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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 25

"Lorena"

Eu fechei a porta do escritório atrás de mim, minhas pernas quase cederam, meu coração batia forte e eu não conseguia respirar. Eu ainda sentia o calor do corpo do Érick na minha pele, por causa de toda aquela proximidade. O "bicho-papão" não tinha me mordido, mas tinha chegado perto o suficiente para me deixar sem ar. Ele chegou perto demais. Intencionalmente perto. Ele esteve a ponto de me beijar. Não a Scarlat, a personificação do desafio, mas a babá, a mulher doce e insegura.

Eu caminhei em direção à escada tentando não correr e tentando recuperar o domínio sobre o meu corpo. Eu precisava sair dali antes que a Adelaide me visse naquele estado, com as bochechas queimando e o peito arfando. O que estava acontecendo comigo? Por que aquele homem me causava todas essas sensações que se resumiam a um desejo quase incopntrolável de agarrá-lo? Ele era lindo, mas era mais que isso, ele era magnético.

No topo da escada, eu encontrei a Alice. Ela estava sentada bem no cantinho, me observando com aqueles olhos curiosos que pareciam ver através de todos os meus disfarces. Eu me sentei ao lado dela e passei o meu braço ao redor dos seus pequenos ombros.

- Que carinha triste é essa? - Eu perguntei gentilmente.

- O papai foi malvado com você? - Ela sussurrou.

- Não, Alice. Seu pai só... é um homem muito sério. - Eu expliquei, mas aqueles grandes e curiosos olhos azuis não estavam satisfeitos, porque aquela garotinha sentia mais do que via as coisas.

- Você vai embora, Lorena? - A voz infantil dela estava carregada de tristeza e uma carência que partiu o meu coração.

- Você ouviu o leão gritar? - Eu perguntei baixinho em seu ouvido e ela negou com a cabeça. - Então está tudo bem! Eu só vou por dois dias, lindinha. No domingo à noite estarei de volta. - Eu me forcei um sorriso e dei um beijo na testa dela. - Vou ver minhas outras amigas, mas no domingo à noite eu estou de volta para te dar um beijinho de boa noite e na segunda feira te levo à escola. Prometo.

Ela me abraçou apertado, jogando o corpinho sobre o meu e se sentando no meu colo. Por um tempo eu quis apenas ficar ali, de olhos fechados, naquele casulo de inocência e afeto gratuito que aquela criança me oferecia e que já despertava no meu coração. Aquela garotinha no meu colo era real e gostava de mim pelo que eu realmente era, sem as maquiagens, sem os disfarces.

Mas o mundo lá fora não esperava e não perdoava, eu tinha certeza de que Julian Beaumont se lembraria quem eu era, ou pelo menos quem a justiça dizia que eu era, se já não tivesse lembrado, e as dívidas do Carlos Eduardo continuavam batendo à minha porta.

Quando eu abri os olhos, eu encontrei olhos azuis profundos me observando do pé da escada. Ele parecia uma miragem, com as mãos nos bolsos da calça, lindo e imponente, em estado de contemplação.

- Acho que o seu pai também vai querer um abraço desses. - Eu falei baixinho para a Alice, sem desviar os meus olhos do pai dela.

Ela se mexeu no meu colo, olhou bem a figura do pai, me deu um beijo e desceu as escadas apressada, se jogando sobre o pai e o pegando desprevenido. Eu desci as escadas observando a cena.

- Boa noite, senhor. Tenha um ótimo final de semana. - Eu falei ao passar por ele, deixando pai e filha para trás naquele abraço.

Fora da casa Albelini, o ar fresco da noite me atingiu, mas não trouxe alívio. Eu tinha o final de semana de folga, mas não seria para descansar. Os processos estavam consumindo cada centavo que eu conseguia esconder, e as ameaças dos credores não paravam de chegar. Eu precisava de dinheiro e a Scarlat e a Infernal me esperavam.

Duas horas depois, eu não era mais a Lorena, a babá que cheirava a doce. Eu era a Scarlat. Mas eu tinha uma trégua, está noite eu sabia que Érick Albelini não viria caçar a sua presa.

O fim de semana foi um borrão de luzes neon, fumaça e pés latejando dentro de saltos agulha. A Infernal estava lotada. Homens poderosos, fumaça de charuto e bandejas lotadas de doses do pecador.

No domingo à noite eu voltei para a casa Albelini. Eu estava exausta. Minha alma parecia ter sido triturada. E os meus pés queimavam como se eu andasse sobre brasas.

Eu paguei o taxi, um pequeno luxo que eu me resolvi me dar, porque eu realmente estava exausta e precisava de uma boa noite de sono. A casa estava na penumbra, mas uma luz vinha do escritório. Ele ainda estava acordado. Mas eu tinha prometido para a Alice... e se ela estivesse acordada me esperando? Se eu subisse as escadas em silêncio ele nem me perceberia ali.

Eu subi as escadas com cuidado e abri a porta do quarto de Alice, vi que ela dormia profundamente. Senti um alívio genuíno. Eu fui até a cama e dei um beijo na menina. Depois fiz o caminho de volta. Passei pela cozinha em silêncio e peguei um copo de água, mas quando me virei para sair ele estava lá. Vestindo jeans e camiseta preta, seus olhos como dois grandes faróis na penumbra.

- Pensei que você só voltaria amanhã, Lorena. - Ele deu um passo em minha direção e eu senti a água escorrer pela borda do copo, eu estava tremendo.

- Mentira. Eu posso ler você, Lorena. Sua pulsação está disparada bem aqui... - ele deslizou o polegar pelo meu pescoço, exatamente onde a marca dele ainda queimava sob a maquiagem feita às pressas no taxi. - Você foge de mim pelos corredores dessa casa, como se eu fosse mesmo o bicho papão.

- O senhor é o meu patrão, Sr. Albelini. A distância é... profissional.

- Profissional? - Ele soltou uma risada baixa, rouca, que vibrou no meu estômago. Ele se inclinou, o rosto a milímetros do meu. Eu podia sentir o calor da sua boca. - Não há nada de profissional no jeito que você me olha quando acha que eu não estou vendo, Lorena.

Eu não esperava ter sido pega cobiçando aquele homem, mas o meu corpo me traía a todo momento. Eu fechei os olhos, esperando o impacto do beijo. Por mais que eu negasse, o meu corpo implorava por isso, traindo o que a minha razão recomendava. Mas, no último segundo, o som de passos apressados e uma doce voz sonolenta quebrou o feitiço.

- Papai! Lorena! - O chamado da Alice ecoou vindo da sala.

O Érick se afastou bruscamente, a expressão de predador sendo substituída instantaneamente pela de pai preocupado. Ele respirou fundo, tentando recuperar o controle que eu quase perdeu. Foi nesse instante que a Alice entrou na cozinha.

- Lorena! - Ela chamou empolgada e correu em minha direção. Eu me abaixei para pegá-la em um abraço. - Por que vocẽs estão no escuro?

- Eu já não havia te colocado na cama, Alice? - O Erick olhou para a filha, mas não havia reprimenda na voz dele.

- É que eu sonhei com a Lorena e acordei. - A Alice contou alegremente. - Eu sonhei que você era uma princesa, Lorena, e usava um vestido que parecia o céu cheinho de estrelas.

- Olha isso! Então eu vou te levar de volta para a cama, para vopcê sonhar bem direitinho com esse vestido e amanhã me contar em detalhes como ele é.

Eu saí da cozinha levando a Alice pela mão. E enquanto ela tagarelava sobre o vestido de princesa, o pai dela ficava para trás no escuro e aquele momento que ficamos sozinhos virava fumaça. Meu coração palpitava de alívio por ter sido interrompido, mas o meu corpo... meu corpo parecia furioso com a interrupção.

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