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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 201

"Érick"

Eu senti uma fisgada violenta no meu peito, uma dor puramente física, mas meu rosto não esboçou nenhuma reação. Minha máscara de gelo permaneceu intacta. O sutil vacilar das minhas certezas com as ideias românticas do Alberto já tinha sido varrido da minha consciência. Eu vi o que vi. E a verdade era uma só: eu fui enganado. Eu olhei nos olhos da minha filha com uma frieza que parecia ensaiada, mas eu precisava contar a verdade a ela e eu faria isso sem rodeios. Ela ia sofrer, mas com o passar dos dias esqueceria o assunto.

- A Lorena não mora mais aqui, Alice. - Eu respondi, a voz saindo cortante, sem qualquer margem para discussões. - Ela foi embora. E nunca mais vai voltar. Não faça perguntas e esqueça que ela existiu.

A Alice parou de sorrir no mesmo milésimo de segundo. O rostinho dela franziu, os olhos inundando-se de lágrimas instantaneamente.

- O quê? Não! Mentira! - Ela começou a soluçar, batendo com as mãozinhas no meu peito. - A Lolô prometeu que nunca ia me deixar! Ela me ama, papai! E você disse que ela ia ficar para sempre, que ela ia ser a minha mamãe. Por que ela foi embora? O que você fez? Onde ela está? Eu quero a minha Lolô!

- Chega, Alice. - Eu avisei, a voz alta e firme como um trovão, fazendo-a estremecer. Coloquei-a no chão devagar. - O assunto está encerrado. Vá para o seu quarto. Eu não quero mais falar sobre isso.

A Alice soltou um grito inconsolável de pura rejeição ao que eu dizia, a dor explícita em cada reação do seu corpo infantil, do grito às pequenas mãos fechadas em punhos. Ela me lançou um olhar magoado e correu em direção às escadas, chorando lágrimas desesperadas acompanhadas de soluços profundos que ecoavam por toda a casa vazia e aumentavam a dor que eu sentia.

Do outro lado da sala, outro par de olhos azuis me encarava com uma reprovação nítida.

- Érick Albelini, que grosseria e que frieza é essa com a sua filha? - A voz cortante da minha mãe quebrou o silêncio que a saída intempestiva da Alice deixou.

A D. Heloísa caminhou até o centro da sala, cruzando os braços, os olhos afiados me inspecionando de cima a baixo. Ela notou o meu terno escuro, a gravata preta e a aura de morte que eu exalava.

- Onde está a Lorena? O que aconteceu nesta casa enquanto eu estava fora? E por que eu não fui avisada que tinha algo acontecendo? - Ela me encarou com a altivez de uma matriarca que não se deixa ser colocada de lado.

- A Lorena provou ser exatamente o que os meus inimigos diziam, mãe. - Eu respondi, mantendo a voz desprovida de qualquer calor, caminhando até o aparador e servindo-me de uma dose de vodca pura. Eu precisava de mais do que o whisky poderia me dar hoje. - Uma mentirosa. Uma golpista vulgar que usou a minha filha e a minha cama para se infiltrar na minha vida. Ela foi colocada para fora. Eliminada como a maldição que é. E você não precisava interromper as suas férias por isso.

A minha mãe me encarou, mas não vacilou diante das minhas palavras. Ela conhecia o filho que tinha, sabia ler dentro de mim como... como só a Lorena conseguia.

- Uma golpista? A Lorena? - A minha mãe deu uma risada curta, cínica, que me fez travar os dedos ao redor do copo. Que reação era essa? Ela sempre confiava no meu julgamento. - Você pode ser um empresário brilhante, Érick, mas às vezes age como um completo idiota, principalmente quando está com o orgulho ferido. Esse mesmo orgulho tão característico dos Albelini que os deixa cegos e surdos. O que o Simão ou a Verônica inventaram para que você tivesse esse surto paranoico?

Capítulo 201: Ela não vai voltar 1

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