"Pandora"
O Julian soltou uma risada curta, cínica e perigosa. Ele esticou a mão e segurou o meu queixo com força, forçando o meu rosto para cima, me obrigando a sentir o hálito quente dele a milímetros da minha boca. Algo que eu não queria sentir faiscou entre nós.
- Eu passei o último mês tentando descobrir como essa porra toda chegou no Albelini, Pandora. - Ele sussurrou contra os meus lábios, os olhos brilhando com uma promessa destrutiva. - Eu não sumi. Eu estava seguindo ordens e tentando descobrir como a Adelaide conseguiu provas contra a Lorena. E olha o que você fez?! Você se colocou na vitrine. Pois agora aguente o preço. Você vai me servir a noite inteira com sorrisos e gentilezas, vai beber comigo como uma boa anfitriã. E antes do amanhecer, eu vou te tirar daqui pelos cabelos se for preciso. Você é minha. Sem prazos e sem desculpas.
Eu engoli em seco. Ele soltou o meu queixo com um empurrão discreto e se sentou no sofá de couro, cruzando as pernas como um rei, esperando que eu o servisse. Ele estava com sangue nos olhos. Mas eu não estava menos irritada.
- Vamos ver quem pode mais, engomadinho de merda! - Eu murmurei.
Eu me virei para pegar a garrafa de vodka, eu faria o Sr. Beaumont sair carregado desse camarote. Mas o meu estômago revirou de preocupação ao olhar para o lado. O Andrey já havia encurralando a Scarlat. Ele ignorou as bebidas e os charutos, fixando o olhar sério na postura dela. Ela não tinha dito uma palavra ainda.
- Scarlat! Não pensei que ia te ver de novo. - A voz mansa do Andrey flutuou até os meus ouvidos, cortando o barulho das pedras de gelo que eu colocava no copo do Julian. - O que você está fazendo aqui?
- Sobrevivendo, Andrey. - A Scarlat respondeu e a voz dela me deu um aperto no peito. Estava fria, desprovida de qualquer calor, mas eu sabia o quanto ela estava sofrendo.
- As coisas ficaram tão ruins assim? - O Andrey perguntou.
- O Albelini garantiu que eu não encontrasse emprego nessa cidade. E eu preciso pagar as contas. Que escolha eu tinha? - A Scarlat respondeu com um dar de ombros.
O Andrey franziu a testa, balançando a cabeça em negativa de forma categórica, exatamente como o Julian havia feito na vila.
- O Érick está estupidamente cego, sofrendo, trancado em si mesmo e bebendo vodka pura no escritório pela manhã, Lorena. Ele está destruído por dentro. Mas ele nunca faria isso com você. Ele tem orgulho demais para se rebaixar a esse nível de covardia. Se as portas se fecharam, não foi ele.
- Não importa de quem seja, Andrey. As portas se fecharam. Só me restou a Infernal. - Ela desviou o olhar, tentou manter a pose de Scarlat, mas eu vi os dedos dela tremerem. - Como... como a minha menina está? A Alice?
O olhar do Andrey suavizou sutilmente.
- A Alice está inconsolável, Lorena. Ela está rebelde, grita que odeia o Érick e chora aos soluços. Aquela casa está parecendo um túmulo. A Dona Heloísa se mudou para lá para tentar segurar a onda, mas a situação está feia. - O Andrey suspirou. - Ele precisa saber disso.
- Não! Não conte nada a ele! - Ela implorou em um sussurro urgente, esquecendo a frieza e segurando o braço do Andrey. - Ele já me odeia o suficiente. Ele me chamou de prostituta interesseira. Se ele souber que eu voltei para a boate, ele vai me odiar mais ainda. Deixe-o em paz no orgulho dele.
- O e-mail chegou assinado por "A Fonte". Quem realmente o mandou nós não temos ideia. - O Andrey completou. - Eu também achei estranho e chamei o Julian para verificar. Então agora só nos resta esperar quem mais vai entrar por esta porta.
- Ninguém mais vai entrar. - A Scarlat sussurrou e atraiu os olhares do Andrey e do Julian. Ela se reclinou em direção a mim e ao Julian, falando baixo e servindo doses calmamente, sabendo que aquele camarote era vigiado. - Lembra, Pandora, do dia em que voltamos? O Barão não queria nos contratar de volta, mas aí ele recebeu uma ligação estranha e depois ele mudou de idéia e nos contratou.
- E o que isso tem a ver? O Barão só deve ter pensado melhor enquanto falava ao telefone. - Eu comentei.
- Pode ser, mas eu vi na tela o nome de quem estava ligando. Era justamente "A Fonte". - A Scarlat contou. - Eu não estou gostando disso, é muito estranho para ser coincidência.
- É, tem razão. Engomadinho, você quer mesmo ter uma chance comigo? - Eu perguntei e o Julian abriu aquele sorriso presunçoso.
- Baby, você é minha! Aceita que dói menos. - Ele me respondeu cheio de si e estalei a língua.
- Desce da nuvem, palhaço, porque neste momento você está atirado no inferno. - Eu declarei. - Mas se quiser alguma chancezinha pequienininha de ter o meu perdão, trata de descobrir depressa quem é "A Fonte". E vê se dessa vez faz o serviço direito e não pelas metades como fez com aquela governanta sonsa.
- Baby, eu atravesse o inferno por você. - Ele respondeu confiante. - Vamos ver quem é que pensa que pode mover as cordas por trás e manipular a vida do Albelini. - O Julian falou e virou mais uma dose dupla de vodka. Embebedar esse engomadinho era mais fácil do que fazer bola de chicletes.

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