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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 216

"Érick"

Mas o escritório estava longe de ser só o lugar onde eu me mantinha distante da minha casa e das lembranças. Para piorar a minha irritação, o Andrey estava insuportável naquela manhã. Já era a terceira vez que ele entrava na minha sala com pastas de relatórios que não precisavam da minha assinatura, andava em círculos, ajeitava o paletó, olhava para o tablet e limpava o suor da testa. Ele parecia completamente abalado e totalmente sem foco. E aquilo estava me irritando ainda mais.

- Andrey, que porra está acontecendo com você hoje? - Eu estourei, batendo a palma da mão na mesa com força. O estrondo quebrou o silêncio e o fez travar os passos no meio da sala. - Se veio aqui para pairar ao meu redor e latir feito o Beaumont, saia da minha sala agora!

- Merda! Isso seria mesmo mais fácil com o Beaumont aqui. - Ele falou tão baixo que eu quase não ouvi.

- Fale de uma vez por que você está nervoso e andando em círculos desde as oito da manhã. Eu estgou sem paciência hoje.

- Como se tivesse tido paciência algum dia. - Ele resmungou e se jogou na cadeira a minha frente. - Eu tenho uma coisa para te contar, mas eu acho que você vai querer arrancar a minha cabeça.

- Puta que pariu! Não vem você também encher a porra do meu saco por causa daquela mulher. - Eu bradei e ele me olhou sem entender. - A Alice fez mais uma cena hoje. A minha filha está fora de controle.

O Andrey respirou fundo, me encarando com uma seriedade e uma incerteza que me fizeram estreitar os olhos.

- Então, Albelini, só me escuta e pensa, não sai por aí fazendo merda ou falando merda para as pessoas que gostam de você. - O Andrey falou aquilo com um tom de aviso. - Sabe aquele convite da Infernal que nós recebemos? O Julian e eu estivemos lá ontem à noite, no camarote mais VIP dessa cidade, Érick. - O Andrey revelou, a voz mansa, mas cortante como uma navalha.

O meu sangue congelou por um milésimo de segundo. O Trono. A boate Infernal. Aquele lugar acabou com a minha vida. Eu tentei manter o meu exterior sob uma tranquilidade fria.

- E o que isso me interessa, Andrey? O Beaumont te arrastou para o esgoto para afogar as mágoas? Eu já disse que não quero saber da vida pessoal daquele traidor. E não quero saber nada sobre aquele lugar. - Eu respondi tentando pegar o copo de vodca sobre a minha mesa para desviar o foco, mas o Andrey pegou o copo antes que eu pudesse tocá-lo.

- O Julian e eu ficamos curiosos com aquele e-mail, Érick. E o que encontramos lá... você não vai gostar. - O Andrey falou devagar, os olhos fixos nos meus.

- Me surpreende que você tenha conseguido entrar. você não estava na lista de pessoas vetadas daquele lugar? - Eu tentei desviar o foco, eu não queria saber daquele lugar, mas o Andrey parecia não me ouvir.

- Ela está lá, Albelini. A Scarlat voltou para a noite. - O Andrey falou sem piscar.

O mundo ao meu redor pareceu perder o som por completo. O chão cedeu sob a minha cadeira. Eu me senti despencando no abismo.

Eu não ouvi mais nada. A fúria cega anestesiou qualquer resquício de sanidade que ainda restava em mim.

- Saia da minha sala, Andrey. Agora! - Eu gritei, a minha voz alta como um trovão que fez os vidros da presidência tremerem.

O Andrey me encarou por dois segundos, assentiu devagar, deu as costas e foi até a porta, mas antes de abri-la ele me encarou outra vez.

- Sabe, se ela quisesse só o dinheiro, ela não estaria tão quebrada. Uns quatro ou cinco quilos mais magra, os olhos vazios... não sei. Mas e se for só o dinheiro? Não é melhor dar a ela o dinheiro e viver naquela casa como se fosse um lar com uma família de verdade? Isso não seria melhor do que viver se afogando em vodka e magoando a sua filhinha? Pensa, Albelini!

No segundo em que fiquei sozinho, eu não quebrei os objetos, não joguei nada no chão. Eu virei a dose dupla de vodka pura de uma vez, sentindo o líquido queimar a minha garganta sem derreter o ódio que havia tomado conta do meu corpo.

A promessa de colocá-la atrás das grades se ela cruzasse o meu caminho voltou a queimar na minha mente. O Andrey achava que viver na mentira era melhor, eu discordava. Ela achava que eu a tinha empurrado de volta para aquela degradação, como se não me conhecesse. Ela achava que conhecia o inferno? Pois ela ia descobrir o tamanho do monstro que havia despertado.

Peguei as chaves do carro de cima da mesa. Saí da empresa com passos rápidos e estrondosos, ignorando os secretários no corredor. O sol ainda estava brilhando, mas eu estava numa noite perpétua.

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