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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 226

"Érick"

Um mês desde a última vez em que eu a vi. As semanas passaram lentamente, arrastando os dias em uma noite perpétua e dolorosa. Eu vivia para o Grupo Albelini, me afogando em relatórios e auditorias para não pensar nela,mesmo assim ela não saía da minha cabeça nem por um maldito segundo. Eu consegui me esquecer do novo sócio, já não me importava quem ele era, até porque ele realmente se mantinha fora do caminho, mas eu não conseguia esquecer aquela maldita mulher.

O Julian Beaumont tentou se aproximar várias vezes e o Andrey também tentava forçar aquela aproximação, mas eu mantinha a barreira estritamente profissional que eu mesmo havia imposto. Ele não teria chance de me trair outra vez.

E ainda tinha a Alice, cada dia mais distante, cada dia mais difícil e cada dia me odiando mais. Isso era muito doloroso, mas eu tinha a esperança de que mais cedo ou mais tarde ela esqueceria aquela mulher. Ela era só uma criança, as crianças esquecem. Pelo menos a guerra do cabelo estava superada, agora a Maria cuidava disso todas as manhãs. Assim como todas as manhãs eu via os olhos de reprovação da minha mãe durante o café da manhã.

Mas a vida não parou para que eu pudesse recolher os cacos da minha dignidade e do meu coração partido. Eu administrava uma empresa, tinha que falar com pessoas, mesmo que não quisesse, e fingir o mínimo de civilidade. Mas isso também era irritante.

- Érick, até quando? - A minha mãe irrompeu no meu escritório em casa.

- Até quando o quê, mãe? - Eu perguntei de má vontade, sxem tirar os olhos dos relatórios que eu estava revisando.

- Até quando você vai ficar nessa pirraça? Você está sofrendo, a Alice está sofrendo, a Lorena está...

- Não fala o nome desse mulher! - Eu grunhi e a minha mãe bufou como se eu fosse um adolescente rebelde.

- Érick... - Elaz puxou a cadeira a minha frente e se sentou. - Olha para mim, eu estou falando com você!

Dessa vez eu realmente me senti com dezesseis anos, sendo repreendido por ter consumido bebida alcóolica em uma festa e ter arrumado briga. Eu respirei fundo e a encarei.

- O que a senhora quer, D. Heloísa? Eu não vou falar daquela mulher. Ela morreu para mim. - Eu avisei.

- Morreu? Tem certeza? Porque eu vejo como você está, mais magro, quase não dorme, com esses olhos fundos e essas olheiras horríveis. Você está sofrendo e nem adianta negar. E o Andrey me contou o que aconteceu naquela boate.

- O Andrey anda se metendo demais. - Eu elevei o tom de voz. - Aquele lugar é o maldito inferno, mãe! Aquela mulher está lá outra vez, se exibindo, se vendendo...

- Chega, Érick! Seu orgulho te cega! - A voz da minha mãe se sobrepôs a minha. Ela quase nunca falava alto, o que me fez encará-la surpreso. Ela fechou os olhos por um momento e voltou a falar com a voz mais baixa, porém ainda áspera. - Veja bem, Érick, já tem dois meses que tudo aconteceu. Você não moveu um dedo para saber a verdade.

A pasta de couro texturizado que ela carregava escorregou de suas mãos, espalhando algumas folhas de relatórios pelo chão polido. O meu primeiro reflexo foi bufar de irritação, pronto para disparar uma resposta agressiva, mas a reação dela travou os meus passos imediatamente.

- Oh, mil perdões... a culpa foi toda minha, eu estava distraída com esses relatórios da importação. - Uma voz suave, dócil e perfeitamente refinada flutuou até os meus ouvidos.

Ela se abaixou com uma elegância natural para recolher os papéis. Eu me inclinei por puro reflexo e peguei a última folha, a entregando na mão dela. Quando os nossos olhares se cruzaram, algo despertou a minha atenção me tirando daquele torpor pela primeira vez em semanas.

Ela era impecável. Tinha os cabelos loiros perfeitamente alinhados em um coque baixo, usava um conjunto de alfaiataria em tons pastel de altíssimo luxo e exalava um perfume clássico e sofisticado, que cheirava a luxo e bergamota. O rosto dela não tinha uma máscara pesada de maquiagem, tinha uma beleza natural, dócil e digna de uma herdeira da alta sociedade. Os olhos verdes dela me encararam sem nenhuma timidez ou medo, exibindo um brilho acolhedor e profundamente compreensivo.

- Obrigada, cavalheiro. É raro encontrar homens gentis em dias tão corridos no mercado financeiro. - Ela deu um sorriso sutil e delicado, ajeitando a pasta contra o corpo com uma postura sofisticada que me chamou a atenção.

- Não foi nada. Eu também estava distraído. - Eu respondi, a minha voz saindo num tom menos frio que o habitual.

Ela fez uma leve inclinação de cabeça com respeito, despediu-se com suavidade e caminhou em direção à saída do restaurante com passos calmos e elegantes. Eu fiquei parado no meio do corredor, observando a silhueta magra e alta dela desaparecer pela porta de vidro. Pela primeira vez em um mês de inferno e autopiedade, a imagem daquela mulher trouxe uma sensação de calmaria e ordem para a minha mente. Parecia a mulher perfeita. O exato oposto do caos que estava me destruindo.

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