"Érick"
No momento em que o Julian me disse que eu tinha razão eu senti todo o peso do mundo sair dos meus ombros. Eu estava certo, aquela mulher não era uma golpista, ela foi usada. Eu prestei atenção a cada palavra do Julian e verifiquei os papéis que estavam na pasta que ele me entregou.
- Como eu disse, eu estou convencido de que ela foi usada. Ela está sendo processada, Érick, tudo o que ela tinha foi penhorado pela justiça para garantir dividas. Ela perdeu até o celular. São tantas dívidas a pagar que mesmo que ela não gaste um centavo do que ganha como babá, e eu sei que você paga muito bem, ela nunca vai conseguir quitar as dívidas. Mesmo assim ela contratou um advogado e está tentando fazer acordos, parcelamentos, pedindo descontos, enfim, ela está tentando e isso diz muito sobre ela. - O Julian explicou.
- Com certeza! Quem é o advogado dela? - Eu queria saber cada detalhe.
- Dr. Mariano Soares, é um jovem recém formado. Parece muito esforçado e está fazendo um bom trabalho. Ele deve estar cobrando muito pouco dela. - A revelação do Julian me pegou de surpresa, era um processo grande demais para um advogado jovem.
- Eu vou falar com ela, ver o que posso fazer.
- E quer saber o pior? - O Julian perguntou e depois jogou o próprio celular sobre a minha mesa.
- O que é isso? - Eu olhava para a tela confuso. Um casal se beijando num aeroporto e uma mulher exibindo um diamante no dedo, típica cena clichê de filme ruim.
- Esse é o noivo, o Carlos Eduardo. - O Julian explicou.
- Ex noivo! - Eu grunhi para o meu amigo. - E a vadia...?
- A melhor amiga da babá... quer dizer, a ex melhor amiga, imagino. - O Julian explicou. - A Lorena recebeu essa foto no celular no mesmo momento em que o oficial de justiça a estava despejando de casa.
- Ela foi despejada? - Eu perguntei incrédulo.
- Pois é, despejada só com as próprias roupas enquanto o canalha estava fugindo do país com a amante e todos os milhões desviados. A babá tem razão, Érick, ela aprendeu da forma mais difícil que a confiança não se entrega a qualquer um. Ela confiava cegamente nesses dois.
O peso que eu senti sair dos meus ombros, apenas havia sido substituído por uma fúria protetora. Eu sabia. O meu instinto nunca falhou. Lorena Valente não era uma golpista, era uma mulher que tinha sido estraçalhada por quem deveria amá-la.
- O que nós sabemos sobre esses dois? - Eu queria saber tudo, porque só assim eu saberia como acabar com eles.
- Não muito. Os três fizeram faculdade juntos, a Lorena e o Carlos Eduardo começaram a namorar e assim que se formaram a Lorena abriu a empresa, levou a amiga e o namorado para trabalhar com ela e logo o namorado se tornou sócio. Meses atrás ele deixou a sociedade, mas continuou gerindo a empresa, isso foi logo que a Lorena deixou o trabalho.
- Como assim deixou o trabalho?
- Não sei, apenas soube que ela deixou de ir à empresa por meses e tudo era resolvido pelo noi... - O Julian percebeu o meu olhar e se corrigiu. - Ex noivo e pela ex amiga. De qualquer forma, ela é o alvo da investigação, mas eles já estão atrás do noi... ex noivo.
- Investigue mais, eu quero saber tudo e quero o Dr. Barros em cima disso, Julian. Quero que ele mova cada pedra para limpar o nome dela. E quero o paradeiro desse Carlos Eduardo. Ele vai descobrir que a confiança dela tem um preço que ele não pode pagar. - Eu bati o punho na mesa.
- Cuidado, Albelini. Você está começando a soar como um homem apaixonado, e não como um patrão justiceiro. Não sei qual dos dois é melhor... - O Julian arqueou uma sobrancelha, um sorriso brincando nos lábios.
- Nem uma coisa e nem outra, Julian! Eu sou um homem que preza pela verdade, só isso. - Eu menti e me levantei para o almoço. - Vamos. A Alice deve estar esperando.
Ela não gaguejava mais, ela simplesmente não falava nada que não fosse estritamente necessário e geralmente apenas com monossílabos: "sim", "não", "fiz". Tudo acompanhado de um "senhor" que me irritava mais que qualquer outra coisa. O pior de tudo? Eu não sabia porque ela estava agindo assim.
Eu tentei dar espaço. Tentei ser o patrão que ela parecia exigir. Mas o silêncio daquela casa estava me enlouquecendo. Eu queria ver de novo a fúria que eu vi nela naquele dia na escola.
Eu estava sufocando naquela casa que parecia completamente dominada pelo cheiro de coco e açúcar mascavo, mas destoando de todo aquele doce, estava fria com o silência e o olhar gelado da Lorena. Eu precisava de algo que queimasse e felizmente era quinta feira.
Eu peguei o paletó da cadeira e o vesti, senti o peso do envelope de dinheiro no bolso, o mesmo que a Scarlat deixou sobre a cama na semana anterior. Eu ia ensinar uma lição para aquela capetinha. Ela sim, não só me desafiava, ela me fazia queimar!
- Se a "santa" Lorena quer me dar o silêncio e a distância, que seja! Talvez seja melhor assim, ela é a mulher que cuida da minha filha. O que eu preciso fazer é buscar o fogo da minha pecadora! - Eu sussurrei para o meu reflexo na tela do computador.
- Pronto para ir? - O Julian apareceu na porta do meu escritório.
- Mais do que pronto! Vou deixar a minha capetinha de joelhos hoje! - Eu sorri friamente para ele.
- Sua... capetinha?! O que aconteceu com a "sua babá"? Pensei até que você fosse esquecer a Infernal. - O Julian estava a semana inteira sondando para me arrancar alguma coisa.
- A babá é "santa" demais para mim, Julian! Eu preciso do fogo do inferno! - Eu respondi.
Saí do meu escritório deixando o Julian de boca abaerta para trás. Eu ia para a Infernal. Eu ia caçar a Scarlat. Eu ia tirar aquela babá da minha cabeça de uma vez por todas. Eu pensei que ela poderia ser como a Scarlat e me fazer queimar e esquecer a minha obsessão por aquela capetinha, mas não, a Lorena não tinha aquele fogo que me viciou.

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