"Lorena"
Enquanto eu ainda tentava encontrar palavras para reagir, o Érick parou ao lado da mesinha perto do sofá e enfiou a mão no bolso interno do paletó, puxando um envelope pardo e colocando sobre a mesinha.
- Isto é seu. Acho que você pode parar de fingir e aceitar o seu pagamento, eu já sei a verdade. E não quero te dever absolutamente nada. - Ele falou com um cinismo que me deu náuseas.
Eu olhei pelo canto do olho e reconheci o envelope amassado que já tinha ido e vindo entre nós tantas vezes. Eu sentia como se tivesse perdido a capacidade de fala, como se estivesse completamente congelada e não conseguisse me mover. Então, ele tirou um maço de notas do mesmo bolso de onde tirou o envelope e jogou sobre o sofá.
- E isto, é o seu pagamento pela noite. Com certeza aí tem mais do que você cobra. - Ele sibilou, a voz descendo para aquele tom ríspido e cortante. - Não seja orgulhosa, como você mesma disse, você precisa sobreviver.
- Érick... não faz isso... por favor... - Eu murmurei, a minha voz sumindo num fiapo, as lágrimas voltando a inundar os meus olhos. A dor de ser tratada como uma prostituta barata pelo homem que eu amava era insuportável.
- A farsa acabou, Lorena. Pegue o dinheiro. É tudo o que você vai conseguir de mim. - Ele sentenciou, desviando o olhar, como se me olhar fosse uma ofensa a ele.
Ele deu as costas, caminhou até a porta do camarote privado com passos rápidos e determinados, girou a fechadura e saiu. A porta bateu atrás dele com um estrondo violento, me deixando sozinha, sangrando na alma. Ele nunca me perdoaria, mas isso já não importava mais, porque eu jamais perdoaria a ofensa desta noite. E aquele maldito dinheiro... ah, ia voltar para ele, como cada maldito centavo voltou até agora.
O silêncio do camarote privado desabou sobre mim, cortado apenas pelos acordes finais de mais uma música qualquer que eu já não ouvia. Eu olhei para aquelas notas de dinheiro sobre o sofá. O homem que eu amava tinha acabado de me transformar em uma prostituta por puro orgulho ferido. A dor física e o sofrimento que eu sentia se transformaram em um ódio selvagem que congelou o meu choro instantaneamente. Ele achava que podia colocar preço na minha dignidade para se sentir melhor? Ele estava muito enganado.
Eu me vesti e recolhi o dinheiro do do sofá e o envelope na mesinha com as mãos trêmulas. Ajeitei a peruca vermelho-cereja para o lugar e catei a lâmina de bar que ele havia jogado no chão. Eu não encontrei os restos da calcinha que ele rasgou, mas eu não me importava. Eu sabia exatamente para onde ele estava indo. Sabia quem havia dado o endereço da boate para ele. Andrey D’Ávila.
Eu saí do camarote privado como um vendaval, batendo a porta com tanta força que o segurança do lado de fora se assustou. Quando eu cheguei à entrada do Trono, eu parei em frente ao segurança.
- Quem está aí com a Pandora? - Eu perguntei de forma ríspida.
- Scarlat, você conhece as regras. - Ele me lembrou.
- Aham... vou perguntar de outro jeito. D'ávila, Beaumont ou Albelini estão aí com a Pandora?
O segurança me encarou sem responder, mas o seu silêncio dizia tudo. Eu dei um passo para entrar e o segurança na porta deu um passo à frente, espalmando a mão para bloquear o meu caminho.
- Você contou para ele. Esse foi o resultado. - Eu atirei para ele. - Devolve para o seu amigo, Andrey! - Eu falei, sentindo o gosto amargo da biles na boca, os soluços voltando a arranhar a minha garganta. - Diz para o Érick Albelini enfiar cada um desses centavos no rabo! Ele não vai me comprar! Ele não vai me transformar em puta! E ele nunca mais vai colocar as mãos em mim.
- Puta que pariu! O Albelini perdeu o juízo. - O Julian bufou. Ele se levantou furioso, fixou os olhos injetados no meu estado de sofrimento, e em seguida desferiu um olhar assassino para o Andrey. - Ele passou do ponto, Andrey, avisa isso pra ele.
O Andrey ainda olhava atônito para todo aquele dinheiro nas suas mãos, quando o Julian se afastou. O desastre do camarote privado chegou ao Trono e me quebrou de vez. As minhas pernas perderam as forças. A faca escorregou dos meus dedos e bateu no chão. Antes que eu desabasse, a Marcelina me abraçou como um furacão protetor, um abraço apertado e caloroso.
Eu desabei no peito da minha amiga. Chorei um choro rouco, pesado e desesperado. Eu havia encontrado o fundo do poço. Agora eu me sentia uma prostituta de verdade, porque o homem que eu amava me havia me transformado nisso.
- A noite acabou. - O Julian declarou, a voz grave, naquele tom impositivo e perigoso de quem estava assumindo o controle absoluto da crise. Ele se aproximou e falou com a Marcelina. - Deixa ela comigo, pegue as coisas de vocês duas no camarim. Eu já falei com o Barão, vou levar vocês para casa agora. E nem discute, Marcelina, olha o estado da sua amiga. Vamos, busque as coisas de vocês.
A Marcelina não rebateu o Julian dessa vez. Ela sustentou o seu olhar e me passou para ele. O Julian abraçou protetoramente e me levou para fora, deixando o Andrey sozinho e atordoado no Trono.
O Julian cumpriu a palavra. Ele nos levou para a vila, mantendo o silêncio e nos olhando pelo retrovisor de vez em quando, observando a Marcelina tentando me consolar no banco de trás. Mas ele fez mais, ele estacionou em frente a vila e ajudou a Marcelina a me levar até a casa da Dalva. Assim que nos deixou na porta da casa da Dalva, ele fixou os olhos na Marcelina por dois segundos inteiros, aquele olhar dizendo mais do que todas as palavras que ele pudesse pensar. A Marcelina agradeceu e fechou a porta. Eu estava pior do que antes.

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