tinha o controle nas mãos. Eu senti o amor visceral que eu nutria por ela se misturar com um ódio primitivo, ferido e perigoso. Ela tinha me domado. Tinha se transformado no meu único refúgio, na minha calmaria, o meu paraíso... sabendo exatamente qual botão apertar porque já tinha conhecia o meu corpo, já tinha me levado ao inferno no camarote daquela boate.

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