"Erick"
Eu fechei a porta do escritório, depois que o Julian entrou logo atrás de mim, o rosto dele ainda estava carregado com a tensão do lanche. Ele se jogou na poltrona de couro e soltou um suspiro pesado.
- Eu não sei o que te dizer, Érick. A Lorena age de forma muito real com a Alice, carinhosa e gentil. E ela me encarou de frente, como se soubesse do que eu estava falando. - O Julian se jogou na poltrona ao fundo da sala e eu fui me sentar no sofá ao lado dele.
- Talvez ela esteja mesmo sendo injustiçada, Julian. O olhar dela, não é o olhar de quem escondeu milhões, é o olhar de quem foi atropelada pela vida. - Eu conjecturei.
O celular do Julian vibrou sobre a mesa. O dossiê do advogado havia chegado. Ele abriu o arquivo e começamos a ler em silêncio. As fotos do ex-noivo, Carlos Eduardo, apareceram primeiro. Um sujeito com sorriso ensaiado e olhos frios, que tinha sempre ao lado uma mulher que não era a Lorena. Nós passamos o resto da tarde debruçados sobre aquele dossiê, prestando atenção a cada detalhe, relendo, buscando uma fragilidade.
- Aqui diz que a empresa estava no nome dela e todos os contratos de empréstimo e movimentações suspeitas tinham a assinatura digital dela, mas... aqui diz que ela estava afastada da empresa há meses. - O Julian leu, franzindo a testa. - E olha isso... o tal noivo desapareceu no mesmo dia em que o oficial de justiça bateu na porta. Desapareceu com a melhor amiga dela... que merda!
Eu senti uma pontada de algo que eu raramente sentia: empatia. Ou talvez fosse apenas o desejo de quebrar o pescoço do tal Carlos Eduardo.
- Espera, tem uma observação do advogado aqui. Ele disse que conversou com o oficial de justiça que cumpriu as ordens do juiz. O oficial disse que ela pareceu não saber de nada e ficou devastada. - O Julian leu a última nota do advogado.
- Ele a usou! - Eu praticamente rosnei. - Deixou o nome dela na lama enquanto ele fugia como um covarde. - Eu estava com raiva, aquela babá tinha sido traída de uma forma muito covarde.
- E com a melhor amiga dela! Faz sentido agora. -O Julian admitiu, fechando o arquivo. - Por isso ela aceitou ser babá. Ela não tem acesso às contas, o nome dela está bloqueado em todos os bancos. Ela está trabalhando para pagar os advogados ou apenas para não passar fome, como ela disse. Ou talvez isso tudo seja só cortina de fumaça. Ela dá tempo para ele fugir, limpa o próprio nome e depois vai encontrá-lo.
- Juliaann! Que roteiro de filme barato é esse?! - Eu bufei impaciente.
- Tá, eu acredito nela... quase totalmente. Eu acho que é melhor esperarmos o fim das investigações. Eu vou levantar mais informações sobre como anda a situação. Mas você não acha que deveria confrantá-la?
- Talvez eu faça isso, mas não hoje. - Eu resmunguei. Aquela história da babá tinha me deixado muito irritado.
- Por que hoje não? - O Julian insistiu.
- Porque eu vou esperar que você levante todas as informações. Eu preciso de tempo para processar como uma mulher tão inteligente se deixou anular por um canalha como esse tal de Carlos Eduardo. E, além disso... hoje eu já estou estressado demais com outra coisa.
- Você estressado nem é novidade. O que aconteceu? - O Julian me encarou com um sorriso idiota.
- Acredita que aquela capetinha saiu antes de mim do hotel essa manhã e teve a audácia de deixar aquele envelope sobre cama?! O maldito envelope com o dinheiro! - Eu reclamei.
O Julian arqueou uma sobrancelha.
- O mesmo envelope da primeira vez? Você está dizendo que a mulher que nos faz beber uma pequena fortuna enquanto colocamos notas de cem na saia dela é a mesma que tem orgulho demais para aceitar o seu dinheiro "fácil"? - O Julian riu, balançando a cabeça. - Não acredito! Quer dizer, até acredito, ela jogou em você as notas que você colocou no decote dela.
- Você parece tensa, Lorena. Ainda por causa do incidente com a Adelaide? - Eu murmurei, inclinando-me até que meu hálito roçasse a sua orelha e ele estremeceu. - O que foi? O bicho-papão está perto demais?
Eu estava provocando aquela mulher, mas eu simplesmente não resistia. Ela engoliu em seco. Eu podia ver a pulsação acelerada em seu pescoço, o brilho daquela maquiagem ainda ali, como se quisesse esconder algo, mas estivesse só chamando mais atenção.
- Eu só... não quero causar mais problemas com a Adelaide, senhor. - Ela sussurrou, mas seus olhos não olharam para mim.
Eu levei a mão à porta, apoiando o braço ao lado da cabeça dela, cercando-a. Meus dedos roçaram propositalmente uma mecha do seu cabelo solto. O cheiro de coco e açúcar mascavo era quase inebriante, mas ainda havia algo mais ali e não era a realidade de quem ela era.
- Esqueça a Adelaide. - Eu disse, minha voz baixando uma oitava. - Eu queria apenas avisar que você está dispensada para o final de semana. Acho que a Alice vai sentir sua falta, e eu... - Eu fiz uma pausa proposital, só para deixá-la ali em suspenso mais um pouco. - Eu te espero descansada na segunda-feira.
Ela pareceu surpresa. O alívio cruzou seu rosto, mas foi logo substituído por uma confusão cautelosa. Ela parecia querer fazer perguntas, mas não tinha coragem.
- Obrigada, Sr. Albelini. - Ela levantou os olhos para mim.
- Agora vá! - Eu ordenei, e tirei o braço da porta lentamente, mas sem me afastar. - Antes que o bicho papão te morda.
Ela saiu quase correndo. Eu caminhei até a cadeira em minha mesa e me sentei, sentindo meu sangue pulsar mais rápido do que deveria. Eu tinha dado a ela o final de semana, mas o que ela não sabia é que tinha despertado algo em mim que não devia. Ela era a babá da minha filha! Talvez o Julian tivesse razão e eu estivesse cercado por belas mulheres complicadas. Eu precisava caçar a Scarlat para tirar a Lorena da minha cabeça.

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