"Érick"
Eu estava começando a me convencer de que eu nunca poderia resistir àquela mulher. Eu não estava nem aí para quem estava em volta e o que iriam pensar. A bandeja que estava em uma das mãos dela foi ao chão causando um estardalhaço, o copo que estava na minha mão também caiu e se espatifou. E no mesmo instante eu capturei a sua boca na minha e o silêncio tomou conta do camarote.
Eu não me importei!
Eu só me importava em beijá-la, em consumir aquele fogo entre nós, em acabar com aquele desespero que eu sentia em vê-la sem poder tocá-la. E por um momento aquele beijo foi como o paraíso. Mas não durou muito. Ela me empurrou e se afastou do meu colo. De repente eu senti o impacto da sua mãono meu rosto.
- Você não tem o direito de me tocar! - Ela falou com a voz embargada, o peito arfante. - Nenhum de vocês. E o próximo que ousar será colocado para fora pelo segurança.
Ela deu as costas e saiu do camarote, que estava em suspenso. O Beaumont e o Andrey me olhavam em choque, o consultor me olhava com certa curiosidade e o Balthazar me olhava com um brilho nos olhos de quem já esperasse por aquilo, como se ele soubesse de tudo. Mas a Marcelina, essa me olhava com um ar de reprovação, como se quisesse me matar.
- Você é um animal, Albelini! - A Marcelina soltou em tom de reprovação e foi para trás do balcão.
Logo uma senhora entrou no camarote e fez a limpeza e quando a Lorena voltou ela se manteva distante, atrás do bar, enquanto a Marcelina servia as bebidas. Eu mal prestava atenção nos contratos. A minha mente e os meus olhos estavam sobre ela. Aquela mulher me desarmava, me levava a cometer desatinos, me deixava no limite. A reação dela naquele camarote, tanto as investidas do consultor, quanto a minha própria estava tão cheia de dignidade que, por um momento, eu duvidei do que os meus olhos viram naquele dossiê que a Adelaide havia me entregado. Mas não, o que eu vi era inquestionável. O que a Lorena estava fazendo era uma cena para me iludir de novo.
O Balthazar bateu a caneta na mesa de maneira muito ruidosa, interrompendo os meus pensamentos, me estendendo a via final do contrato. Assinei o documento com movimentos brutos, rasgando o papel com a ponta da caneta, sem ler mais nenhuma linha, o Andrey e o Beaumont que se virassem. Eu precisava sair dali. Precisava de ar.
- Muito bem, os trabalhos começam amanhã. - O Balthazar decretou e se levantou. - Senhoritas, foi um prazer indescritível, mas da próxima vez, eu quero selar o pacto com vocês e sair daqui como o Sr. D'Ávila disse, totalmente bêbado.
Eu resmunguei irritado com a descontração do Balthazar.
A reunião foi encerrada na madrugada. O Balthazar e o consultor se despediram com aquela camaradagem de bons amigos, descendo as escadas rindo. O Andrey e o Beaumont me esperavam na porta do camarote, eu lancei um último olhar para a Lorena, que desviou os olhos, e saí dali.
A Lorena arregalou os olhos com um pânico nítido na expressão. Em um rompante de força selvagem que eu não esperava, ela apoiou as duas mãos no meu peito e me empurrou para trás com violência. Eu vacilei dois passos na penumbra, atônito.
Ela cruzou os braços de forma defensiva, os olhos cheios de lágrimas e se afastou.
- Não, Érick! Acabou! Você acabou com tudo! - Ela quase gritou, a voz falhando de medo. - Eu não sou o seu brinquedo de luxo para quando você está na fissura! Você já tem a sua noiva perfeita! Está de casamento marcado! O que você quer? Me transformar na sua amante? Me tornar o que você me acusou injustamente de ser? Uma puta interesseira? Não, Érick! Me deixa em paz! Some da minha vida!
Ela virou as costas e correu pelo corredor dos fundos, batendo a porta do camarim com um estrondo violento.
Eu fiquei estático no escuro da coluna, o meu peito latejando de uma dor física tão intensa que eu sentia estar a beira da morte. A fúria possessiva e a humilhação trituraram a minha sanidade de vez. Ela tinha me rejeitado. Tinha me escorraçado de perto dela no mesmo lugar onde se exibia para outros homens. E na minha cabeça só uma pergunta rodava: Como ela sabia que eu ia me casar?
Eu saí da boate Infernal marchando a passos rápidos e estrondosos. Eu estava amargando o meu ciúme, a rejeiçãom a dor. Cruzei a portaria ignorando o Andrey e o Beaumont, entrei no meu carro e saí cantando pneus. Quando cheguei em casa me tranquei no escritório, pelo resto da noite eu fiquei ali, sem dormir, sem pensar em mais nada que não fosse ela me rejeitando.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite