"Érick"
O sol da tarde ainda tentava aquecer a minha pele quando estacionei o carro em frente à entrada de serviço daquela maldita boate, o lugar onde eu não queria nunca mais voltar a colocar os meus pés. Era cedo demais, a boate estava fechada, mas era o momento perfeito para uma reunião de negócios. Sem a fumaça, sem as luzes neon, sem a música eletrônica ou o cheiro do álcool.
Eu saí do carro e atravessei a rua, toquei o interfone ao lado da porta e esperei, mas não ouvi resposta, insisti e a porta simplesmente se abriu. Claro, com certeza o Barão olhou pela câmera logo acima da porta quem estava ali. Eu empurrei a porta e entrei num corredor mal iluminado, um segurança me indicou que o Barão me aguardava no escritório.
Eu atravessei a boate, observei três mulheres fazendo a limpeza e outras dançando no palco, como se ensaiassem. Todas me olharam da mesma forma, primeiro com ar de surpresa e em seguida abrindo sorrisos como se me convidassem a me aproximar. Eu olhei cada rosto, mas aquela mulher não estava lá. Eu atravessei o salão e subi as escadas, passei pelo camarote VIP, pelo camarote privado que certa vez ocupei com aquela capetinha do inferno e por fim cheguei ao escritório do Barão. Eu não bati, simplesmente abri a porta e entrei.
O Barão estava sentado à mesa, os olhos na tela do notebook, e apenas ergueu os olhos frios de homem com o estrondo que a porta fez ao bater contra a parede. Ele se recostou na cadeira, ajeitou o anel de ouro no dedo médio e deu um riso curto.
- Sr. Albelini. Pensei que o senhor nunca mais fosse colocar os pés no meu estabelecimento. A que devo a honra dessa visita intempestiva à luz do dia? - Ele ironizou, como se a minha presença não significasse nada. - O senhor está tão entediado assim?
- Não brinca comigo, Barão! Você sabe muito bem porque eu estou aqui. - Eu rosnei, caminhando até a mesa e espalmando as duas mãos no vidro que tremeu sob as minhas palmas. Eu me curvei em direção aquele homem com uma fúria assassina.
- Ah, claro, a rainha Scarlat! Ela voltou ainda mais poderosa que antes, acredita? Você nem imagina as ofertas que eu tenho recebido pela reserva do Trono. Todos querem o inferno que ela oferece. - Ele deu uma risada, sua provocação era clara. - Mas eu pensei que o senhor não quisesse mais saber dela, sabe... depois da última vez que esteve aqui.
- O que eu quero ou deixo de querer não te interessa! - Eu rebati. - Eu quero saber por que você a trouxe de volta? Da última vez que conversamos você me garantiu que não queria nem vê-la coberta de ouro na sua frente.
O Barão suspirou teatralmente.
- É, foi. Mas mudei de ideia.
- Não brinca comigo, Barão! Ou eu acabo com essa birosca em dois segundos.
O Barão semicerrou os olhos, o sorriso de malandro sumindo por um milésimo de segundo, substituído por uma expressão fria.
- Você pode ser o dono de metade da cidade, Albelini. Pode brincar de mandar na sua empresinha e pisar no pescoço dos seus funcionários. - O Barão sibilou, ficando de pé e inclinando o corpo na minha direção, ficando cara a cara comigo, o tom de voz perigosamente audacioso. - Mas o demônio que comprou o direito de ditar as regras do meu estabelecimento e tem a guia da minha coleira, tem mais do que só a metade da cidade. Eu recebi uma ordem direta de cima. Se a Scarlat e a Pandora estão de volta ao Trono, é porque o cliente majoritário exigiu.
- Por acaso, esse seu cliente majoritário é o mesmo que me enviou um convite formal para a porra desse camarote VIP? - Eu perguntei tentando conter a minha irritação.

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