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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 32

"Érick"

A Infernal rugia como sempre, um turbilhão de luzes neon, fumaça de charutos caros e o som pulsante que parecia vibrar direto no meu crânio. Mas, para mim, o lugar estava deserto. Eu já tinha andado pela boate, observado cada peruca colorida ali, mas a minha capetinha ainda não tinha dado as caras. Eu tinha certeza de que ela estava se escondendo de mim e eu não iria embora sem vê-la.

Eu estava no camarote há duas horas, girando o gelo no quinto copo de uísque que estava em minha mão. Meus olhos escaneavam a pista, os balcões, as sombras... nada. Nem o rastro do maldito perfume de absinto, nem o reflexo azul e vermelho da peruca, nem aquele olhar que parecia me despir de toda a minha autoridade.

- Albelini, me desculpe ter demorado a vir falar com você, mas eu tive problemas administrativos hoje e... - O Barão entrou com aquele jeito de rei do lugar.

- Onde ela está? - Eu rosnei para o Barão, que se aproximou com a sua habitual calma irritante e o sorriso bajulador.

- Lamento, Albelini, mas a Scarlat não vem hoje. Mas todas as outras garotas estão na casa, você pode escolher qualquer uma delas. - O Barão gesticulou com a mão como se abrisse uma cortina diante de mim.

- Por que ela não está aqui hoje? - A minha insistência o pegou de surpresa, mas o sorriso que ele abriu era o de um negociante que sabia que tinha uma mercadoria cara.

- Problemas pessoais, imagino. As divas têm seus dias de silêncio. - Ele respondeu irônicamente com aquela palavra que me perturbou a semana inteira, "silêncio", e com um sorriso enigmático que me deu vontade de quebrar o copo na parede.

Eu estava ainda mais furioso do que antes de chegar a esse lugar. A "santa" e a "pecadora", as duas em completo silêncio, isso era uma piada de muito mau gosto. Eu bati o cristal na mesa e me virei de frente para o Barão. Eu não tinha vindo para beber ou para ver outras mulheres. Eu tinha vindo para apagar o incêndio que uma certa babá com jeito doce e quase invisível tinha começado na minha mente, e a única pessoa capaz de fazer aquele fogo queimar até a última brasa, a única capaz de me fazer esquecer a encrenca que era a babá, não estava ali. Como se ela também estivesse fugindo de mim.

- Ótimo! - Eu sibilei. - Avise a ela que o meu tempo é caro demais para ser jogado fora em camarotes vazios.

Eu saí da boate sem olhar para trás, sequer me despedi do Julian e do Andrey, eu estava irritado demais. O que aquelas mulheres estavam pensando? Érick Albelini não esperava e tampouco era colocado de lado. Mas aquelas duas, tão diferentes uma da outra, resolveram testar a minha paciência... ao mesmo tempo!

Enquanto uma defendia a minha filha como uma leoa e me fazia querer beijá-la e salvá-la, para depois me deixar no eco do seu silêncio. A outra, me levou para queimar no infernom ne viciou no seu "veneno" e depois me desafiou devolvendo aquele envelope. Nenhuma das duas tinha idéia do vespeiro em que mexeram.

Eu dirigi de volta para casa em uma velocidade perigosa, a frustração borbulhando no meu peito. Eu estava cercado de gelo por todos os lados: a "santa" me tratando como um estranho em casa e a pecadora" sumindo no momento em que eu mais precisava do seu fogo. O pior de tudo é que aquele gelo me deixava como um animal acuado pronto para atacar.

Quando eu estacionei na minha garagem, a casa estava mergulhada em sombras, exceto por uma luz pálida vindo da cozinha. Já era tarde, eu só esperava que a terceira mulher problemática da minha vida não estivesse atacando nenhuma guloseima dos armários da cozinha, porque ela sabia que não deveria, mas a minha filha era outra, não tinha idade e nem tamanho, mas vivia testando a minha paciência. Eu entrei em silêncio, o meu sangue ainda fervia nas veias.

Eu fui direto para a cozinha, pronto para dar um flagrante na minha ladrazinha de doces. Eu entrei devagar, com passos leves e parei na porta da cozinha. Lá estava ela!

A Lorena estava sentada à bancada, segurando uma caneca de chá com as duas mãos, olhando para o nada. Ela usava um pijama de algodão simples e o cabelo estava preso em uma trança frouxa e dasarrumada. Sob a leve luz dourada indireta, ela parecia tão pacífica, tão... tão... santa. A visão dela ali, enquanto eu tinha acabado de vir de um antro de perdição atrás de uma "pecadora", me fez perder o pouco controle que me restava.

- O chá é para ajudar a dormir ou para manter essa máscara de gelo e indiferença intacta até amanhã, Lorena? - Eu disparei, minha voz cortando o silêncio como um chicote.

Ela se sobressaltou, a caneca quase escapando de suas mãos. Ela se virou, os olhos castanhos arregalados, encontrando os meus. Eu ainda estava de terno, a gravata afrouxada no colarinho, exalando o cheiro de tabaco e álcool da boate e a agressividade de quem não conseguiu o que queria e saiu frustrado.

Eu a puxei para mais perto. O cheiro de coco dela tomou conta de todos os meus pensamentos, colidindo brutalmente com a minha frustração. Eu queria beijá-la para puni-la, para silenciá-la, para provar que ela não podia fugir de mim se eu não permitisse. Eu queria beijá-la para ter certeza que aquela fachada contida e submissa escondia uma mulher feroz.

Minha mão subiu para a nuca dela, puxando-a para cima. Nossos lábios estavam a um milímetro de distância, eu podia sentir o tremor dela, o cheiro de camomila e canela do chá que ela tomava, a rendição iminente...

- Sr. Albelini? - A voz gélida e autoritária da Adelaide ecoou da porta da cozinha. - Aconteceu algum problema? Ouvi o senhor chegando e depois ouvi barulhos na cozinha, achei que...

Eu parei no ar. Fechei os olhos por uma fração de segundo. O ódio que senti pela Adelaide naquele momento foi maior do que eu já senti por qualquer outra pessoa na vida. Eu soltei a Lorena bruscamente, a vi cambalear e abraçar o próprio corpo, abaixando o rosto em chamas de vergonha. Eu me virei para a governanta, que nos observava com um olhar que dizia que ela tinha visto exatamente o que estava acontecendo e que nem adiantava que eu tentasse disfarçar.

- Pode ir, Lorena, tenha uma boa noite. - Eu falei sem deixar de encarar a Adelaide.

Eu me orgulhava da governanta competente e de confiança que eu tinha em casa, mas no momento eu poderia mandá-la para o raio que a parta. Eu sabia que ela havia cismado com a Lorena e que a cena da cozinha seria um prato cheio para ela.

- Sr. Albelini, me desculpe, mas eu serei direta, essa moça vai causar problemas nesta casa, é melhor demiti-la. - A Adelaide falou assim que a Lorena saiu.

- Adelaide, você sempre foi uma governanta competente e fiel. Mas hoje eu vou precisar lembrá-la algumas coisas. Esta casa é minha! Quem dita as regras sou eu e você as cumpre. Eu já te avisei, fique longe da Lorena, ela não é sua subalterna. E se ela vai causar problemas nesta casa ou não, não te interessa. Mas pode ter certeza de que antes de mandá-la embora, eu me livro de você! Então se mantenha fora do caminho da Lorena e não crie problema para ela. Entendido? - Meu tom de voz era um rosnado, baixo e contido, mas tinha autoridade suficiente para que ela não ousasse discutir.

- Sim, senhor. - A governanta abaixou a cabeça, estava furiosa comigo e eu sabia, mas eu também estava furioso com ela. Ela literalmente tirou o doce da minha boca e se eu já estava irritado quando saí da boate, agora eu estava ainda pior.

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