"Lorena"
Aqueles olhos azuis que pareciam piscinas frias e calmas travaram nos meus. Não havia amor ali. Havia uma fúria fervendo por baixo de todo aquele controle. Por um momento eu achei que também havia em seus olhos ciúme e uma dor que parecia excruciante. Ele olhou para a minha peruca vermelho-cereja como se assimilasse a novidade com amargura, desceu o olhar pelo meu espartilho e voltou a fixar o olhar na minha máscara de maquiagem. O Bicho-papão havia acordado e não de um jeito bom. E eu estava trancada no inferno com ele.
- Realmente não mentiram para mim sobre as novas atrações do Trono. - O Érick falou, a voz saindo num tom gélido e cínico, que cortou a penumbra como um tiro. - Mas eu precisei pagar o preço do Barão para ver com os meus próprios olhos o tamanho do seu descaramento, Scarlat.
Ele foi até a mesinha onde deixei a bandeja, abriu a garrafa e encheu os dois copos de cristal até transbordar. Ele deu dois passos lentos na minha direção, como um lobo cercando uma presa encurralada. O silêncio e nós era quebrado pelo som das nossas respirações pesadas e pela música tocando como se fosse o meu coração se derramando por ele.
Ele parou a poucos centímetros de mim, forçando-me a erguer o queixo para sustentar o seu desprezo.
- A dose do pecador, Scarlat! - Ele me ofereceu um copo. - E não se negue a beber comigo. Não é assim que selamos o nosso pacto? Você já me empurrou para esse inferno, agora é a sua vez de atravessar os portões.
Eu peguei o copo que ele me oferecia e virei sem pensar, não porque eu estava cedendo a vontade dele, mas porque eu precisava de algo que queimasse em minhas veias e me mantivesse... corajosa. Ele virou o copo e o pousou com um baque na mesa ao lado do sofá e eu fiz o mesmo.
- Muito bem. Mas sabe, eu me lembro que nós dois selávamos o nosso pacto com algo mais. Quantos homens você já beijou hoje, Scarlat? - A voz dele evidenciava a raiva que ele sentia. - Ou eu deveria te chamar de Lorena? Uma contadora brilhante que, quando fica sem dinheiro, volta correndo para o antro da perdição e vida fácil para vestir o espartilho e enlouquecer homens ricos e esvaziar suas carteiras. Me diz, quanto custa o seu sorriso enquanto você tira a roupa?
Aquelas palavras entraram nos meus ouvidos como se fosse álcool sendo jogado na ferida em carne viva. A humilhação de ter levado tantas portas na cara por causa do boicote que ele promoveu subiu pelo meu peito, despertando a Scarlat em mim com uma fúria selvagem. Eu não seria humilhada pelo riquinho babaca que não sabia o que era precisar sobreviver.
- Uma faca, Lorena? Está usando mais do que as garras afiadas agora? - Ele sibilou, a voz rouca, carregada de uma dor que parecia rasgá-lo por dentro. Ele colou o meu peito contra o dele, desarmado de qualquer orgulho, e entrelaçou nossos dedos com a faca entre as nossas mãos, levando-a ao seu peito. - Você quer me matar? É isso? Mate, porra! Crave essa lâmina no meu peito de uma vez! Mas eu já estou morto! Eu me sinto morto dentro de um caixão desde o dia em que eu descobri a sua traição com esse maldito teatro! Então, vá em frente, acabe logo com o serviço!
A dor nos olhos dele rivalizava com a minha e naquele momento, a armadura da Scarlat ruiu por completo debaixo da peruca vermelho-cereja. O meu coração explodiu em milhões de pedaços mais uma vez. As lágrimas que eu havia jurado não chorar romperam a barreira e escorreram livres pelo meu rosto, borrando a maquiagem pesada. Eu soltei um soluço longo, doloroso e desesperado, perdendo as forças das pernas, sendo sustentada apenas pelo aperto bruto dos braços dele me prendendo contra a parede.
- Eu jamais poderia te matar, Érick... jamais! - Eu gritei entre os soluços, o amor visceral e o sofrimento de um mês inteiro transbordando na minha voz. - Se você diz que está morto... você me matou primeiro! Você me destruiu naquela mesa de escritório sem me ouvir! Sem permitir que eu me defendesse! Você me humilhou, me jogou na rua e tirou a minha menina de mim! Você me matou primeiro, Albelini! E você está cravando uma faca no meu coração todos os dias desde então.
O Érick travou por um milésimo de segundo ao ver o meu colapso real. Os olhos dele se despedaçaram. Nossas respirações duelavam batando em lufadas pesadas no rosto um do outro. O ódio primitivo e a dor da traição estavam ali, suspensos no ar, mas a necessidade doentia que nos consumia desde que nos conhecemos falou mais alto. O rosto dele desceu mais um milímetro, a boca dele roçando na minha, os lábios trêmulos pela necessidade de algo de que estava sendo privado. Estávamos prestes a desabar no abismo e queimar juntos naquele inferno.

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