"Lorena"
A rotina na casa da Dalva desde que eu voltei para a vila estava se transformando em um teste de resistência diário. Eu odiava cada segundo da noite, mas esta manhã eu odiava ainda mais o silêncio que me relembrava a humilhação da noite anterior, o dinheiro deixaso sobre a mesa, as palavras cruéis do homem que eu... não, eu não podia amá-lo, e não queria mais amá-lo, mas parecia que quanto mais eu pensasse nisso, mais aquele amor aprofundava as raízes no meu coração.
Eu tinha passado a noite em claro, chorando de novo, como eu prometi a mim mesma que não faria. O gosto amargo da biles continuava na minha boca, meu estômago ainda estava revirado e na minha pele eu ainda tinha as marcas de posse dele. Eu tinha devolvido cada centavo do maldito dinheiro através do Andrey. Oficialmente eu ainda tinha a minha dignidade. Mas a minha alma continuava estraçalhada e o meu coração parecia ter sido levado por ele, deixando só um vazio frio dentro de mim.
Eu estava sentada à mesa da sala, com uma caneca de café em minha frente, revisando a lista de currículos ignorados. Eu precisava encontrar um lugar, eu não podia continuar a mercê do Barão, correndo o risco dele me vender para o Albelini quando bem quisesse. A Marcelina entrou agitada e me encarou.
- Lô, atende o celular. O Julian precisa falar com você. - Ela disparou.
No mesmo momento o meu celular vibrou em cima da madeira. Olhei para a tela. Julian Beaumont. Meu coração falhou uma batida. Atendi com boca seca.
- Julian? O que aconteceu? O que o Érick fez agora? - Eu perguntei em um sussurro urgente.
- Calma, Lolô. O Albelini continua trancado na própria arrogância. - A voz grave e cansada do Julian flutuou pelo aparelho, desprovida de qualquer deboche. - O Andrey trouxe a Alice para tomar café comigo e com os bolinhos que ela adora. Nós estamos quebrando as ordens do Bicho-papão. Ela precisa falar com você.
- Mas... e se ele... o Andrey vai contar para ele, Julian. - Eu fiquei aflita, ansiosa, emocionada.
- Não se preocupa, o Andrey saiu para atender uma ligação. E a nossa garotinha é boa para proteger os seus tesouros. Nós temos um pacto. Ninguém conta para o Bicho-papão. Só seja breve, Lorena. O Andrey está fazendo vista grossa e o Érick não pode desconfiar.
O meu peito subiu e descendo rápido. No milésimo de segundo seguinte, o som de um fungado doce e a voz pequena e trêmula da minha menina ecoaram pelo telefone.
- Lolô... é você, Lolô? - A Alice sussurrou, a voz carregada de uma ansiedade infantil que me rasgou por dentro. - O Juju deixou eu falar com você! Eu comi os bolinhos e não contei pra ninguém que o Tio Beto me deixou te ouvir. Eu estou sendo uma princesa valente, Lolô, mas eu estou com tanta saudade que está doendo... por que você não volta? O papai está tão bobão e emburrado... eu não gosto mais dele.
- É só o efeito da humilhação da boate e o estresse acumulado somados a emoção de falar com a minha menina, Lina. Não é nada demais. - Eu me levantei e voltei para a mesa.
- Você deveria ir ao médico. Perdeu peso, anda se alimentando mal, quase não dorme. Isso não é saudável. - A Marcelina me alertou.
- Não se preocupa, Lina. Eu estou bem. Só preciso conseguir um emprego e sumir da boate para não ficar à mercê das vontades do Albelini e da ganância do Barão. - Eu respondi com segurança, mas a Marcelina ficou me olhando como se não acreditasse.
Os dias passavam rápido demais, transformando as semanas em um borrão de exaustão. Mais um mês havia passado. O único alívio que eu tinha eram as manhãs em que a Alice tomava café da manhã com o Julian, uma vez por semana, e ele a deixava falar comigo. No restante do tempo, eu sobrevivia como um robô, de forma mecânica e evitando pensar.
Ainda não havia aparecido outro emprego para mim ou para a Marcelina, as portas continuavam trancadas, a única saída era a noite na Infernal. Felizmente o Albelini não tinha voltado lá, mas o Andrey e o Julian iam todas as noites, gastavam fortunas e nem sempre conseguiam o Trono, mas estavam de olho em nós.
Contudo o meu corpo começou a protestar de um jeito que eu não conseguia mais ignorar. A dos, a privação de sono, o excesso de choro, estavam cobrando o seu preço. O mal-estar que começou naquela manhã depois de falar com a Alice virou uma rotina infernal. Todos os dias, pela manhã, o meu estômago revirava. O cheiro denso e metálico do perfume novo passou a me dar náuseas insuportáveis. O espartilho de renda preta, que antes desenhava as minhas curvas com perfeição, agora parecia me esmagar como uma prensa, me fazendo suar frio no Trono. E a minha paciência estava mantida por menos que um fio, me fazendo tratar todo e qualquer cliente com raiva e ferocidade, o que eles achavam intrigante e tomavam como desafio. Eu estava no limite com tudo aquilo e começando a desconfiar que estava mesmo doente.

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