"Lorena"
Eu saí da cama com um sorriso bobo depois de uma noite de amor nos braços do homem da minha vida. Eu não imaginava que ele arrancaria de mim as lágrimas mais dolorosas que eu já havia chorado.
Eu saí daquele escritório como se estivesse morrendo. Completamente destruída e humilhada.
Eu não conseguia respirar.
O ar parecia não chegar aos meus pulmões que queimavam enquanto eu corria pelo corredor. Minhas pernas tremiam tanto que a cada passo parecia que eu ia desabar, mas eu precisava continuar correndo. Eu precisava me afastar. As palavras do Érick ecoavam na minha mente como marteladas em metal. Acompanhante de luxo. Mentira. Traição. Nojo.
O homem que me tocou com tanta adoração na noite anterior havia sumido. No lugar dele... eu nem sabia o que estava no lugar dele, eu apenas sabia que aqueles olhos azuis que eu amava estavam cheios de um ódio cego e impiedoso. Ele nem ao menos me ouviu. Ele olhou para as fotos da Scarlat na mesa e me sentenciou à morte. Sim, à morte. Porque eu estava sangrando de dor e eu tinha certeza que o meu coração estava esmagado no meu peito. A morte era questão de tempo.
- Lô! Meu Deus, o que aconteceu?! - A voz da Marcelina me puxou do abismo por um segundo.
Eu estava no pé da escada, me apoiando na balaustrada para não cair, quando a Marcelina entrou como um furacão pela porta da frente da mansão. O cabelo escuro dela estava bagunçado e o rosto exibia uma mistura de urgência e pânico.
- Eu acabei de cruzar com o Alberto no portão... ele jogou as malas da Adelaide na rua! A bruxa irritante foi expulsa? - A Marcelina correu até mim, segurando os meus ombros assim que me alcançou. Mas no momento em que eu ergui a cabeça e ela olhou para o meu rosto pálido e as bochechas molhadas de lágrimas, ela travou e suavizou a voz. - Lô... o que foi?
- Ele sabe, Lina... - A minha voz saiu num fiapo, um soluço rasgando a minha garganta. - O Érick sabe de tudo. A Adelaide... ela estava com as provas que a Medusa conseguiu. Estava tudo em cima da mesa. As fotos da Scarlat, um monte de papéis... tudo.
A Marcelina arregalou os olhos, o ar escapando dos lábios dela. Ela parecia ter sido atingido por uma barreira de concreto que lhe deixou sem ar, sem palavras e sem reação.
- Não... a Medusa? Aquela desgraçada... - Ela sibilou, os dentes trincados.
- Ele nos quer fora da casa antes do meio-dia. - Eu continuei, o desespero me sufocando enquanto eu limpava as lágrimas que não paravam de cair com as costas das mãos. - Ele me chamou de puta, Lina. Ele disse que eu dei um golpe nele. A minha vida acabou, Lina. Nós temos que ir embora. Agora.
- O quê? Eu vou quebrar a cara daquele desgraçado! Ele não vai falar assim com você. - A Marcelina girou o corpo na direção do corredor do escritório, pronta para colocar fogo em tudo, mas eu segurei o braço dela com todas as minhas forças restantes.
- Não! Não vai! Ele está trancado, magoado, com raiva, Marcelina! Ele ameaçou me colocar na cadeia se eu chegar perto da Alice de novo. A minha menina, Lina... eu vou morrer sem ela! Eu vou morrer sem ele, Lina!
- Para com isso! Você já enfrentou coisa pior, Lô. E você estava sozinha. Agora você não está mais sozinha. Os engomadinhos não são nada perto do que você passou. O Albelini não sabe de nada! E se ele não te deu nem chance de explicar, se ele de deixou tão fácil assim, ele não te merece. Presta atenção, Lô... se acalma. Cabeça erguida, amiga, você não tem do que se envergonhar.
- O que está acontecendo é que o seu plano de contenção foi uma merda, Beaumont! - A Marcelina cuspiu as palavras, avançando um passo na direção dele, a voz baixa, mas carregada de raiva. - A Adelaide entregou a cabeça da Lorena em uma bandeja de prata para o Albelini. Ele sabe de tudo. Da Infernal, da Scarlat, de mim. Tudo!
O Julian travou. Pela primeira vez desde que o conheci, eu vi o choque genuíno no rosto dele. Talvez porque foi a primeira vez que algo tão grande saiu do seu controle. Ele olhou para mim, assimilando o desastre que acabava de explodir.
- Merda... - Ele praguejou, levando a mão ao colarinho da camisa, onde a marca da mordida da Marcelina ainda estava evidente. Ele deu um passo na minha direção. - Lorena, calma. Eu vou falar com o Érick e resolver isso. Ele está cego pelo impacto, mas eu consigo acalmá-lo e...
- É impossível, Julian. - Eu o interrompi, balançando a cabeça, um sorriso amargo e sem vida surgindo nos meus lábios trêmulos. - Não há o que resolver. Ele não vai te ouvir. Ele não vai ouvir ninguém. O orgulho dele está ferido. Ele tem as fotos. Para ele, eu sou apenas uma mentirosa vulgar que riu da cara dele na própria cama. Deixa ele, depois vocês conversam. Se você for agora ele vai descontar em você. De alguma forma ele deduziu que você já sabia.
- Eu sou o homem de confiança dele, Lorena. Ele vai me ouvir. Nós somos amigos. - O Julian ditou com aquela arrogância profissional inabalável, embora o vinco entre suas sobrancelhas entregasse a preocupação real.
- Vai, então. - A Marcelina interveio, a voz cortante como uma faca. - Vai lá e sente o tamanho do estrago. Ele já colocou até aquela governanta de merda pra fora. Enquanto isso, nós estamos arrumando as malas. E não ouse nos impedir.
O Julian trocou um olhar pesado com a Marcelina. Ele percebeu que as trancas do quarto dela, que deveriam sumir, tinham acabado de virar uma fortaleza impenetrável. Ele assentiu uma única vez, virou-se e desceu com passos rápidos e estrondosos, indo na direção do escritório. Mas eu sabia, ele não conseguiria nada! Eu estava no inferno e a única pessoa que poderia me tirar de lá não faria isso.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite