"Lorena"
Eu sentia um nó cego no estômago. Entrei no quarto e caminhei até o closet com os passos pesados, os soluços finalmente dando trégua, deixando em seu lugar apenas um vazio, frio e dor. Eu ignorei todos os vestidos caros, as joias e os sapatos de grife que o Érick havia comprado para mim nas últimas semanas. Eu não queria nada da holding. Não queria nada dele. O meu pior pesadelo estava materializado, o homem que eu amava pensava que eu só queria o seu dinheiro, que eu era uma acompanhante de luxo.
Cada peça de roupa cara comprada com o dinheiro dele agora parecia uma bofetada no meu rosto. Se para ele eu era apenas uma mentirosa vulgar, uma acompanhante de luxo que havia sido paga para servi-lo na boate, eu não levaria um único centavo dele comigo. O luxo pertencia ao Albelini. Mas a minha dignidade pertencia a mim e isso o dinheiro dele não podia comprar.
Eu peguei apenas a minha velha mala. Dentro dela, estavam as roupas que eu vestia antes de pisar naquela mansão. Eu a abri e peguei um calça e uma camisa. Tirei o vestido azul claro que eu havia colocado esta manhã, vesti meu jeans desbotado e uma camisa de algodão preta, calcei o meu velho tênis e deixei o closet intacto, repleto de cabides cheios de luxo e vazios de amor.
Antes de sair do quarto, eu parei diante da mesinha de cabeceira do lado da cama e coloquei ali o cartão de crédito que ele havia me dado, agradecendo a Deus por nunca ter tocado naquilo e por não ter me desfeito das minhas coisas.
Eu bati a porta atrás de mim, a Marcelina já me esperava no corredor. O rosto dela estava rígido, as defesas totalmente reerguidas para mascarar a dor de ver o nosso mundo desabar, porque ela desabou comigo. Nós demos as mãos e fomos em direção a escada. Assim que pisamos no último degrau o Julian apareceu. Ele parecia abalado.
Eu parei no mesmo instante. Ele estava irreconhecível. A postura inabalável e o sorrisinho convencido que ele ostentava haviam evaporado. O rosto dele estava pálido de raiva, o colarinho do terno cinza ligeiramente desalinhado e os olhos exalavam uma frustração brutal. A briga com o Érick tinha sido feia.
O Julian parou ao nos ver e se aproximou. Ele olhou para a minha mala, depois para a Marcelina. Havia um sofrimento contido no olhar dele, o peso de quem havia tentado controlar o caos e acabou sendo atingido pelo fogo cruzado.
- Eu sinto muito, Lolô. - O Julian falou, a voz saindo mais grave e rouca do que o normal, desprovida da habitual arrogância cômica. - Eu tentei falar com ele. Tentei fazê-lo ouvir a lógica, mas o Érick está completamente cego. A Adelaide envenenou a mente dele de um jeito que... ele não vai ouvir ninguém por enquanto.
- Eu avisei que seria inútil, Julian. - Eu respondi, tentando manter a voz linear, engolindo o nó na garganta. - O orgulho do Érick é maior do que qualquer lógica. Obrigada por tentar. Como você está?
- Ele acabou comigo. - O Julian esfregou o rosto.
- E a culpa é sua! - A Marcelina rebateu feroz. - Isso tudo é culpa sua!
- Lina... - Eu dei um leve aperto na mão dela.
- Ela tem razão, Lolô. Eu calculei mal o prazo, a lógica e substimei aquele demônio da Adelaide. Me perdoa. - O Julian pediu, o cansaço e o arrependimento nos seus olhos.
- Está tudo bem, Julian. Você fez o seu melhor. Eu espero que ele pelo menos perdoe você. Não é justo a amizade de vocês terminar por minha culpa. - Eu coloquei a mão no ombro dele.
- Olha, eu vou pegar as minhas coisas. Também fui expulso, claro. - Ele deu um sorriso triste. - Me esperem uns minutos. Vocês podem passar uns dias lá em casa, até o Érick se acalmar para vocês conversarem.
- Isso não vai acontecer, Julian. Você e eu conhecemos o Érick. Ele não volta atrás. - Eu respirei fundo, tentando engolir o choro que ameaçava cair de novo. - Mas obrigada. Nós vamos para a vila.

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