"Érick"
A Infernal rugia como sempre, um turbilhão de luzes neon, fumaça de charutos caros e o som pulsante que parecia vibrar direto no meu crânio. Mas, para mim, o lugar estava deserto. Eu já tinha andado pela boate, observado cada peruca colorida ali, mas a minha capetinha ainda não tinha dado as caras. Eu tinha certeza de que ela estava se escondendo de mim e eu não iria embora sem vê-la.
Eu estava no camarote há duas horas, girando o gelo no quinto copo de uísque que estava em minha mão. Meus olhos escaneavam a pista, os balcões, as sombras... nada. Nem o rastro do maldito perfume de absinto, nem o reflexo azul e vermelho da peruca, nem aquele olhar que parecia me despir de toda a minha autoridade.
- Albelini, me desculpe ter demorado a vir falar com você, mas eu tive problemas administrativos hoje e... - O Barão entrou com aquele jeito de rei do lugar.
- Onde ela está? - Eu rosnei para o Barão, que se aproximou com a sua habitual calma irritante e o sorriso bajulador.
- Lamento, Albelini, mas a Scarlat não vem hoje. Mas todas as outras garotas estão na casa, você pode escolher qualquer uma delas. - O Barão gesticulou com a mão como se abrisse uma cortina diante de mim.
- Por que ela não está aqui hoje? - A minha insistência o pegou de surpresa, mas o sorriso que ele abriu era o de um negociante que sabia que tinha uma mercadoria cara.
- Problemas pessoais, imagino. As divas têm seus dias de silêncio. - Ele respondeu irônicamente com aquela palavra que me perturbou a semana inteira, "silêncio", e com um sorriso enigmático que me deu vontade de quebrar o copo na parede.
Eu estava ainda mais furioso do que antes de chegar a esse lugar. A "santa" e a "pecadora", as duas em completo silêncio, isso era uma piada de muito mau gosto. Eu bati o cristal na mesa e me virei de frente para o Barão. Eu não tinha vindo para beber ou para ver outras mulheres. Eu tinha vindo para apagar o incêndio que uma certa babá com jeito doce e quase invisível tinha começado na minha mente, e a única pessoa capaz de fazer aquele fogo queimar até a última brasa, a única capaz de me fazer esquecer a encrenca que era a babá, não estava ali. Como se ela também estivesse fugindo de mim.
- Ótimo! - Eu sibilei. - Avise a ela que o meu tempo é caro demais para ser jogado fora em camarotes vazios.
Eu saí da boate sem olhar para trás, sequer me despedi do Julian e do Andrey, eu estava irritado demais. O que aquelas mulheres estavam pensando? Érick Albelini não esperava e tampouco era colocado de lado. Mas aquelas duas, tão diferentes uma da outra, resolveram testar a minha paciência... ao mesmo tempo!
Enquanto uma defendia a minha filha como uma leoa e me fazia querer beijá-la e salvá-la, para depois me deixar no eco do seu silêncio. A outra, me levou para queimar no infernom ne viciou no seu "veneno" e depois me desafiou devolvendo aquele envelope. Nenhuma das duas tinha idéia do vespeiro em que mexeram.
Eu dirigi de volta para casa em uma velocidade perigosa, a frustração borbulhando no meu peito. Eu estava cercado de gelo por todos os lados: a "santa" me tratando como um estranho em casa e a pecadora" sumindo no momento em que eu mais precisava do seu fogo. O pior de tudo é que aquele gelo me deixava como um animal acuado pronto para atacar.
Quando eu estacionei na minha garagem, a casa estava mergulhada em sombras, exceto por uma luz pálida vindo da cozinha. Já era tarde, eu só esperava que a terceira mulher problemática da minha vida não estivesse atacando nenhuma guloseima dos armários da cozinha, porque ela sabia que não deveria, mas a minha filha era outra, não tinha idade e nem tamanho, mas vivia testando a minha paciência. Eu entrei em silêncio, o meu sangue ainda fervia nas veias.
Eu fui direto para a cozinha, pronto para dar um flagrante na minha ladrazinha de doces. Eu entrei devagar, com passos leves e parei na porta da cozinha. Lá estava ela!
A Lorena estava sentada à bancada, segurando uma caneca de chá com as duas mãos, olhando para o nada. Ela usava um pijama de algodão simples e o cabelo estava preso em uma trança frouxa e dasarrumada. Sob a leve luz dourada indireta, ela parecia tão pacífica, tão... tão... santa. A visão dela ali, enquanto eu tinha acabado de vir de um antro de perdição atrás de uma "pecadora", me fez perder o pouco controle que me restava.
- O chá é para ajudar a dormir ou para manter essa máscara de gelo e indiferença intacta até amanhã, Lorena? - Eu disparei, minha voz cortando o silêncio como um chicote.
Ela se sobressaltou, a caneca quase escapando de suas mãos. Ela se virou, os olhos castanhos arregalados, encontrando os meus. Eu ainda estava de terno, a gravata afrouxada no colarinho, exalando o cheiro de tabaco e álcool da boate e a agressividade de quem não conseguiu o que queria e saiu frustrado.
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