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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 23

"Erick"

O Julian estava parado diante de mim, me encarando como se eu tivesse acabado de confessar um crime, ele nem respirava. Aos poucos eu me dei conta de que o meu amigo tinha alguma informação que eu não tinha. Talvez eu fosse finalmente resolver o mistério da babá.

- Lorena Velente, Erick? É isso mesmo? - O Julian insistiu.

- Sim. Por quê? - Eu franzi as sobrancelhas, detestando o tom de urgência na voz dele. Ele sabia de alguma coisa e não era bom.

Julian soltou uma risada seca, sem humor, e caminhou até a janela, olhando para o jardim como se procurasse as melhores palavras para o que tinha que dizer.

- Lorena Valente é a contadora que está sendo acusada de fraude por vários dos nossos clientes. A mulher é acusada de dar um golpe de milhões no mercado. Eu mesmo mandei dispensá-la da entrevista que ela tentou para a função de contadora na empresa na semana passada. Ela é uma golpista! - Ele se virou para mim com uma expressão mais séria.

Eu senti um frio cortante subir pela minha espinha, mas não era medo. Era uma fúria possessiva que eu não sabia explicar. O meu amigo estava diante de mim acusando a babá da minha filha de golpista, mas cada célula do meu corpo me dizia que ela não seria capaz de arquitetar um golpe como aquele.

- Não pode ser, Julian. Eu não me atentei para o nome mas a mulher que está cuidando da minha filha não pode ser uma golpista. E a Alice...

- A Alice está sendo cuidada por uma criminosa! - O Julian se aproximou, baixando a voz. - Erick, essa mulher deu um golpe, cara, ela ferrou com muita gente.

- Julian, você sabe que eu costumo ser um ótimo julgador de caráteres. Essa mulher, ela não pode ter arquitetado um golpe. Além do mais, se ela deu mesmo esse golpe, o que ela está fazendo aqui? Por que aceitar um emprego de babá tendo milhões na conta? - Eu encarei o meu amigo. Aquela história não fazia sentido.

Eu me lembrei do cheiro de coco. Da forma como ela colocou a Alice atrás dela no corredor, instintivamente protegendo a minha filha.

O Julian passou a mão nos cabelos exasperado e soltou uma respiração pesada.

- É, não faz sentido ela estar aqui. Ainda mais usando o próprio nome. Mas como você a contratou? - A perguntra do Julian me fez pensar por um minuto.

- A agência mandou e a minha assistentefez a entrevistae me garantiu que foi impecável. E a julgar pelo que eu vi até agora, eu acredito.

- Ela está fazendo um bom trabalho? - O Julian me perguntou incrédulo.

- Começou bem. E ela parece saber lidar com a Alice. A Alice a trata... é diferente com ela.

- Em tão pouco tempo? Logo a Alice que costuma detestar as babás? - O Julian parecia tão incrédulo quanto eu.

- É... - Eu pensei por um momento. - Julian, alguma chance desse desfalque ter sido cometido por outra pessoa e ela ter ficado com a culpa?

- Pelo que eu soube, ela tinha um noivo que se apresentava como sócio dela, mas depois que a situação veio a público descobriu-se que ela não tinha sócio nenhum.

- Noivo... tem algo errado nessa história. - Eu me lembrei da pergunta da Alice mais cedo. - Ela não sabe que eu sei quem ela realmente é. E você não vai dizer uma palavra. Eu vou manter essa mulher onde eu posso vê-la, Julian. Se ela é uma santa que encantou a minha filha ou uma pecadora que rouba empresas... eu vou descobrir.

- Você é louco! - O Julian riu. - Vou pedir para o advogado levantar umas informações sobre o caso, então. O quanto antes eu soubermos de tudo melhor. - Ele puxou o celular do bolso do paletó.

Assim que o Julian terminou a chamada com o advogado, guardou o celular e me encarou com uma sobrancelha erguida.

Eu vi a cor sumir do rosto da Lorena. Ela apertou o guardanapo de linho sob a mesa, seus movimentos estavam tensos e os olhos dela estavam baixos, ela ainda não tinha saído correndo, mesmo sabendo que o pergido a rondava e isso me inquietava.

- Sim, ouvi falar. - Eu concordei. - Você soube de algo mais?

- Ah, sim. Acredita que ela teve a cara de pau de se candidatar a vaga na nossa contabilidade?! - O Julian contou com uma naturalidade assustadora, como se a mulher de quem falávamos não estivesse a nossa frente.

- Talvez ela não tenha cometido a fraude da qual a acusam e só estivesse buscando um emprego digno para sobreviver. - A voz da Lorena cortou o ar, baixa e contida, mas estável.

- Ouviu falar sobre o caso, Srta. Valente? - Eu perguntei e ela me encarou, realmente me encarou, pela primeira vez, sem tentar desviar o olhar, sem tremer, um olhar direto pra dentro do meu e uma segurança que me agitou algo no fundo da minha mente.

- Ouvi dizer muitas coisas, Sr. Albelini. Mas as pessoas julgam sem conhecer todos os fatos. Às vezes, o culpado não é quem assina o papel, mas quem segura a caneta por trás dele. - Ela desviou os olhos de mim e encarou o Julian, como se nos mostrasse que não tinha medo.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Ela tinha acabado de se defender sem admitir nada. Aquela audácia me fascinou, totalmente diferente da mulher contida e assustada, era a mesma mulher que eu vi na escola, firme, segura, altiva, olhar inteligente, pensamento rápido.

- Eu concordo, é necessário conhecer todos os fatos. E falando em fatos, soube que você não tem namorado, Lorena? É uma escolha ou... uma decepção recente? - O Julian parecia ter mudado de assunto, mas ainda era o mesmo tema sob um ângulo diferente.

Desta vez, foi o meu olhar que a perfurou. Eu queria saber sobre o tal noivo que o Julian mencionou. Eu queria ver a dor ou a raiva no rosto dela.

- Digamos que eu aprendi do jeito mais difícil que a confiança é uma mercadoria cara demais para ser entregue a qualquer um, Sr. Beaumont. - Ela respondeu com um tom amargo e um brilho de ódio nos olhos.

Nós terminamos o lanche em completo silêncio. Havia muita coisa nas entrelinhas do que a Srta. Valente disse. E, de alguma forma, eu desejava que ela fosse inocente, apenas para ter o prazer de destruir quem quer que a tenha feito sofrer.

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