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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 196

"Lorena"

Eu sentia um nó cego no estômago. Entrei no quarto e caminhei até o closet com os passos pesados, os soluços finalmente dando trégua, deixando em seu lugar apenas um vazio, frio e dor. Eu ignorei todos os vestidos caros, as joias e os sapatos de grife que o Érick havia comprado para mim nas últimas semanas. Eu não queria nada da holding. Não queria nada dele. O meu pior pesadelo estava materializado, o homem que eu amava pensava que eu só queria o seu dinheiro, que eu era uma acompanhante de luxo.

Cada peça de roupa cara comprada com o dinheiro dele agora parecia uma bofetada no meu rosto. Se para ele eu era apenas uma mentirosa vulgar, uma acompanhante de luxo que havia sido paga para servi-lo na boate, eu não levaria um único centavo dele comigo. O luxo pertencia ao Albelini. Mas a minha dignidade pertencia a mim e isso o dinheiro dele não podia comprar.

Eu peguei apenas a minha velha mala. Dentro dela, estavam as roupas que eu vestia antes de pisar naquela mansão. Eu a abri e peguei um calça e uma camisa. Tirei o vestido azul claro que eu havia colocado esta manhã, vesti meu jeans desbotado e uma camisa de algodão preta, calcei o meu velho tênis e deixei o closet intacto, repleto de cabides cheios de luxo e vazios de amor.

Antes de sair do quarto, eu parei diante da mesinha de cabeceira do lado da cama e coloquei ali o cartão de crédito que ele havia me dado, agradecendo a Deus por nunca ter tocado naquilo e por não ter me desfeito das minhas coisas.

Eu bati a porta atrás de mim, a Marcelina já me esperava no corredor. O rosto dela estava rígido, as defesas totalmente reerguidas para mascarar a dor de ver o nosso mundo desabar, porque ela desabou comigo. Nós demos as mãos e fomos em direção a escada. Assim que pisamos no último degrau o Julian apareceu. Ele parecia abalado.

Eu parei no mesmo instante. Ele estava irreconhecível. A postura inabalável e o sorrisinho convencido que ele ostentava haviam evaporado. O rosto dele estava pálido de raiva, o colarinho do terno cinza ligeiramente desalinhado e os olhos exalavam uma frustração brutal. A briga com o Érick tinha sido feia.

O Julian parou ao nos ver e se aproximou. Ele olhou para a minha mala, depois para a Marcelina. Havia um sofrimento contido no olhar dele, o peso de quem havia tentado controlar o caos e acabou sendo atingido pelo fogo cruzado.

- Eu sinto muito, Lolô. - O Julian falou, a voz saindo mais grave e rouca do que o normal, desprovida da habitual arrogância cômica. - Eu tentei falar com ele. Tentei fazê-lo ouvir a lógica, mas o Érick está completamente cego. A Adelaide envenenou a mente dele de um jeito que... ele não vai ouvir ninguém por enquanto.

- Eu avisei que seria inútil, Julian. - Eu respondi, tentando manter a voz linear, engolindo o nó na garganta. - O orgulho do Érick é maior do que qualquer lógica. Obrigada por tentar. Como você está?

- Ele acabou comigo. - O Julian esfregou o rosto.

- E a culpa é sua! - A Marcelina rebateu feroz. - Isso tudo é culpa sua!

- Lina... - Eu dei um leve aperto na mão dela.

- Ela tem razão, Lolô. Eu calculei mal o prazo, a lógica e substimei aquele demônio da Adelaide. Me perdoa. - O Julian pediu, o cansaço e o arrependimento nos seus olhos.

- Está tudo bem, Julian. Você fez o seu melhor. Eu espero que ele pelo menos perdoe você. Não é justo a amizade de vocês terminar por minha culpa. - Eu coloquei a mão no ombro dele.

- Olha, eu vou pegar as minhas coisas. Também fui expulso, claro. - Ele deu um sorriso triste. - Me esperem uns minutos. Vocês podem passar uns dias lá em casa, até o Érick se acalmar para vocês conversarem.

- Isso não vai acontecer, Julian. Você e eu conhecemos o Érick. Ele não volta atrás. - Eu respirei fundo, tentando engolir o choro que ameaçava cair de novo. - Mas obrigada. Nós vamos para a vila.

- Não precisa, Alberto. - Eu respondi, apertando a alça da minha mala. - Não se coloque em problemas por nós.

- Eu já chamei um taxi, Beto. Não se preocupa. Aparece lá na vila qualquer hora pra um café. Você é bem vindo. - A Marcelina adoçou a voz e o abraçou com carinho.

- Lorena, não fecha o seu coração para o patrão, não. Ele é um bom homem. Só é... teimoso, às vezes. - O Alberto segurou as minhas mãos com cuidado e eu só consegui dar um sorriso triste para ele.

- O que aconteceu lá dentro foi muito mais do que teimosia, Alberto. - Uma lágrima caiu do meu rosto e o motorista deu um beijo gentil no dorso das minhas mãos.

A Marcelina passou o braço firme pelos meus ombros e nós duas caminhamos em direção ao portão. Lá fora, um taxi já nos esperava. Eu olhei para trás antes de entrar. Dentro daquela casa o meu coração ficou em pedaços e a minha alma foi enterrada.

Quando finalmente entramos na casa da Dalva, o peso do mundo desabou sobre as minhas costas. Joguei a mala no chão da sala e abracei a Dalva, que nos recebeu assustada. Ali, no calor daquele abraço simples e maternal, eu desabei.

A Marcelina se encarregou de contar tudo para a Dalva. Eu passei o resto do dia e toda a madrugada deitada no sofá da Dalva, chorando lágrimas tão dolorosas que pareciam escorrer pela minha pele como lâminas que rasgavam a minha carne. Eu tinha perdido o Érick. Tinha perdido a Alice. Eu estava oficialmente no inferno.

Diante do que eu sentia agora, tudo o que eu senti quando cheguei a casa da Dalva pela primeira vez parecia uma bobagem, como se fosse só um joelho ralado. Chorando ali naquele sofá, eu desejei simplesmente não existir para não sentir a dor. Mas eu existia e eu não poderia me enterrar naquele sofá, por mais que isso fosse o que eu queria.

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