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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 29

"Lorena"

O restante do trajeto foi silencioso, mas não era um silêncio vazio porque a minha mente parecia gritar, estava caótica com tantos pensamentos. Eu tinha me esquecido completamente de manter a postura de "babá invisível" e a Adelaide me esfolaria viva quando soubesse, mas eu não podia deixar que fizessem aquilo com a minha menina, tão pequena e já conhecendo a maldade humana. O problema agora era o que o pai dela ia fazer comigo.

Ele estava estranhamente quieto, até quando eu o respondi ele se calou e Érick Albelini não era homem que não desse a última palavra ou que engolia um desrespeito, eu vi como ele olhou para a diretora e a Verônica, ele poderia tê-las matado só com aquele olhar. Mas ele estava quieto, não deu mais nenhuma palavra e eu tive tempo para ordenar meus pensamentos. Eu só esperava não perder o emprego, porque eu não queria deixar a Alice sozinha.

Quando chegamos na casa, a Alice tinha pegado no sono no meu colo e, quando o Érick abriu a porta e tentou tirá-la do meu colo, eu me recusei a entregá-la, eu não queria que ela acordasse, ela estava dormindo tão tranquilamente. Eu teria ficado imóvel dentro daquele carro só para não perturbar a minha menininha.

- Vamos, Lorena, ela não vai acordar. Se você ficar aí com ela no colo vai ficar completamente dolorida. - Ele sussurrou para mim e se abaixou.

Relutantemente eu lhe entreguei a menina com cuidado. Nossas mãos se tocaram enquanto eu passava a menina para ele e aquela corrente elétrica que acendia tudo em mim estava ali. Com a Alice segura e ainda adormecida nos seus braços, ele ofereceu uma das mãos para me ajudar a sair do carro.

Já que a menina estava com o pai, eu segui as instruções da Adelaide e comecei a me encaminhar para a entrada dos fundos. Mas eu mal dei três passos e senti a mão grande e qurnte do Érick segurar o meu braço e me puxar com ele em direção à entrada principal.

Ao atravessar a porta principal o silêncio ainda reinava absoluto, como se até os pássaros respeitassem o sono da Alice. O Érick carregava Alice nos braços, e a imagem dele, com o terno impecável e a expressão suave enquanto observava a filha dormir em seu ombro, fazia meu estômago dar voltas. Eu não sabia se era alívio ou algo muito mais perigoso, mas aquela imagem mexeu comigo de um jeito completamente diferente.

A Adelaide já nos esperava no hall. O rosto dela estava tão rígido que parecia esculpido em pedra, e os olhos faiscavam de indignação. Ela já sabia, eu tinha certeza. Eu seria colocada na rua e como a Alice ficaria? Quem a protegeria se nem o pai havia se dado conta do que acontecia?

- Sr. Albelini! - A Adelaide começou, a voz estridente quebrando o silêncio e à ponto de acordar a Alice. - Eu recebi uma ligação ultrajante da Sra. Albuquerque! Ela me contou que essa... essa moça causou um escândalo no pátio da escola e ainda causou uma confusão entre o senhor e a família Albuquerque. Senhor, vocês são amigos há tanto...

O Érick parou no primeiro degrau da escada. Ele não se virou totalmente, mas o olhar gelado dele fez Adelaide murchar instantaneamente e se calar.

- Adelaide, minha filha está dormindo. - A voz dele era baixa, mas carregada de uma autoridade inquestionável. - Só para você saber, a Lorena fez o que ninguém nesta casa, inclusive a senhora, teve a coragem de fazer. Ela protegeu a minha filha de ataques cruéis. Eu não quero ouvir mais uma palavra sobre o que aconteceu hoje na escola ou sobre a Sra. Albuquerque. O assunto está encerrado. E sobre a Lorena, à partir de agora ela se reporta diretamente a mim, você não é a superior dela, porque ela não é uma funcionária como as outras da casa. Entendeu, Adelaide?

A Adelaide abriu a boca, mas o Érick a calou com um único olhar antes de subir as escadas. A governanta ficou petrificada, branca como um boneco de cera, apenas abaixou a cabeça e concordou.

- Venha, Lorena. - Ele se virou e eu o acompanhei até o quarto da Alice.

Eu senti um nó na garganta. Pela primeira vez em muito tempo, alguém estava lutando as minhas batalhas. Eu o segui em silêncio, sentindo o peso do olhar da governanta cravado nas minhas costas, ela não ia falar nada na frente dele, mas ela não ficaria calada, eu tinha certeza de que na primeira oportunidade ela me faria algum desaforo.

No quarto da Alice, o clima mudou. Eu fechgei a cortina e acendi o abajur. A luz era suave, e o movimento do Érick ao colocar a filha na cama foi de uma delicadeza que eu nunca imaginaria naquele homem. Ele tirou os sapatos dela, a cobriu com o edredom e permaneceu ali por um segundo, acariciando o cabelo da menina. Antes de se levantar ele deu um beijo na testa dela.

Eu observava da porta, o coração martelando. Eu vi a suavidade do olhar dele para a filha, vi o ódio brilhando nos olhos dele pela ofensa que ela sofreu, vi a forma protetora com que ele a carregou no colo. O meu predador tinha um ponto fraco. E, por um momento, eu desejei conhecer mais de perto aquele lado dócil dele também, não apenas como uma voyer, mas eu desejei ser convidada para aquele lugar.

Capítulo 29: Onde o Gelo Derrete 1

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