"Lorena"
No fim da semana, eu estava debruçada sobre a pia do banheiro, lavando o rosto depois de vomitar mais uma vez, quando a porta foi empurrada com força. A Marcelina entrou, cruzando os braços, os olhos escuros faiscando com uma mistura de preocupação e uma suspeita afiada.
- Já chega dessa palhaçada, Lorena. - A Marcelina cortou o silêncio. Ela caminhou até mim e bateu com uma caixinha de papelão em cima da pia. Um teste de farmácia. - Faz um mês que você está vomitando até a alma e quase desmaiando com o figurino da Scarlat. Já parou de usar o perfume porque não o suporta. Eu não sou estúpida. Você está estressada,mas tem mais coisa aí. Faz essa porra desse teste agora.
O meu sangue congelou nas veias. Olhei para a caixa em cima da pia. O pânico de uma constatação avassaladora me paralisou.
- Não, Lina... não é possível. O Érick e eu... - A minha voz sumiu num fiapo, as minhas mãos tremendo tanto que eu mal conseguia tocar o teste.
- O quê? Você e o Érick não estavam transando quando você estava na casa dele? Vocês não transaramna boate? E quando foi mesmo que vocês usaram preservativo? - As perguntas da Marcelina eram retóricas, ela sabia todas as respostas.
- Mas eu tomava o anticoncepcional e... - Uma lembrança me fez quase perder o equilóbrio. Eu corri até a minha mala e peguei a minha necessaire, de dentro eu tirei a última cartela de anticoncepcional, inacabada, com vários comprimidos saltados e a realidade me atingiu em cheio. - Merda! Não pode ser.
- É, amiga, pode ser. Isso aí só funciona se você tomar como um reloginho e mesmo assim ainda pode falhar. Agora... - A Marcelina pegou a cartela das minhas mãos e examinou. - Desse jeito que você tomou, não faz muito efeito.
- Merda! - Eu xinguei outra vez. - Eu estava tão pressionada com a guerra contra o Conselho do Albelini, Lina... o Simão, a Adelaide... tinha tanta coisa acontecendo que eu me esqueci de alguns comprimidos.
- Vai lá e faz, Lô. Tira a dúvida logo. - A Marcelina insistiu, a voz suavizando sutilmente pela lealdade feroz.
- E ser for... - Eu estremeci e ela deu de ombros.
- Amiga, se for verme você toma remédio e se livra dele, mas se for um bebê, a gente cria, não vai ser num palácio e eu nem vou te prometer que não teremos apertos, mas amor não vai faltar. Anda, Lô, szeja corojosa, Você não tá sozinha. - A Marcelina decalrou com um meio sorriso, me empurrando para o banheiro.
Dez minutos depois, o silêncio dentro do banheiro da Dalva era mais sufocante do que o camarote da boate. Eu estava sentada na tampa do vaso, com os olhos fixos teste plástico que a Marcelina segurava sob a luz da lâmpada.
E, de repente, o visor simplesmente mudou, mudando a minha vida completamente junto com ele. Duas linhas nítidas se desenharam no visor. Positivo.
O mundo ao meu redor perdeu o som por completo. Eu levei as mãos à boca, um soluço de puro pânico e desespero rasgando a minha garganta enquanto as lágrimas voltavam a cair livres. Eu estava grávida. Grávida do homem que eu amava e que tinha me despedaçado. Grávida do homem que havia me escorraçado, me chamado de puta interesseira e que eu havia jurado nunca mais deixar colocar as mãos em mim.


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