"Érick"
A Lorena ainda estava frente a frente com o tal consultor do Balthazar. Eu parei ao lado dela, invadindo o seu espaço pessoal, perto o suficiente para sentir o calor da sua pele e para o meu hálito roçar nos fios da sua peruca quando eu falei:
- Ninguém vai selar pacto nenhum esta noite. Nós não estamos aqui para ir ao inferno. Estamos aqui para assinar um contrato. - Minha voz saiu como um rosnado, autoritária e irritada.
- Ora, e não dá tudo no mesmo? - O Balthazar perguntou num tom de completo divertimento. - Selar um pacto... assinar um contrato... cada qual com o seu objetivo, o seu inferno próprio, mas, no fim, tudo a mesma coisa. Então, se pudermos desfrutar da companhia de uma bela mulher no percurso, por que nao?
- É melhor manter o foco, Balthazar. Não há nada para se divertir aqui. - Eu respondi sem conseguir tirar os olhos dela.
Havia algo diferente nela. Então ela se virou e ficou de frente para mim, queixo erguido, sem recuar um milímetro.
- Está com medo do inferno, Albelini? - O desafio no tom dela era evidente. - Logo você, que adora atirar as pessoas lá.
Antes que eu pudesse reagir ela se afastou.
- Parece que vocês já conheciam o lugar. - O Balthazar observou.
- Sim, costumamos aparecer por aqui. E conhecemos bem as garotas. - O Andrey respondeu sério. - É melhor não selar o pacto ou elas vão te embebedar antes que possamos assinar esse contrato.
- Ah, não me diga que não vai beber comigo hoje, tigrão. - A Pandora se aproximou do Andrey oferecendo uma dose generosa de whisky.
- Tentação, como eu posso resistir a você? - O Andrey segurou a mão dela e deu um beijo no dorso.
- É melhor resistir, felino! - O Beaumont rosnou e se colocou entre os dois, mas a Pandora virou as costas e se afastou o que despertou a minha curiosidade.
Nós nos sentamos ao redor da grande mesa de centro do camarote. Cada um de nós tinha a sua própria disputa silenciosa ali. O Balthazar apresentou o consultor e jogou as cláusulas contratuais sobre a mesa, mantendo aquela postura presunçosa de quem estava no controle das nossas ações e das nossas reações. Ao lado dele, o tal Consultor, tão refinado e cheio de pose quanto o Balthazar, não tirava os olhos da Lorena.
O Andrey sentou-se na lateral, fingindo analisar os contratos e tentando disfarçar o desconforto. Ao seu lado, o Julian Beaumont estava de pé com o copo na mão, com uma carranca de quem queria quebrar todo aquele lugar. O motivo da fúria contida do Julian estava bem na minha frente: o Balthazar segurava a mão da Pandora e destilava um charme audacioso para cima dela.
- O Trono realmente tem a melhor carta de bebidas da cidade, Pandorinha! E as melhores anfitriãs que eu já conheci. - O Balthazar murmurou, a voz grave descendo para um tom íntimo, passando os dedos longos pelos dedos dela. - Eu estou tentado a assinar esses contratos sem ler só para desfrutar do que você vai me servir.
- Lamento, Cavalheiro. Não há dinheiro que compre o meu inferno e a sua alma não é suficiente para ele. - A Lorena deu um sorriso frio e entregou mais uma dose de bebida para o homem. Eu queria espancá-lo até virá-lo do avesso.
A Lorena serviu cada homem naquele camarote com a mesma arrogância. Os olhos do consultor grudados nela. Por fim ela chegou a mim, impaciente, revirando os olhos, nitidamente cumprindo uma obrigação. No segundo em que os dedos da Lorena cruzaram os meus ao me entregar o copo de cristal, o choque elétrico de sempre nos atingiu. A mão dela tremeu sutilmente. Eu me inclinei para a frente, o rosto a milímetros do dela, e sibilei no ouvido dela com um cinismo cortante:
- Você se adaptou rápido demais ao novo visual, Scarlat. E, pelo visto, já tem novos clientes pagando pelo seu sorriso no inferno. - Eu abaixei a voz para um sussurro. - Você me dá nojo, Lorena.
Ela sustentou o meu olhar com uma frieza selvagem. Claramente usando todo o seu autocontrole para não enterrar as garras no meu rosto.
- Eu estou trabalhando, Albelini. Os meus clientes pagam para ter os seus copos abastecidos. Beba o seu absinto, assine o seu contrato e suma daqui. Você não tem mais o direito de me exigir nada. - Ela protestou, mas era tarde demais, ela já tinha despertado a minha fera.
- Você é que pensa! - Eu rebati furioso.
Eu a puxei para o meu colo, não resistindo ao fogo que queimava entre nós.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite