"Érick"
O jantar foi um desastre completo! A minha mãe não voltou para a sala, a Alice fingiu estar dormindo quando eu entrei no seu quarto e no meu peito o meu coração era esmagado por não saber o que fazer com a minha própria filha.
As palavras da Victória durante o jantar desastroso continuaram ecoando na minha mente durante toda a madrugada. A Alice precisava de estrutura sólida e um ambiente controlado... o tempo e a ordem curariam essa rebeldia. Ela tinha razão. O conselho da Vicky reverberava no meu peito com o peso de uma necessidade urgente: eu precisava acabar de vez com as ilusões da minha filha de que a mentirosa da babá voltaria para esta casa. Eu precisava cortar o mal pela raiz para salvar a sanidade da Alice antes que ela se tornasse um desastre.
Na manhã seguinte a minha mãe informou que a Alice estava com febre e tinha chamado o pediatra. E mais tarde ela me ligou para dizer que a Alice havia sido medicada, mas que o pediatra acreditava que a febre era de fundo emocional. Isso deu um peso maior às palavras da Victória e fez considerá-las com muito mais seriedade.
E mais dois dias que se seguiram assim, a Victória já era uma presença constante na minha rotina. Ela estava na empresa durante as tardes e jantávamos juntos com uma frequência cada vez maior, mas nos últimos dias eu passei a levá-la para jantar em casa. A Alice ainda não tinha saído do quarto e a minha mãe continuava com a sua postura fria e distante. Mas a Victória era presente, ocupando os meus espaços, preenchendo o silêncio e não me deixando pensar muito. A calmaria dela era como um pêndulo que mantinha o meu olhar fixado nela e a sua voz preenchia os meus ouvidos impedindo os pensamentos intrusivos na outra. Eu estava cada vez mais envolvido pela sua constância.
Eu estava olhando pela janela da minha sala no Grupo Albelini, as pessoas passando na calçada lá embaixo e os carros apressados no trânsito. O fluxo intenso da cidade rivalizava com a corrente de pensamentos que rodavam pela minha cabeça naquele momento, mas uma coisa parecia se repetir incansavelmente. No fim do dia a Victória entrou na minha sala, eu estava sentado em minha cadeira e ela parou atrás de mim, massageando os meus ombros com os dedos macios.
- O comportamento da Alice não está melhorando, Érick. - A Vicky murmurou perto do meu ouvido, a voz dócil e com um tom de preocupação. - Eu liguei para a sua casa hoje à tarde e a Maria me disse que ela ainda não saiu do quarto.
- Minha filha é geniosa, Vicky. Dizem que puxou ao pai. - Um sorriso amargo cruzou o meu rosto me fazendo lembrar de uma das muitas vezes que aquela mulher me disse que a Alice era exatamente como eu.
- Ela é só uma criança. O problema, meu querido, é que a D. Heloísa, como avó, mima demais a menina. Ela passa a mão na cabeça da rebeldia da Alice, valida as pirraças dela e isso está fazendo um mal terrível para o psicológico da sua filha. E assim, enquanto a Alice se sentir apoiada na sua rebeldia, ela nunca vai me aceitar e nunca vai esquecer o passado. Eu me preocupo com a sua filha, Érick, e continuar assim fará muito mal a ela.
Eu engoli em seco. As palavras dela entraram na minha mente com uma lógica implacável. A minha mãe sempre mimou demais a Alice e estava minando a minha autoridade de pai com os seus olhares de reprovação o tempo inteiro. Se eu quisesse ordem, precisava de uma estrutura definitiva, precisava tomar o controle da minha casa de novo.

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