"Lorena"
A Marcelina e eu já estávamos prontas, conversando no sofá do camarim e esperando o Barão mandar nos chamar. Aquela raposa esperta tinha dito que a lista de espera pelo camarote que atendíamos era tão grande que ele estava fazendo um leilão esta noite. Ele não tinha escrupulo nenhum quando o assunto era dinheiro.
A porta do camarim foi aberta ruidosamente e sem nenhuma cerimônia, me fazendo sobressaltar. O Barão cruzou o portal com passos rápidos. O sorriso de malandro dele havia sumido, substituído por aquela expressão sádica de quem havia acabado de armar uma armadilha perfeita.
- Scarlat, chega de conversinha. Você tem um serviço de emergência agora no camarote privativo dos fundos. - O Barão anunciou, a voz ecoando pelo camarim barulhento, me causando um calafrio. - Camarote privado, Scarlat. Se mexe! O cliente já pagou e exige a sua presença.
- Vamos, Pandora. - Eu respirei fundo.
- Só você, Scarlat! A Pandorinha vai atender o Trono sozinha esta noite. - O Barão deu aquele sorriso que me deixava desconfortável e o meu coração pulou uma batida. O meu sangue congelou instantaneamente. Aquilo não parecia bom.
- Não, Barão. Nós combinamos que eu serviria apenas o Trono, o camarote aberto. - Eu respondi, a minha voz saindo firme, tentando invocar a frieza da Scarlat e não demostrar medo enquanto dava um passo para trás. - Eu não vou me trancar em salas privadas com clientes. Eu me recuso.
- Você não recusa porra nenhuma, Scarlat! - O Barão sibilou, dando um passo à frente e inclinando o corpo na minha direção, os olhos brilhando de forma assustadora. - Esqueceu as condições negociadas para vocês voltarem? Você jurou me obedecer em absolutamente tudo, sem perguntas, sem barganhar e sem desculpas. Você está sob as minhas ordens. A sua alma me pertence, querida!
- Não é bem assim, Barão! Eu não faço programas e não tiro a porra da minha roupa! Você sabe muito bem disso! Isso também estava nas condições negociadas. - Eu rebati, trincando os dentes, a raiva subindo à cabeça e despertando a Scarlat em mim.
- Isso é mesmo uma pena! - Ele respirou fundo. - Nós dois... ou melhor, nós três ganharíamos uma fortuna se vocês não fossem tão... antiquadas.
- Chama do que quiser, Barão, mas você não vai nos transformar em putas! E se tentar a gente quebra essa boate inteira. - A Marcelina deu um passo na nossa direção.
- Ô, merda! - O Barão resmungou olhando para cima e bufando. - Ninguém pediu para vocês tirarem as roupas ou se deitarem com ninguém, garota! Eu sei muito bem que vocês não são putas. - Ele deu uma risada cínica e irritada. - O cliente quer apenas ser servido por você num lugar mais... tranquilo, Scarlat. É só isso.
- Eu não vou, Barão! - Eu bati o pé. - Eu não vou ficar trancada num dos camarotes privados com um dos seus clientes riquinhos à mercê dele, mas não vou mesmo! - Eu bati o pé.
O Barão se aproximou, o sorriso já tinha saído do rosto dele e ele parecia totalmente sem paciência.
- Agora escuta bem, ou você ajeita essa peruca vermelha, pega a bandeja que está preparada para você lá no bar e marcha para aquele camarote privado agora, ou você pode abrir o seu armário, pegar uas coisas e sumir da minha boate. Mas se você sair por aquela porta hoje, eu garanto que você passa fome nessa cidade. Você decide. É pegar ou largar.
Eu encarei o Barão por dois segundos inteiros. Senti o peso das portas fechadas e das economias zeradas esmagarem o meu orgulho. Eu não tinha escolha. Não tinha opções. Ele havia vencido.
- Tá tudo bem, Pandora. - Eu dei um sorriso amarelo. - O segurança vai estar na porta.
A Marcelina olhou bem nos meus olhos, como se me dissesse algo com aquele olhar, e enfiou algo frio no cós da minha saia. Era uma lâmina, com certeza tirada do bar.
- Respeite os seus limites. - Ela moveu os lábios para mim e eu fiz que sim. Ela estava me dando um meio de defesa.
Eu subi as escadas com passos lentos, o repicar dos meus saltos no piso parecendo a contagem regressiva para a minha própria execução. As minhas mãos estavam frias. Quando eu passei pelo Trono eu tentei ver quem eram os clientes da Marcelina, mas a porta estava fechada e um segurança estava de pé lá. Então eu fui para a porta no fundo do corredor, onde outro segurança assentiu com a cabeça e girou a maçaneta para mim.
Eu entrei e a porta bateu atrás de mim com um clique seco e definitivo, me trancando na penumbra daquele lugar íntimo. O ambiente estava exatamente igual ao de meses atrás quando eu trouxe o Érick aqui: paredes de veludo escuro, o sofá de couro preto e a iluminação difusa vermelha que dava um ar de pecado ao lugar. Em cima da mesa de centro.
Eu coloquei a bandeja sobre a mesa em frente ao sofá e só então eu percebi que, nas sombras ao canto, um homem estava de pé, de costas para mim. Ele estava de costas, mas os ombros largos e rígidos sob o paletó escuro eram inconfundíveis. Érick Albelini.
Ironicamente, a música que começou a tocar nos auto-falantes era "Incancellabile da Laura Pausini". O ar sumiu dos meus pulmões no mesmo milésimo de segundo. Eu fiquei paralisada, a voz presa na garganta e os meus pés fixos no chão. Ele não se moveu imediatamente. Deixou que o silêncio e o rastro do meu perfume novo invadissem o ambiente. Então, ele se virou lentamente.

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