"Érick"
Saí do banho batendo os dentes de frio, mas o meu corpo continuava queimando por dentro. Como uma febre violenta que nada parecia poder controlar. Eu me tranquei, fiquei debaixo do chuveiro gelado até o frio se infiltrar em meus ossos. Mas eu asinda não tinha congelado. Eu ainda não conseguia parar. A minha cabeça estava numa espiral de loucura, as palavras sendo repetidas dentro na minha mente: "o inferno certo para os seus demônios". E não era só isso, aquele quarto parecia estar exalando o cheiro doce dela. Eu estava intoxicado.
O relógio na cabeceira da cama marcou nove da noite. Faltava uma hora. E eu ainda teria que resistir a noite inteira. Eu precisava, mas eu não consegui evitar. A batalha contra o meu próprio orgulho foi perdida e eu soltei um gemido de puro desespero. Eu fui até o closet, vesti um paletó e calcei os sapatos, eu estava indo caçar, eu estava indo atrás da única coisa capaz de conter o meu desespero. Destranquei a porta do quarto e desci as escadas com passos estrondosos.
- Érick! Você não desceu para o jantar, quer que eu prepare algo para você... - Eu passei pela minha mãe na sala de estar e fui direto para o escritório, batendo a porta para que ela soubesse que era melhor não vir atrás de mim.
Assim que entrei eu fechei a porta e a passos largos eu alcancei o fundo falso da estante que escondia o cofre, coloquei o segredo e tirei de lá uma boa soma de dinheiro. Mas antes que eu fechasse, um envelope pardo que eu sequer me lembrava da existência chamou a minha atenção como se tivesse se acendido em neon. O envelope da disputa que eu travei com aquela mulher tantos meses antes. Claro que naquela época ela recusou tudo o que eu dei, ela estava de olho em algo bem maior. Mas esta noite, ela aceitaria. Ela já estava desmascarada e se estava precisando tanto quanto o Andrey disse, não recusaria nenhuma migalha que eu atirasse a ela.
Depois de pegar o envelope e fechar o cofre eu saí do escritório decidido. Eu tive que rir de mim mesmo. Decidido não era a palavra. Decisões são tomadas quando se tem opções. Mas eu nem tinha escolha, eu ia satisfazer um maldito vício que eu não conseguia ignorar, mas seria pela última vez.
- Érick, o que está acontecendo? - A minha mãe perguntou quando eu passei por ela na sala, mas eu não disse nada, apenas passei. A Dona Heloísa se levantou do sofá e veio atrás de mim. - Érick? Aonde você vai assim? Erick?
Eu não parei os passos. Eu não respondi. Ignorei o chamado dela por completo, cruzando a porta da frente sem olhar para trás e deixando que batesse nas minhas costas.
- Érick Albelini! - Ela abriu a porta e gritou mais alto, mas eu já estava dentro do carro e saí cantando pneus.
A minha sanidade havia sido aniquilada no momento em que o Andrey falou o nome daquela mulher esta manhã. Não era justo que eu amargasse todo esse inferno sozinho, eu ia arrastá-la comigo para o mesmo lugar em que eu estava sendo torturado cruelmente. Eu estava indo direto para a boate e ela ia queimar comigo esta noite.
Assim que eu entrei na boate, o Andrey e o Beaumont entraram atrás de mim. O que eles estavam fazendo ali? Esles tinham estado lá na noite anterior.
- Ah, que maravilha! Uma noite como antigamente, nós três enchendo a cara. - O Andrey falou ao bater no meu ombro.
- Eu não bebo com traidores, Andrey, e você está acompanhado de um. - Eu respondi e vi o Beaumont revirar os olhos de irritação.
- Senhores! - A voz do Barão atrás de nós me fez virar. - Como nos velhos tempos. Estão com sorte, o Trono ainda está liberado, mas não por muito tempo, eu tenho ofertas.
- Foda-se, Barão! Eu cubro. Coloque o preço que quiser nessa porra. - O Beaumont respondeu furioso atrás de mim, mas o Barão abriu um grande sorriso, tirou uma caderneta e uma caneta do bolso do paletó, anotou e apresentou a ele um valor exorbitante. - Fechado! Se quiser ver a sua capetinha, vai ter que beber comigo esta noite, Albelini!

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