"Érick"
Era noite de sexta feira, depois que o Andrey insistiu comigo para ir aquela boate, eu liguei para a Victória. Eu precisava me ocupar para não ceder aos meus instintos e correr para aquele inferno, para os braços daquela capetinha maldita. E assim, nós estávamos sentados na mesa de um restaurante reservado e elegante. Eu terminava de virar uma dose de uísque, remoendo o racha na holding.
- O Julian era o meu irmão, Vicky. - Eu desabafei, a voz rouca, a frustração evidente. - Ele sabia do teatro que montaram pelas minhas costas na minha própria casa e preferiu o lado delas. Ele vigiou os meus inimigos e me manteve cego.
A Victória esticou a mão delicada sobre a toalha de linho, tocando os nós dos meus dedos com um carinho reconfortante. O olhar verde dela estava sério, destilando um conselho suave que entrou na minha mente como uma verdade absoluta.
- Érick, meu querido, escute o que vou te dizer. - Ela falou com aquela doçura impecável, enchendo a minha cabeça com uma lógica que alimentava o meu orgulho ferido. - No mundo dos negócios e na vida pessoal, quem trai a nossa confiança uma vez, trai sempre. O Julian Beaumont cruzou a linha mais sagrada de todas: a lealdade. Se ele foi capaz de participar de uma farsa dessas debaixo do seu teto, ele não merece uma segunda chance. Você não pode confiar em quem te desestabilizou, Érick. Mantenha esse homem atrás da barreira profissional da empresa. Se possível se livre dele. Proteja a holding e proteja a sua filha de pessoas assim. Você é grande demais para se rebaixar a perdoar esse tipo de covardia.
Eu engoli em seco, olhando para o rosto dócil da Victória Lemos. As palavras dela faziam sentido. O meu orgulho encontrou eco na voz dela. Finalmente alguém que me entendia. Eu apertei a mão dela de volta, sentindo não uma cura, mas um pouco de calma e estabilidade me inundar. Talvez... só talvez, a Victória fosse o que eu precisava para resolver a minha bagunça.
O restaurante estava mergulhado em uma penumbra sofisticada e silenciosa. Ali, o cheiro de madeira nobre e o aroma suave de bergamota da Victória eram a única coisa que preenchia os meus sentidos. Eu vestia o meu terno escuro, a gravata preta afrouxada no pescoço. Eu ainda sentia a ausência da outra, mas a presença da Victória parecia um pequeno ponto de luz na minha escuridão. E uma certeza se construiu na minha cabeça: a Victória era o porto seguro que eu precisava para não enlouquecer.
- Eu soube que você anda virando noites na holding. Você precisa se permitir descansar, meu querido. - A Vicky falou, a voz mansa, dócil, caindo como um bálsamo no meu peito. Ela esticou a mão delicada sobre a mesa e tocou os nós dos meus dedos. O toque dela era macio e calmo.
- O Grupo Albelini esxtá exigindo muito de mim agora, Vicky. - Eu respondi, tentando afastar a lembrança da noite em que fui atrás da Lorena naquele lugar, na esperança de que vê-la lá me fizesse esquecê-la, mas foi o contrário. - Eu não posso confiar em praticamednte ninguém.
A Vicky exibiu uma simpatia e uma cumplicidade impecáveis. Ela se inclinou na minha direção, o olhar acolhedor me estudando com paciência.
- Eu sei o quanto o seu coração é nobre, Érick. E sei o quanto dói ser apunhalado por quem estava debaixo do seu teto. - Ela me lembrou de forma suave, a voz caindo para um sussurro íntimo. - Mas você precisa entender uma coisa de uma vez por todas: quem trai a nossa confiança uma vez, não merece o benefício da dúvida. Aquela mulher e o Beaumont... eles riram da sua cara. Não ceda ao seu bom coração, Érick. Não confie em quem te desestabilizou. Mantenha as barreiras erguidas. Você é grande demais para se rebaixar a perdoar esse tipo de covardia. E francamente... não sei se o D'ávila é tão confiável assim, ele vive grudado no Beaumont.
As palavras dela entravam na minha mente com o peso de uma verdade absoluta. Ela estava certa. O Julian e a Lorena me trataram como um imbecil. E a Vicky era a única que não me olhava com reprovação ou pena, ao contrário da minha mãe e da Maria todas as manhãs no café.
- Você tem razão, Vicky. - Eu respondi, a minha voz saindo num tom menos frio. - Obrigado por me ouvir. Por estar aqui.

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