"Lorena"
Eu ainda estava deitada no sofá olhando para as almofadas, ouvindo os passos da Dalva no espaço da pequena cozinha conjugada com a sala. O cheiro de café passado na hora invadiu o meu nariz, trazendo consigo a realidade crua de um novo dia. As minhas pálpebras pesavam, inchadas pelas horas seguidas de choro da noite. A dor no meu peito ainda era uma ferida aberta, mas as lágrimas finalmente tinham secado. Eu não tinha mais o que chorar. O meu paraíso havia sido queimado e eu precisava aprender a andar sobre as cinzas no inferno.
Eu me levantei devagar, ajeitando o moletom que eu vesti na noite anterior tentando expulsar o frio, mas nada me aquecia de verdade. Eu fui até o banheiro e encarei o meu rosto no espelho. Não parecia ser eu. Era como se eu olhasse para o fantasma de quem eu costumava ser. Rosto inchado e marcado de lágrimas, uma palidez fúnebre, as manchas escuras sob os olhos e olhos vazios e sem vida.
Depois de uma rápida higiene, eu voltei para a sala. Minha aparência não estava muito melhor, embora pelo menos o cabelo estivesse penteado e preso num rabo baixo. E eu ainda estava com frio. A Dalva estava sentada à mesa, segurando uma xícara de vidro âmbar que ela levou a boca. Ela me olhou com aquela compaixão firme que só uma mãe de verdade possui.
- Senta aqui, Lô. - Ela pediu, empurrando uma xícara fumegante na minha direção. Eu esperei o sermão ou a pena, mas a Dalva, outra vez, me deu algo muito melhor: estrutura. - Eu sei que dói. Sei que parece o fim do mundo. Mas você não vai morrer. E você não é o tipo de mulher que se enterra em um sofá, Lorena. Você é uma mulher inteligente e altamente capaz de se reerguer. Eu já vi isso acontecer. O Albelini foi um estúpido com você, mas o seu sustento e o seu futuro não dependem do humor daquele homem. Engole o choro, menina, levanta essa cabeça e vai atrás do que é seu. Pode ser que doa pelo resto da vida, mas pelo menos você se permitiu viver.
As palavras dela funcionaram como um choque no meu sistema. Eu ouvi atentamente, processei a verdade em cada uma, senti o amor com que a Dalva me dava aquele conselho. Eu assenti, era exatamente aquilo que eu precisava fazer, eu precisava me sustentar e, mesmo que doesse pelo resto da vida, e eu sabia que ia doer, eu precisava me levantar todas as manhãs.
- Você tem razão, Dalva. - Eu respondi, limpando o resto de fraqueza do rosto. - Eu vou procurar emprego hoje mesmo. Vou enviar meu currículo para todas as empresas e escritórios de auditoria dessa cidade. As acusações de frauda já não recaem sobre mim, meu nome está limpo, eu posso conseguir um trabalho e sobreviver.
Não demorou para a Marcelina aparecer, cheia de energia, me apoiando e incentivando a arrumar logo um emprego. Ela também, já estava procurando trabalho.
No meio da manhã, enquanto eu revisava o meu currículo na mesa da sala, batidas firmes ecoaram na madeira da porta.
- Deve ser o Mariano, ele me perguntou por você ontem. Ele está preocupado. - A Marcelina se levantou e abriu a porta sem se preocupar em perguntar quem era.
E quem era a deixou paralisada por dois segundos.
- O que você quer aqui, engomadinho de merda? - A Marcelina cuspiu as palavras, bloqueando a entrada.
- Eu vim falar com a Lorena. Vim ver como vocês estão. - O Julian respondeu, a voz grave, desprovida de qualquer deboche ou arrogância. Ele tentou dar um passo para dentro, mas a Marcelina bloqueou o caminho.
- Só deixa a gente em paz, Beaumont! - Ela falou ríspida.
Em um movimento rápido e furioso, ela veio até a mesa, pegou os documentos da sua contratação pelo Grupo Albelini e jogou com força contra o peito do Julian, que aproveitou que ela saiu da frente e entrou. Os papéis se espalharam pelo chão da sala.
- Pega essa porcaria de contrato e enfia no...
- Marcelina! - A Dalva chamou a atenção dela.

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