"Érick"
O Alberto me encarou como se tateasse onde podia pisar. Cada gesto e cada palavra dele eram carregados de cuidado e respeito. Ele era o único que não tinha medo de falar comigo, sempre foi assim, ele me dizia o que tinha para dizer, mas sempre com respeito. Eu sempre admirei a sua honestidade e a sua lealdade.
- Eu me ofereci, patrão. Mas a Srta. Lorena recusou. Ela disse que não queria nada que viesse do senhor. Nem mesmo uma carona. A Marcelina chamou um táxi e elas entraram nele do lado de fora do portão. - Ele me encarava, como se decidisse se devia dizer mais alguma coisa. Por fim decidiu dizer. - A Lorena estava chorando muito, Sr. Érick.
A minha armadura de orgulho rachou mais um pouco. Ela recusou a porra da carona do meu motorista. Por que? Se ela pensava que isso me faria amolecer, estava bastante enganada, eu nao cairia nos seus truques.
- E tem mais uma coisa, senhor... - O Alberto começou a falar, mas eu não queria mais ouvir, então o interrompi.
- Está dispensado, Alberto.
Ele não insistiu e se retirou. Assim que ele saiu, o meu celular chamou de novo. Na tela o nome do Andrey. Eu queria não atender, mas isso não era uma opção, eu tinha uma empresa sob a minha responsabilidade.
- O que foi, Andrey? - Eu atendi seco.
- Que porra está acontecendo, Albelini? - Ele questionou irritado do outro lado da linha, mas não esperou a minha resposta. - O Beaumont me ligou e disse que não virá trabalhar hoje. Ele me pediu para verificar você. Mas ele não me explicou nada, então me esclareça: por que eu tenho que verificar você e por que o Beaumont parecia estar de luto, com a voz chorosa como uma viuvinha sofrida?
- Você não tem que me verificar. Sobre o Beaumont eu não sei o que te dizer e nem me interessa.
Mas o Andrey tinha a própria noção do que tinha acontecido.
- Ah, que merda! Eu já vi isso antes. Vocês dois brigaram e estão medindo forças para ver quem pede desculpas primeiro. Dois orgulhosos estúpidos. E já vou avisando, eu não vou servir de moleque de recado para vocês dois de novo, não vou mesmo! E outra coisa, não deu certo da última vez, Albelini, e não vai dar agora. Vocês vão acabar bêbados, abraçados e chorando dizendo "eu te amo" um para o outro.
- Andrey, cala a porra da boca! - Eu sibilei, mas a ira dele era mais vigorosa que a minha naquele momento.
- Não calo porra nenhuma! E vou te dizer mais: acaba com essa porra logo. Nós estamos no meio de uma transição sensível na empresa, caralho! Um sócio que pode ser o diabo. Não é hora para as moçoilas Albelini e Beaumont brigarem e se descabelarem. - Ele bufou do outro lado da linha. - Eu vou ligar para a Lorena, só ela pode com você, talvez ela te faça entender...
Eu precisava de um refúgio. E o único lugar que me veio à mente foi a casa escondida à beira do riacho. O meu santuário de isolamento. O lugar onde eu me escondia sempre que precisava ficar sozinho. Meses atrás eu o havia dividido com a mulher que agora havia destruído o meu coração. Naquele lugar eu havia esquecido o mundo e me entregado inteiramente à Lorena.
Eu parei diante da pequena casa de pedra cercada pelas árvores e pelo som da água corrente. Desliguei o motor e inspirei profundamente ao sair do carro. Tudo ali antes era paz e harmonia. Agora havia algo estranho.
Eu abri a porta da casa, esperando encontrar a paz do meu antigo isolamento. Mas assim que eu tranquei a porta e me virei para o sofá, os meus joelhos fraquejaram. O fantasma dela estava ali também.
O cheiro suave de coco e açúcar mascavo parecia impregnado na madeira, nas almofadas do sofá, em cada canto daquele lugar. Olhei para a lareira apagada e vi a imagem dela sorrindo para mim. Olhei para a mesa de centro e lembrei das mãos dela tocando o meu rosto. Ela ia me assombrar em cada centímetro daquela propriedade... ela ia me assombrar... em cada canto que eu fosse, porque ela estava gravada a ferro e fogo dentro de mim.
Eu caminhei até o armário da cozinha com os passos trôpegos e arranquei de lá uma garrafa de whisky puro. Voltei para a sala, me sentei no chão de madeira, encostado na parede, e virei o gargalo. O líquido queimou a minha garganta, mas outra vez não conseguiu anestesiar o inferno no meu peito e as lembranças na minha memória, que passavam como um filme em super definição.
Ali, no meio do meu santuário profanado pelas memórias, o homem arrogante, altivo e poderoso sumiu. O sobrenome Albelini nada podia fazer pelo meu desespero. Eu desabei. Deixei a garrafa de lado e chorei. Chorei um choro rouco, pesado e desesperado, afogando-me no uísque e nas lágrimas, percebendo que o meu paraíso tinha sido destruído e que o inferno que me sobrou não era o mesmo onde eu poderia queimar com a Scarlat.

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