"Érick"
Eu estava seguindo em frentem fazendo o que era preciso para trazer paz e ordem para a minha vida e a minha casa. Por isso eu precisava daquele jantar. Precisava da formalidade da mesa posta, sa família reunida e da civilidade que a Victória Lemos trazia para a minha vida. Era a minha declaração pública de que eu havia retomado as rédeas do meu próprio destino. Eu estava enterrando os fantasmas, provando para a minha família que a calmaria estava de volta, que eu não era um fraco e que aquela capetinha disfarçada de babá nunca deveria ter entrado na minha vida.
Eu vesti o meu terno escuro e a gravata preta de sempre, mas, pela primeira vez em meses, o meu peito parecia um pouco menos apertado. Quando desci as escadas, a Victória já estava no hall de entrada. Ela estava impecável. Usava um vestido sóbrio, de corte reto e mangas, em um tom de verde bem claro, os cabelos loiros presos no coque baixo perfeito e exalava aquela docilidade e pose aristocrática que me devolvia a sensação de ordem, me tirando daquele mundo invertido onde eu tinha mergulhado.
- Você está muito elegante. - Eu a elogiei e dei um beijo em seu rosto.
- Sempre tão cavalheiro. - ela sorriu de forma contida.
- Maria, a minha mãe e a Alice, onde estão? - eu me virei para a funcionário que tinha o rosto como uma incógnita para mim, era a expressão mais fria e mais entediada que eu já tinha visto.
- Elas já estão na sala de jantar, Senhor. - A Maria respondeu e com um aceno de cabeça se retirou.
Eu conduzi a Victória até a sala de jantar, que estava exatamente como eu ordenei, organizada para um serviço de jantar refinado. A minha mãe já nos aguardavam sentada ao lado da Alice. A postura de matriarca rígida e com o semblante fechado me fez lembrar a minha avó, ela estava analisando a minha convidadam eu reconhecia nos olhos azuis dela a frieza com que ela observava com uma severidade silenciosa.
- Mãe, esta é a Victória Lemos. - Eu anunciei, a minha voz saindo firme, carregada do orgulho de quem exibia o adorno que todos esperavam. - Ela é minha parceira de negócios... e minha namorada.
A minha mãe não vacilou, não demonstrou nenhuma reação, não pareceu surpreendida, não havia aprovação ou não nos gestos dela. Ela apenas ofereceu um sorriso elegante, do tipo que ela exibia há anos em qualquer situação, mas que não carregava um único milímetro de calor humano.
- Seja muito bem-vinda a esta casa, Victória. - A minha mãe falou, a voz linear, aristocrática, sem demonstrar absolutamente nada, nem mesmo que o "bem-vinda" era sincero. A minha mãe era a imagem da formalidade. - O Érick tem sido muito elogioso sobre a sua consultoria de compliance. É raro ver uma empresa menor ganhar tanto espaço no Grupo Albelini em tão pouco tempo.
- Obrigada, D. Heloísa. É uma honra cuidar dos ativos do Érick. - A Vicky respondeu, inclinando a cabeça com uma doçura impecável, sem se abalar com a reticência nítida da minha mãe. - O meu único objetivo é trazer um pouco de estabilidade e segurança para o lar de vocês.
Mas havia uma tensão palpável naquela sala que estava mais insuportável do que a forma fria com que minha mãe recebeu a minha namorada. Eu olhei para o lado e vi a Maria olhar com carinho para a Alice e retirar a mão do seu ombro, como se silenciosamente tivesse dito algo para confortá-la. E o meu coração torceu no peito quando a minha filha olhou para mim. O cabelo dela estava perfeitamente alinhado, mas o rostinho infantil estava sério, emburrado e os olhinhos azuis estavam avermelhados e cheios de lágrimas.
A Maria se retirou da sala sem dar um único sorriso, sem nem mesmo olhar para a Victória ou para mim, enquanto os olhos da minha filha me diziam muita coisa, mas eu confiei que ela ia se comportar, ela tinha se comportado até agora e eu havia dito a minha mãe que cuidasse disso para que não tivéssemos nenhum problema durante o jantar. A Alice ouvia a minha mãe.
- Calma, Érick, meu querido... não fique bravo com ela. - A Vicky falou num tom muito compreensivo, mas o seus olhops magoados me diziam que eu precisava tomar as rédeas da Alice. - A Alice é apenas uma criança inocente que foi profundamente manipulada pela babá anterior. É natural que ela tenha essa rejeição inflamada por causa do teatro que montaram na cabeça dela. Com o tempo, a estrutura e a ordem vão curar essa rebeldia, é disso que ela precisa, de estrutura sólida e um ambiente controlado. Eu tenho paciência para lidar com o temperamento dela, não se preocupe.
Eu olhei para a Victória, sentindo uma gratidão profunda por aquela calmaria. Ela era perfeita demais.
Na outra ponta da mesa, a minha mãe ergueu as sobrancelhas para mim e largou o guardanapo, se levantando sem fazer nenhum ruído.
- Vocês fiquem à vontade, eu vou ver a Alice. Maria, peça para levarem leite e biscoitos para a minha neta, sim?! - A minha mãe olhou para a Victória com a sua expressão blasé. - Tenho certeza que você também compreende que eu me ausente para cuidar da minha neta, não é mesmo, Victória?
- Claro, D. Heloísa. Eu compreendo perfeitamente. - A Vicky deu um sorriso tão doce para a minha mãe, mas recebeu em troca um sorriso ensaiado.
O jantar continuou no mais absoluto silêncio, mas o incêndio dentro da minha casa estava oficialmente aceso. A Victória tinha razão, a Alice precisava de estrutura sólida e um ambiente controlado.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite