"Érick"
A minha vida estava caótica e os negócios do Grupo Albelini pareciam acontecer em uma velocidade que eu não conseguia mais acompanhar. Uma semana tinha se passado desde que a minha mãe me ultimato e me mandou resolver a minha bagunça, mas eu ainda não sabia como fazer isso.
A minha mesa na empresa estava inundada por relatórios de reestruturação de logística e contratos internacionais, a minha casa estava fora de controle, a minha filha me odiava e o que eu tinha trancado no cofre e na gaveta da mesa do escritório de casa me queimava diariamente.
Eu precisava de ordem. Precisava trabalhar mais e precisava urgentemente assinar os novos termos com empresas terceirizadas envolvidas na nova reestruturação.
Eu estava terminando de revisar uma cláusula de conformidade, quando o Andrey bateu na porta e entrou na sala. A postura dele continuava fria e distante desde a nossa briga na mansão, eu não o afastei, mas ele estava se mantendo sério demais comigo.
- A diretora de relações institucionais da nova terceirizada de consultoria de compliance está aguardando na sala de reuniões, Érick. - O Andrey anunciou, a voz mansa, estritamente profissional. - Ela veio assinar os termos finais do contrato pessoalmente.
- Eu já tinha me esquecido disso, Andrey. - Eu fechei a pasta e me levantei. - Vamos acabar logo com isso.
- Como foi mesmo que você encontrou essa empresa? Ela não é uma gigante do mercado ou alguma que eu me lembre de já termos trabalhado. - O Andrey perguntou enquanto caminhávamos para a sala de reuniões.
- Não, é uma empresa menor. Eu recebi uma carta de apresentação deles, indicada pelo Diretor de logística. Parece que ele os conheceu através de um amigo. Eu chequei o portifólio, falei com alguns clientes e achei a proposta deles muito interessante. - Eu dei de ombros.
- É, muito interessante mesmo. Amigo do amigo de um amigo, nesse caso de um diretor. - O Andrey respondeu com ar vago. - Bom, vamos assinar isso logo.
Eu entrei na sala de reuniões e vi o Beaumont já sentado lá, lendo os papéis em uma pasta, provavelmente um contrato. De costas para mim, uma mulher loura, com os cabelos em um coque perfeito, estava sentanda de frente para o Beaumont em silêncio.
- Boa tarde. - Eu cumprimentei com a voz fria e a mulher se levantou, se virando para mim devagar. Mas uma lembrança voltou a minha mente assim que a vi.
Era ela. A loira do restaurante.
A postura dela e o conjunto de alfaiataria cinza-claro exalava uma elegância impecável e o perfume suave de bergamota preencheu o ar da sala completamente. Quando os olhos verdes dela encontraram os meus, um brilho de surpresa dócil e divertida cruzou o rosto dela.
- Oh... o cavalheiro do restaurante! - Ela deu um sorriso caloroso, inclinando a cabeça de forma delicada. - Parece que essa cidade é muito menor do que eu imaginava.
- Eu compreendo perfeitamente. - Ela suspirou devagar, os olhos brilhando com uma simpatia que me desarmou. - Na nossa posição social, as pessoas costumam usar máscaras de ouro para nos apunhalar pelas costas. Mas sabe... eu notei que o senhor parece carregar peso demais. - Ela parou por um breve momento, seus olhos me estudando. - Nós temos que esperar o Sr. D'ávila voltar com os contratos, se me permite a audácia, posso fazer um convite de parceira de negócios?
Eu a olhei intrigado e fiz um gesto para que continuasse.
- Que tal um café fora da empresa? Apenas para conversar, sem relatórios e sem assinaturas. Acho que um pouco de conversa e variar de ares faria bem para a sua mente.
Eu semicerrei os olhos, inspecionando a postura dela. Não havia armadilhas aparentes. Não havia o barulho e a lascívia das mulheres oportunistas. Não havia segundas intenções. Havia apenas uma mulher perfeita, em alta posição social, oferecendo um porto seguro de calmaria. E eu precisava de calmaria.
- Eu aceito, Vicky. - Eu respondi, a minha voz saindo num tom menos frio do que eu usava há semanas. - Um café parece uma boa ideia.
Eu me levantei e vi o Beaumont revirar os olhos e abrir a boca, mas ele não se atreveu a falar. Apenas balançou a cabeça para mim, nitidamente me reprovando. Mas a minha vida e com quem eu tomava café não era da conta dele.
A partir daquela tarde, a aproximação entre a Victória e eu foi rápida e natural. O café virou jantares discretos, e os jantares viraram conversas que se estendiam pela madrugada através de ligações telefônicas. A Victória se transformou na minha confidente sem que eu sequer me desse conta de como havia aberto as minhas defesas. Ela era a calmaria que eu precisava. Eu contei tudo a ela. Falei sobre o luto do meu peito, sobre a quebra da minha confiança e sobre a dor de ver o meu melhor amigo me traindo e a minha filha me odiando. Ela sempre me ouvia com docilidade e paciência, me oferecia conselhos e gentileza. Ela se tornou uma presença reconfortante.

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