"Lorena"
Encarar o meu chefe pela manhã, depois do quase beijo na cozinha na noite anterior, foi desconcertante. Quenado eu entrei na sala levando a Alice pela mão, eu senti os olhos dele sobre mim, escaneando cada detalhe, como se buscasse uma rachadura no meu "disfarce" de babá. Eu usava o uniforme azul marinho escolhido por ele, ele havia deixado mais três sobre a minha cama, todos iguais, com um bilhete explicando que era para o caso de sujar.
Num momento de pura coragem eu o observei disfarçadamente. Ele parecia compenetrado em qualquer coisa num tablet enquanto bebericava uma xícara de café com uma elegância invejável. Ele parecia... profissional. Intocável. Não, ele não parecia, ele era intocável. Havia olheiras leves sob seus olhos azuis, como se ele não tivesse dormido bem. Ótimo! Pelo menos eu não era a única revirando na cama, mas eu tinha a maquiagem.
A Alice correu dar um beijo no pai, transbordando a energia que só as crianças têm nas manhãs de segunda. Aquela máscara de gelo que ele ostentava se quebrou por um momento para a filha, me lembrando do homem incendiário por baixo daquela fachada polida.
E enquanto a Alice tagarelava sobre as expectativas para a semana nós passamos pelo café da manhã sem nada além de um bom dia.
O trajeto até a escola foi preenchido pelo tagarelar da Alice, que foi diminuindo à medida que nos aproximávamos dos arredores da escola de elite que ela frequentava. O brilho nos olhos dela foi substituído por uma sombra de ansiedade. Ela começou a esfregar o narizinho, um tique que eu já tinha identificado como sinal de nervosismo. Qualquer um diria que ela apenas estava se ajustando para o ambiente da escola.
- Tudo bem, Alice? - Eu apertei a mãozinha dela ao sairmos do carro.
Ela me olhou como se tivesse medo de ser julgada pelo que tinha a dizer.
- Me diz, o que foi? Nós somos amigas, você não precisa ter medo de falar o que você quiser comigo. - Eu insisti e me abaixei para ficar na altura dos olhos dela.
- As outras mães não gostam de mim, Lorena. Elas dizem que eu sou rebelde porque não tenho mãe para me dar modos. - Ela abaixou a cabeça, a voz sumindo.
Meu coração apertou. Como mulheres adultas podiam ser tão cruéis com uma criança?
- Não dê ouvidos! Você não é rebelde, é uma menina de atitude e isso incomoda muita gente. - Eu falei como se conspirasse com ela e ele deu um pequeno sorrisinho não muito confiante.
Assim que pisamos no pátio, eu senti os olhares, pesado, impregnados de julgamento e não eram só para mim. Um grupo de mulheres impecáveis, vestidas como se estivessem indo para uma festa, segurando bolsas que valiam uma fortuna, parou de conversar para nos observar entrar. Naquele momento eu agradeci secretamente pelo vestido de grife que o Sr. Albelini escolheu como uniforme para mim.
No centro daquelas estava Verônica Albuquerque, a "rainha" da associação de pais. A mãe que se destacava como membro ilustre da comunidade escolar. Uma das professoras a havia apontado para mim na semana anterior, quando fui conhecer a escola. E eu me lembrava da postura arrogante dela.
- Olha só... a pequena Albelini hoje trouxe um reforço. - A voz antipática da Verônica comentou alto o suficiente para ouvirmos, com um sorriso de escárnio. - Pelo visto, o Érick finalmente desistiu de tentar educar a menina e contratou uma babá mais... de acordo com os próprios anseios.
O filho da Verônica, um garoto chamado Miguel, andou até nós e barrou o caminho da Alice, com um olhar tão arrogante quanto o da mãe, nem parecia uma criança inocente, tão perfeitamente reproduzia a conduto discriminatória que aprendia em casa. Eu sabia que aquele garoto era um problema para a Alice no momento em que o vi na semana anterior, mas na presença do Sr. Albelini ninguém se atgrevia a mexer com a menina.
- Você não vai ser convidada para a minha festa, Alice. Minha mãe disse que você é esquisita e mal educada. A sua mãe preferiu morrer a ter que criar você.
Era óbvio que o menino repetia o que tinha ouvido de adultos. E enquanto a fala dele era cruel, o silêncio que se seguiu por parte dos adultos presentes foi violento. A Alice estacou, segurando firmemente a minha mão e tentando se esconder entre o tecido da saio do meu vestido. O rosto dela ficou pálido e eu vi a primeira lágrima transbordar. O garoto riu, para ele era diversão, enquanto a mãe, apenas ajeitava os óculos escuros com um ar de triunfo sob aquele nariz em pé.
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