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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 197

"Érick"

Eu não sei por quanto tempo eu fiquei no escritório, perdido na minha própria dor, tentando apagá-la da minha mente com whisky e gelo. Mas a cada gole a lembrança dela ficava mais vívida na minha memória. O dia em que ela invadiu o escritório no meio da tarde e nós fizemos amor no sofá. Os gemidos dela sobre a minha mesa de trabalho enquanto eu adorava o seu corpo. Ela exposta para mim na minha cadeira. A lembrança dela dominava todo o escritório. E se eu fechasse os olhos eu via a maldita Scarlat cavalgando sobre mim no camarote privativo da infernal. Num determinado momento as imagens já se embaralhavam na minha mente, era a Lorena na boate, a Scarlat na minha cama, as duas se fundindo e me confundindo.

Já era noite quando se tornou impossível ficar no meu próprio escritório. Eu saí cambaleando pela casa, o álcool em meu sistema entorpecendo o meu corpo, mas não tinha sido suficiente para entorpecer minha mente e... me fazer esquecer.

E então eu tomei outro soco no estômago ao abrir a porta do meu quarto. O cheiro dela, coco e açúcar mascava, me atingiu por inteiro. Eu fechei os olhos e no segundo seguinte eu fechei a porta. Eu não consegui entrar na porra do meu próprio quarto. Ela não estava mais na casa, mas era como se estivesse em todos os lugares. Mas tinha um lugar ali que não teria o cheiro dela, não teria mais do que o cheiro de produtos de limpeza: o último quarto de hóspedes do corredor oposto. E foi para lá que eu fui.

O quarto de hóspedes cheirava a vazio. Sem identidade. Sem o perfume dela. Sem lembranças. Eu deixei o meu corpo cair na cama, o álcool estava finalmente me desligando... pelo menos esta noite.

Eu acordei com o sol da manhã entrando pelas cortinas abertas, mas o calor não me aquecia, eu estava congelado por dentro. Meu peito ainda doía, uma dor física e lancinante que parecia ter se instalado sob as minhas costelas após o desastre do dia anterior. Eu me sentei na cama e pela primeira vez na vida eu me senti derrotado.

O toque estridente do celular em cima da mesinha de cabeceira quebrou o silêncio. Olhei para a tela. Dona Heloísa. Era a última pessoa com quem eu queria falar... bobagem, eu não queria falar com ninguém. Mas dela eu não podia fugir. Respirei fundo, tentando forçar a minha voz a voltar ao tom normal antes de deslizar o dedo pela tela.

- Oi, mãe.

- Érick, querido! - A voz vibrante da minha mãe veio acompanhada pelo som do vento de alguma praia internacional. - Ligamos no celular da Lorena, mas ela não atendeu. A Alice está louca para falar com ela. Onde está a nossa Lolô?

No mesmo segundo, a voz pequena e doce da minha filha ecoou ao fundo, puxando o aparelho.

- Papai! Deixa eu falar com a Lolô! Eu fiz um desenho lindo para ela e quero contar que vi um golfinho! Cadê ela, papai? Estou com tanta saudade da minha Lolô...

Cada palavra da Alice era como uma chicotada de lâminas afiadas nas minhas costas. Eu fechei os olhos com força, sentindo o nó na garganta apertar. Eu havia expulsado a Fada, mas a dor daquela ausência estava prestes a destruir a minha filha.

- Pequena... a Lolô não está perto do telefone agora. - Eu menti, a voz saindo mais áspera do que eu pretendia, engolindo o nó do desespero. - Ela... ela precisou dar uma saída para resolver umas coisas. Quando vocês voltarem, a gente se fala, tá? O papai ama você.

Eu desliguei antes que a Alice fizesse mais perguntas que eu não conseguiria responder. Joguei o celular no colchão e enterrei o rosto nas mãos. Eu estava sufocando na minha própria mentira. Eu estava me afogando na dor que me rasgava por dentro, porque a raiva que eu sentia, ter sido traído, usado, ela ter mentido tanto para mim, nada era capaz de matar aquele sentimento absurdo que estava me devorando, nada tinha acabado com o amor que eu sentia por aquela mentirosa traidora.

Capítulo 197: Ela está em cada canto 1

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