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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 27

"Érick"

Eu estava sentado diante do Julian no meu escritório. Talvez eu não devesse contar tudo assim para o meu amigo mais debochado, porque ele iria fazer inúmeras piadas com a minha situação.

Mas depois de ficar parado na cozinha às escuras, ouvindo o som dos passos de Lorena se afastarem depois de eu quase tê-la beijado me fez precisar desabafar com um amigo. Meus dedos ainda formigavam onde eu havia tocado a pele dela. O cheiro de coco e o calor daquele corpo encostado na bancada da cozinha pareciam se negar a deixar a minha memória. Maldita interrupção. E, ao mesmo tempo, bendita fosse ela.

- Você está me dizendo que quase beijou a babá na cozinha ontem à noite? - O Julian soltou uma risada ruidosa, recostando-se na poltrona do meu escritório. - Albelini, o que você está fazendo? Você é patético. Onde está o predador da Infernal agora? O que corre atrás da capetinha?

- Cale a boca, Julian! - Eu resmunguei de mau humor, massageando as têmporas.

Mas o Julian estava certo, eu era patético. Ela era a babá. Uma mulher que parecia completamente sem graça e agia como se tivesse medo de mim, mas que fechava os olhos para o meu beijo como se estivesse esperando por ele a vida inteira. E tinha a Scarlat. Um mistério e um fogo que queimava no olhar. Ela não se curvava, ela servia o inferno e não se importava com as consequências. Duas mulheres. Duas obsessões. E eu estava começando a perder o controle sobre ambas.

- Eu só queria testar a resistência dela. Ela fica nervosa, as pupilas dilatam... é uma reação biológica, nada mais. - Eu tentei disfarçar os meus pensamentos, mas isso era impossível diante do meu amigo.

- Sei. Uma "reação biológica" que te fez perder o sono. - O Julian provocou, mas seu tom ficou sério logo depois. - O advogado já me enviou novas informações sobre o caso da babá. Ele fez um dossiê do ex-noivo e confirmou que ele é um lixo. Parece que ela é inocente mesmo no caso do golpe financeiro, mas isso o processo nos dirá ao final. Contudo, a Lorena é perigosa de um jeito diferente, Érick. Ela está entrando na sua cabeça.

Eu ia responder que ninguém entrava na minha cabeça sem permissão, mas o interfone da minha mesa tocou, cortando o ar e eu atendi no viva voz. Era a minha secretária, com a voz carregada de urgência.

- Sr. Albelini? A secretária da diretora da escola da sua filha está na linha. Houve um incidente grave no pátio envolvendo a Sra. Albuquerque.

O sangue gelou nas minhas veias por um segundo antes de ferver. Verônica Albuquerque. A mulher era uma cobra peçonhenta que achava que o mundo girava ao redor dela e o marido dela era um sócio útil, mas descartável.

- O que aconteceu? - Eu perguntei, já me levantando e pegando o paletó.

- Houve uma briga, senhor.

- O que a Alice fez dessa vez? E por que não chamaram a babá? - Eu perguntei olhando para o Julian.

Eu já estava acostumado a ser chamado na escola da Alice pelo menos a cada quinze dias para resolver alguma encrenca em que minha filha se metia.

- Senhor, a babá está na escola. Aparentemente, a sua babá enfrentou a Sra. Albuquerque na frente de todos para defender a Alice. A diretora solicita sua presença imediata. Parece que a situação está fora de controle.

Eu olhei surpreso para o Julian. Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso.

- A doce e assustada Lorena saiu no tapa com a rainha da escola? Isso eu preciso ver. - O Julian se levantou.

- Não vai ver nada, Julian! Fique aqui e cuide daquela fusão com os alemães. - Eu saí a passos largos. - Eu vou resolver isso. A Alice já estava me causando uma úlcera, agora tem a babá...

Eu caminhei pelos corredores da escola sentindo a fúria crescer a cada passo. O som dos meus sapatos no mármore ecoava como um aviso. Quando cheguei à recepção da diretoria eu apenas fiz um gesto para a secretária e coloquei a mão na maçaneta da porta da diretora, mas antes de girá-la eu ouvi o que vinha de dentro.

A Lorena se levantou devagar, mantendo a mão protetoramente sobre o ombro da Alice.

- Sr. Albelini, eu descobri que a sua filha é atacada cruelmente aqui todos os dias. As crianças a maltratam e debocham dela porque a mãe dela... - A Lorena não conseguiu pronunciar a palavra. - Enfim, eles atacam cruelmente a Alice, o filho da Sra. Albuquerque disse coisas horríveis para a minha menina, sobre a mãe dela. E eu não vou pedir desculpas por tê-la defendido enquanto todos, inclusive a diretora, fecham os olhos para as atrocidades promovidas por essa mulher que se diz muito fina e elegante.

A segurança da Lorena, o fato de que ela continuava me olhando nos olhos sem recuar e apontando a omissão da diretora me deixaram intrigado. Eu olhei para a diretora, que suava frio.

- Eu quero as gravações das câmeras do pátio. - Era a primeira vez que eu pedia para ver as imagens das câmeras e isso surpreendeu a diretora.

- Sr. Albelini, não é para se incomodar tanto. Foi tudo um grande mal entendido, basta que sua babá se desculpe e... - A diretora parecia condescendente demais.

- Agora. - Eu interrompi o discurso da diretora.

Quanto mais ela tentava me demover da ideia, mais eu queria ver as imagens. Algo me dizia que a minha babá estava certa.

- E Verônica... - Eu me virei para a socialite, que parecia prestes a desmaiar. - É melhor que o seu filho não tenha aberto a boca para falar da mãe da Alice e se fez, é melhor que você o tenha corrigido, ou as coisas vão ficar muito difíceis para você e o seu marido.

- Sr. Albelini, por favor, vamos nos acalmar. Acho que podemos ignorar essa situação e fingir que nada aconteceu. - A Diretora estava a beira de um colapso nervoso, eu via o suor brotando na testa dela.

- Eu quero o vídeo, agora! E sem nenhum corte ou eu fecho essa escola e você nunca mais consegue emprego nessa cidade. - Eu avisei, batendo a ponta do indicador sobre o tampo brilhante da mesa.

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