"Érick"
A Lorena me encarava estática, emudecida, em choque absoluto. Eu queria que ela sangrasse como eu. Queria que cada palavra minha funcionasse como os dentes de um predador, rasgando a pele perfeita e o sorriso de anjo que ela usava para me fazer de idiota.
A dor no meu peito não era apenas emocional, era uma dor física, era uma sensação de morte iminente e dolorosa, tão intensa que eu precisava espalhá-la, deixar sair, compartilhar. Precisava que aquela mulher sentisse o mesmo inferno que estava me sufocando. Eu a arrastaria comigo para o meu próprio inferno, um inferno de onde ela não poderia escapar!
- O que foi, Lorena? O gato comeu a sua língua afiada? Ou você perdeu as garras depois de enfrentar o Simão? - Eu perguntei, a minha voz saindo num tom arrastado, cínico, desprovido de qualquer calor. Eu me levantei devagar, contornando a mesa como um lobo cercando a presa.
Ela deu um passo para trás, colando as costas contra a porta fechada. O azul claro do seu vestido fluido agora parecia uma piada de mau gosto, uma fantasia de pureza que ela usou para se infiltrar sob o meu teto.
- Érick... por favor, me deixa explicar... - A voz dela falhou, os olhos castanhos inundando-se de lágrimas enquanto ela olhava fixamente para a calcinha de renda preta e as fotos da Scarlat espalhadas sobre a minha mesa. A mesma mesa onde eu já havia feito amor com ela, apaixonado, cego.
- Explicar o quê? - Eu parei a poucos centímetros dela, forçando-a a erguer o queixo para sustentar o meu olhar carregado de desprezo. - Vai me explicar as regras do seu camarote do inferno? Vai me explicar se o seu perfume de absinto custava mais caro para mim? Ou vai me explicar como foi fácil se disfarçar de babá doce e inocente para dar o golpe no idiota Albelini?
- Não! Não foi um golpe! - Ela soltou um soluço, as lágrimas rolando pelo rosto pálido. Ela tentou tocar o meu braço, mas eu recuei o corpo como se o toque dela fosse veneno puro. - Eu tentei te contar. Todos os dias eu tentava, mas...
- Mas não contou! - Eu vociferei, a fúria finalmente rompendo a barreira do meu cinismo por um segundo. Eu bati com a palma da mão na madeira da porta, bem ao lado da cabeça dela, fazendo-a estremecer e fechar os olhos por um segundo. - Você se deitou comigo ontem à noite. Se desfez nos meus braços, me chamou de seu refúgio, sabendo que tinha sido paga para me servir naquela boate imunda! Você me transformou em uma piada. Érick Albelini sendo feito de otário pela acompanhante de luxo mais disputada da cidade. Você e a sua amiguinha montaram um teatro na minha própria casa! Vocês convenceram o idiota do Julian a mentir pra mim!
- O Julian e a Marcelina não têm culpa. O Julian só queria proteger você... - Ela tentou defender, o desespero ditando o ritmo das suas palavras desconexas e apressadas.
- Cale a boca! Não ouse citar o nome do meu amigo! Como vocês o convenceram a participar disso, hein, Lorena?! - Eu sibilei, o meu rosto a milímetros do dela. Eu via o terror nos olhos dela, via a dor que eu estava causando, e uma parte doentia e ferida em mim sentia um prazer amargo nisso. Eu precisava estraçalhá-la, vê-la sangrar. - Você não passa de uma acompanhante de luxo que achou que podia virar dona de um império. Mas a brincadeira acabou, Scarlat. Eu acordei!
- EU NÃO SOU UMA PROSTITUTA, ALBELINI! NUNCA FUI! - Ela gritou na minha cara.

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