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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 35

"Lorena"

A Infernal estava pulsando. O som da boate vibrava no meu peito enquanto eu organizava as garrafas no balcão VIP, de costas para a entrada. Eu estava exausta da semana de fingimentos, mas ali, sob as luzes vermelhas, eu podia finalmente deixar a raiva fluir. Contudo, essa sensação não durou muito. O ar ao meu redor mudou. O barulho da música pareceu abafado por um perfume masculino familiar de sândalo e couro italiano.

Antes que eu pudesse me virar, uma mão grande e quente envolveu a minha cintura, puxando minhas costas contra um peito largo e firme que eu já conhecia muito bem para o meu total desespero. O calor atravessou o couro do meu espartilho como se eu estivesse nua.

- Recebeu o meu recado, capetinha? - A voz rouca e perigosa do Érick Albelini vibrou contra a minha orelha, exatamente como ele fez na porta do quarto da Alice naquela manhã. - Pensou que eu ia deixar o final de semana passar sem cobrar o que você me deve?

Meu coração pulou uma batida. O pânico e o desejo colidiram dentro de mim, duas sensações tão distintas, mas ambas me roubavam a capacidade de raciocinar. Ele não sabia que eu era a Lorena, mas ele estava me caçando com a mesma precisão cirúrgica com que cercava a babá. Eu estava encurralada pelo mesmo homem, em dois mundos diferentes, e pela primeira vez, eu não tinha certeza de qual disfarce cairia primeiro, eu achava que seria o de babá, mas agora tinha minhas dúvidas.

- O seu tempo é caro demais para ser jogado fora em camarotes vazios, não foi o que você disse? - Eu perguntei exasperada. - Então por que está aqui perdendo o seu tempo?

- Eu vim cobrar o que você me deve pela ausência de ontem. - Ele sibilou, sua boca roçando o lóbulo da minha orelha, exalando o perfume de sândalo e couro. - Por que você não estava aqui ontem? Você sabe que é a minha noite! Está tentando fugir de mim, Scarlat?

Eu me virei devagar nos braços dele, o rosto a milímetros do seu. Ele estava impecável em um terno escuro, os olhos azuis dilatados pela luxúria e pela irritação. Ele parecia um deus da destruição, prontinho para acabar comigo.

- O cavalheiro não gosta de ser ignorado? - Eu o provoquei, minha voz saindo carregada de um deboche e cinismo que eu não poderia usar como Lorena. - Achei que o seu tempo fosse caro demais para que você o desperdice com... o que o seu dinheiro não compra.

- Eu sempre tenho tempo para o que realmente me interessa, Scarlat. - Ele aumentou o aperto na minha cintura, um gesto claro de posse, juntando os nossos corpos ao máximo. - Você ainda não entendeu, Scarlat? Você está presa no inferno comigo.

As risadas abafadas no camarote chamaram a minha atenção. Pelo canto do olho eu vi sentados elegantemente o Julian Beaumont, com aquele seu jeito relaxado e de sorriso fácil, e o Andrey D'Ávila, com um sorriso mais contido, mas um brilho nos olhos extremamente divertido. Ambos exalavam a mesma aura de riqueza obscena do Érick, mas de uma forma muito mais descontraída.

- Deixe a moça respirar, Albelini! - O Andrey comentou com um tom de provocação. - Você está agindo como se ela fosse a única mulher do mundo.

O Érick não me soltou. Pelo contrário, apertou minha cintura, reivindicando território. Perfurando os meus olhos com os seus, faltando muito pouco para me beijar ali mesmo.

- Ela é a única que me interessa nesta boate, Andrey. Não se meta!

O tom brusco dele não assustou os amigos, pareceu divertí-los e o Andrey soltou uma risada curta, observando-me como se eu fosse um animal exótico, com uma curiosidade que me fez arrepiar.

- É, aqui na boate pode até ser... mas é estranho, ainda mais sendo você. Você está obcecado por esse "fogo do inferno", mas passou a semana inteira falando de como a sua nova babá é... como era mesmo, Julian? Intrigante e extravagantemente doce? - O Andrey piscou para mim, em tom de brincadeira, sua voz leve revelava que ele estava se divertindo às custas do amigo que perdia a paciência fácil. - Se você vai ficar com a "santa" lá da mansão, Érick, deixe a "pecadora" aqui para mim. Eu saberia o que fazer com a Scarlat.

O corpo de Érick enrigideceu instantaneamente. A mandíbula dele travou e a pressão dos seus dedos na minha cintura mudou de desejo para algo mais primal.

- Fique longe dela, Andrey! - O Érick sibilou.

- Quanto egoísmo, eu tenho que ficar longe da babá, tenho que ficar longe da capetinha... você está sendo egoísta. - O Andrey acrescentou com a voz relaxada e divertida. - Lembre-se, meu amigo, quem quer tudo acaba ficando sem nada.

Antes que ele pudesse reagir, eu puxei o seu rosto para o meu. Meus dedos se enterraram em seu cabelo impecável, desfazendo o alinhamento que ele tanto prezava.

- Você fala demais, cavalheiro! - Eu sussurrei contra os lábios dele, alto o suficiente para que os outros ouvissem. - E seus amigos falam mais ainda.

E então, eu o beijei. Um beijo lascivo, profundo, carregado de todo o desejo e de toda a raiva que eu acumulei durante a semana de silêncio na mansão. Minha língua invadiu a dele com uma possessividade que o deixou estático por um segundo e pegá-lo desprevenido fez o desejo correr em mim líquido e quente.

Quando ele finalmente entendeu o que estava acontecendo, o que a Scarlat exigia dele, as suas mãos grandes esmagarem minha cintura, me puxando para mais perto, se é que isso era possível. Eu provei naquele beijo o gosto do do perigo e da rendição dele, enquanto sentia no seu corpo o calor e a excitação evidente em suas calças.

No camarote, o tempo parou e os ruídos desapareceram. Eu estava mostrando a ele e aos espectadores que a Scarlat não era uma escolha entre outras. Ela era a única escolha que importava.

Eu me afastei bruscamente, o deixando ofegante, com os lábios borrados com o meu batom e o olhar completamente anuviado. Eu olhei para o lado e vi o Andrey e o Julian lado a lado assistindo a cena petrificados e de boca aberta. Eles agora mantinham um silêncio respeitoso e totalmente chocado.

- Agora sim, o seu tempo foi bem gasto, cavalheiro! - Eu pisquei para o Érick, deslizando para fora do seu colo elegantemente. - Mas lembre-se: eu decido quando o incêndio começa. Onde. E quando ele termina.

Eu aproveitei que tinha desarmado aquele homem e o deixado sem palavras e sem reação para desaparecer pela porta do camarote. Eu fui depressa para o camarim, meu coração martelava no peito e eu ainda sentia as pernas bambas pelo que o beijo daquele homem provocava em mim.

Eu me olhei no espelho e me sentei para reaplicar a maquiagem. Eu sorri, satisfeita comigo mesma. Eu tinha marcado o território da Scarlat com o fogo da luxúria, mas ao ver a fúria e o desejo bruto no rosto de Érick, eu soube: Eu tinha elevado o nível do jogo dele. Mas essa noite eu não sairia dessa boate com o Érick Albelini, ele aprenderia que quem dava as cartas era eu. Estava decidido!

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