"Lorena"
O espartilho da Scarlat havia se tornado o meu instrumento de autoflagelação, eu o colocava e parecia não conseguir respirar. Eu estava apoiada no balcão do camarote, respirando pausadamente, lutando contra uma onda de tontura violenta que fazia as luzes neon vermelhas da Infernal girarem diante dos meus olhos da forma mais psicodélica que eu já tinha visto. Mais uma sexta feira nesse inferno. Mais uma noite vestindo a peruca vermelho-cereja e maltratando homens ricos entediados que achavam que poderiam me dobrar com o seu dinheiro.
Eu passei a mão pela testa, sentindo o suor frio borrar a maquiagem pesada da Scarlat. Uma queimação ácida subiu pela minha garganta e eu engoli em seco, sentindo o estômago revirar com o cheiro denso do meu novo perfume. Eu não me sentia bem. Mas eu já tinha ido ao médico e ele disse que, embora eu estivesse saudável e a gravidez de três meses estivesse indo bem, eu precisava reduzir o estresse. De acordo com ele, esses incomodos passariam logo, assim que os hormônios estabilizassem. Mas eu já estava começando a achar que o meu bebê me odiava, como o pai.
- Bebe um pouco de água, Lô. - A Marcelina sussurrou, surgindo ao meu lado atrás do balcão e me entregando um copo com pedras de gelo. Ela estava levando muito a sério o conselho do médico de que eu deveria me hidratar e comer melhor. - Você está branca como cera. Já é a terceira vez que você corre para o banheiro antes de o movimento pesado começar. Se o Barão desconfia...
- Eu estou bem, Lina, mas não sei até quando vou aguentar a boate. - A minha voz saiu fraca. Dei um gole na água fria, tentando aplacar a náusea. - Já vai passar. Eu preciso aguentar o expediente.
- Você deveria sair. Eu posso sustentar a nós três. - A Marcelina semicerrou os olhos e começou o discurso de que poderia segurar as contas até eu ter o bebê, mas ela não teve tempo de me pressionar. O som de passos firmes subindo a escadaria do camarote VIP nos fez assumir a postura das capetinhas atrevidas e desaforadas.
O Julian cruzou a porta do Trono. Logo atrás dele vinha o Andrey. A Marcelina bufou e revirou os olhos.
- Existem outras boates nessa cidade, se vocês não sabem. - Ela disparou enfurecida.
- Pandora, só hoje, dá pra você ser a Pandora de antigamente? - O Julian perguntou.
Ele vestia o terno sob medida habitual, mas a arrogância presunçosa dele havia evaporado. O seu rosto estava tenso, carregado por uma exaustão palpável. Ele caminhou direto até o bar, parando em frente à Marcelina. Os olhos dele brilhavam quando a viam.
Eu dei dois passos para trás, recolhendo os karaffs de cristal, dando espaço para os dois. Eu sabia o quanto a Marcelina estava se desdobrando para manter o Julian afastado nas últimas semanas só para proteger o meu segredo.
- Como você está, Scarlat? - O Andrey se debruçou no bar. A aparência dele não era muito melhor que a do Julian.
- Sobrevivendo, Andrey. - Eu forcei um sorriso. - E então, qual é o seu veneno de hoje?
- Escolhe você. O que você acha que eu preciso?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite