"Lorena"
Eu estava chegando na vila depois de levar mais uma porta na cara, mais uma entrevista de emprego na qual eu fui rejeitada. De acordo com a recrutadora, eu não tinha o "perfil" para a vaga. Eu já tinha ouvido isso tantas vezes desde que o meu ex-noivo me roubou, mas eu só queria entender qual o perfil que eles esperavam de uma contadora, já que parecia não ser suficiente ter um diploma e experiência na área. Além da entrevista, em alguns lugares o meu currículo sequer tinha sido recebido.
E tinha sido assim todos esses dias. No começo eu até consegui algumas entrevistas, mas agora, eu sequer conseguia deixar o meu currículo nas empresas. E foi quando eu vi o sedã preto estacionado em frente a vila que eu tive certeza do que estava acontecendo. Érick Albelini estava se vingando.
Eu não era tão cega a ponto de pensar que o Érick havia voltada atrás. Ele não voltava atrás, ele destruía quem o incomodava. Ele com certeza tinha colocado o meu nome numa espécie de lista negra ou seja lá o que for e estava usando o poder que tinha para impedir que eu conseguisse um trabalho. Será que ele não entendia que já tinha me destruído? O que mais ele queria?
O Alberto saiu do carro enquanto eu me aproximava e veio em minha direção com um sorriso afetuoso.
- Srta. Lorena. Como a senhorita está? - O Alberto tinha aquela voz suave e gentil, sempre respeitoso.
- Ora, Alberto, eu não estou mais na hierarquia Albelini, vamos esquecer essa coisa de "senhorita". - Eu me esforcei para sorrir para ele. - Você veio nos visitar ou o seu patrão exige mais alguma coisa de mim.
- Lorena, o senhor Érick está sofrendo. E pelo que vejo, você também. Não transforme o que você sente em rancor. - Ele me encarou por um momento, eu segurava as lágrimas, eu não estava me permitindo chorar. - Olha, eu queria ter vindo ver vocês antes, mas não foi possível. Será que eu sou bem vindo?
- Claro que é. Vamos entrar. - Eu o convidei, mas ele parou perto do carro e abriu o porta malas.
- Lorena, o Sr. Albelini mandou trazer as suas coisas. Tudo, inclusive as jóias. Nos bancos tem mais coisa. - O Alberto respondeu e se abaixou para começar a tirar as malas do carro.
- Não quero! - Eu respondi cortante. - O que ele mandou dizer, Alberto? Porque eu sei que o Albelini sempre tem algo a dizer.
- Lorena... - O Alberto estava relutante, mas eu o encarei firme, sem lhe dar alternativa. - Ele mandou dizer que é tudo o que você vai conseguir dele.
Eu dei uma risada curta, sem humor, sem acreditar no que o homem que jurava me amar estava fazendo comigo. A frase entrou nos meus ouvidos como álcool em uma ferida aberta. "Tudo o que eu consegui dele." Ele estava tripudiando sobre mim. Ele achava que podia me comprar, que eu tinha um preço numa etiqueta. Achava que eu aceitaria o papel de golpista interesseira que ele havia desenhado na sua mente. E isso me doeu ainda mais, porque todo aquele tempo juntos e ele não me viu realmente, porque se tivesse visto, teria pelo menos me ouvido.
- Pois diga ao seu patrão, que eu não sou uma prostituta e que eu também não preciso da caridade dele. - Eu respondi, me mantendo firme.
- Mas, Lorena, o Sr. Albelini foi bem claro...
- E eu estou sendo ainda mais clara, Alberto. - Eu o interrompi. - Eu saí daquela casa com as mesmas coisas que tinha quando entrei. Eu não sou uma prostituta e não sou uma interesseira. O dinheiro do salário eu já transferi de volta para a conta pessoal dele. E essas roupas e joias vão voltar exatamente pelo mesmo caminho que vieram.
- Lorena, eu entendo, mas... essas coisas são suas, foram presentes...


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