"Érick"
Mais uma vez a vodka que eu tomei antes do sol nascer não foi suficiente para abafar o barulho que vinha dos meus pensamentos. Mas esta manhã, o barulho que vinha do segundo andar era mais alto que o eco na minha cabeça. Eu havia saído do meu escritório, ajustando o nó da minha gravata preta, quando o som de objetos batendo contra a madeira e o choro histérico da Alice ecoaram pelas escadas. Mais uma manhã de inferno doméstico. Mais uma manhã onde eu me sentia dentro de um caixão, sem vida, enquanto a minha casa desmoronava.
Eu subi os degraus com passos pesados e firmes. Quando empurrei a porta do quarto da minha filha, o cenário era de pura destruição. Um mini tsunami tinha passado por ali. Brinquedos espalhados pelo chão, a mochila da escola atirada num canto e a Alice sentada no meio do tapete, segurando a escova e o elástico rosa com as duas mãozinhas trêmulas. O cabelo dela estava um desastre. Embaraçado, torto, arrepiado e caindo nos olhos inchados de tanto chorar. Claramente era mais uma tentativa frustrada de amarrar abelo como aquela mulher fazia.
- Eu não vou! Eu não vou para a escola desse jeito! - Ela gritou assim que me viu, os olhinhos azuis brilhando com uma rebeldia e um ódio que me cortaram por dentro. - Está feio! Está todo torto! A Lolô sabia prender! Ela cantava para mim e me deixava linda! Eu odeio esse cabelo e odeio você porque mandou a minha Lolô embora!
- CHEGA, ALICE. - Eu elevei o tom da minha voz, não para soar acima dos gritos dela, mas porque ouvir o nome daquela mulher me dilacerava. - Levante-se e arrume essa mochila. Você vai para a escola. E vai agora. Não me interessa se está descabelada ou careca. Pare de agir como uma criança mimada. - Eu ordenei, a minha voz saindo fria e linear.
- Não vou! Você é malvado! Você expulsou a minha fada e agora quer que eu fique feia! Por que você odeia a gente? - Ela berrou, soltando um soluço longo e doloroso que deixou a minha sanidade por um fio. Ela jogou a escova contra os meus pés.
- Érick, já basta. - A voz da minha mãe cortou o quarto, copmo se o garotinho mimado ali fosse eu.
Ela entrou no quarto e olhou em volta com desaprovação, mas não era para a neta revoltada, a sua desaprovação era para mim. A sua postura de matriarca exalava uma severidade implacável. Ela sequer olhou na minha cara. Passou por mim e foi direto até a Alice, ajoelhando-se no tapete e puxando a neta para um abraço apertado e caloroso. Atrás dela, a Maria entrou em silêncio absoluto. A funcionária nova recolheu a mochila e a escova do chão, pegou o elástico rosa e passou por mim sem sequer um "bom dia, senhor", como qualquer funcionário teria feito. Mas a Maria não. A desaprovação nos olhos dela era tão nítida quanto a da minha mãe.
- Maria, leve a Alice para a cozinha. Faça aquele chocolate quente que ela gosta e ajude-a com o cabelo com calma. Ela não precisa ir para a escola hoje. Depois eu converso com ela. - A minha mãe comandou, a voz mansa e perigosa.
- Mãe... - Eu tentei falar, mas era caso perdido, ali na minha frente não estava a elegante Sra. Albelini, estava apenas a minha mãe me condenando pelo pecado dos outros.
- Cala a boca! Você já falou demais! Já magoou pessoas demais. Agora está na hora de parar para pensar um pouco. - Ela se virou de costas para mim, se afastou dois passos e me encarou outra vez, com a voz mais dócil e um olhar de profunda tristeza. - Você está se destruindo, meu filho. Você está sendo cruel com a sua própria filha, Érick, uma criança inocente. E a conta dessa sua soberba vai chegar mais rápido do que você imagina. Você está se condenando a infelicidade e jogando fora a oportunidade que a vida te deu. E por que? Porque sempre foi mais fácil para você acreditar no pior das pessoas.
O estrago dos gritos da minha filha ainda reverberava nas paredes daquele quarto. Cada vez que a Alice gritava "eu te odeio" para mim, era como uma lâmina afiada rasgando o meu peito. E agora, as palavras duras da minha mãe também voltavam para mim. Eu respirei fundo e virei as costas sem responder. Eu não ia bater boca com a minha mãe dentro do quarto da minha filha. Eu desci as escadas e saí saquela casa que cada vez eu suportava menos.
Eu entrei na empresa e a secretária da diretoria me olhou como se quisesse ter certeza de estar me vendo. Ainda era cedo demais e os escritórios ainda estavam vazios. Eu fui direto para a minha sala e bati a porta. Eu me sentei em frente a minha mesa, recostando o corpo e encarando o teto, tentando limpar a minha mente e focar no trabalho, mas a estabilidade emocional que eu tanto prezava havia evaporado. Eu ainda me sentia morto em um caixão prestes a ser fechado, meu coração ainda sangrava e a minha mente estava me enlouquecendo revivendo aquelas malditas fotos, os gritos da Alice e o julgamento da minha mãe. As três mulheres que eu amava estavam me levando a loucura.

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