"Julian"
A Lorena estava destruída. Eu nunca tinha visto um sofrimento tão exposto quanto o dela. E não era apenas ela. O jeito que a Marcelina me encarou... não era apenas raiva, era um desprezo total. E a cada passo que eu dava em direção ao escritório eu sentia que a ordinária da Adelaide tinha explodido uma bomba atômica que acabou com o Érick e com a Lorena, mas que também acabaria comigo.
Eu girei a maçaneta do escritório e entrei sem bater. Eu gerenciava crises corporativas internacionais, mas cruzar aquela porta era como se eu estivesse me jogando em queda livre de um precipício. Eu conhecia o Érick, ele poderia estar muito puto e descarregar a raiva socando as paredes ou poderia estar realmente irritado e exalando arrogância, frieza e crueldade.
O cômodo estava mergulhado na penumbra das cortinas semiabertas. Tudo estava no devido lugar, não havia um único pedaço de papel sobre a mesam nada estava desalinhado. O Érick estava de pé, de costas para mim, encarando a vidraça da janela. Os ombros largos dele estavam rígidos sob o terno escuro. Era pior do que eu pensei.
- Érick. - Eu chamei, a minha voz saindo firme, tentando evocar o controle de danos que eu fazia de olhos fechados.
Ele não se virou imediatamente. Mas quando o fez, o homem que me encarou me fez travar os passos. Os olhos azuis dele estavam injetados, o rosto pálido e o maxilar tão trincado que os músculos da face pulsavam. Não havia gritos. Havia uma calmaria assassina que era mil vezes pior.
- Você sabia. - Não era uma pergunta. A voz dele veio grave, baixa, cortando o silêncio do escritório como um tiro disparado. - O que eu quero saber é a quanto tempo você sabia. - Ele falava pausadamente e eu tive certeza de que o estrago feito pela governanta era de proposções épicas.
Eu respirei fundo. No meu mundo, mentir para o Érick Albelini em um momento como este era assinar uma sentença de destruição imediata. Ele acabaria comigo e pior ainda, e3u tinha perdido o meu amigo.
- Eu descobri há poucos dias, Érick. - Eu respondi, sustentando o olhar dele. - Na verdade, sempre esteve na nossa cara, nós só não nos demos conta porque não quisemos. Foi na primeira estadia da Marcelina aqui, quando ela foi embora, o jeito como ela se despediu de mim. Eu já estava desconfiado, mas não queria admitir. Então eu fui atrás dela, a peguei de surpresa, chamei de Pandora e ela não teve como negar. Eu ia te contar, mas nós estamos passando por um momento delicado de transição. Eu precisava blindar a holding primeiro. Foi uma decisão estritamente profissional... era o que você faria no meu lugar.
- Profissional o caralho, Julian! - A voz dele subiu um tom, a fúria finalmente quebrando a fachada de gelo por um segundo. - Você mentiu para mim. Você sentou na minha mesa de jantar, comeu a minha comida, viu a Lorena cuidar da minha filha e riu da minha cara pelas minhas costas junto com aquelas duas!
- Eu não ri de você, porra! Eu estava protegendo a porra da nossa empresa e a sua estabilidade emocional para a reunião de extinção do antigo Conselho e chegada do novo sócio! - Eu rebati, dando um passo à frente, recusando-me a ser pisoteado pelo surto dele.
- Você me tratou como um idiota na minha própria casa! - O Érick sibilou, os olhos estreitados, o orgulho ferido. Eu podia vê-lo sangrando em cada palavra. - Eu confiei a minha vida e o meu império a você, Beaumont. Você era o meu irmão. Mas você escolheu o lado de uma acompanhante de luxo e de uma mentirosa vulgar.
- Érick...
A injustiça daquela frase me fez trincar os dentes, mas o Érick não estava disposto a ouvir a lógica.
- Duas prostitutas, Beaumont! Dentro da minha casa! Convivendo com a minha filha e a minha mãe! E você se divertindo com isso! - Ele cuspiu na minha cara. O tamanho daquele absurdo me deixou em choque. - Agora me diz, o D'Ávila sabe? - Ele esperou, mas eu ainda estava processando o que ele havia dito antes. - Responde!

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