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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 36

"Érick"

Eu fiquei estático na poltrona de couro, o peito subindo e descendo como se eu tivesse acabado de correr uma maratona. O gosto de absinto e o calor da boca da Scarlat ainda queimavam nos meus lábios, e o peso do corpo dela sobre o meu parecia uma marca gravada a ferro e fogo na minha pele. Que mulher era essa?

Pela primeira vez na vida eu não sabia o que dizer... ou o que fazer. Eu, Érick Albelini, tinha sido deixado sem fala, com o batom dela borrado no meu rosto, um sorriso bobo na boca e o desejo latejando de forma humilhante sob as minhas calças. E por alguns minutos eu apenas lutei para controlar o meu corpo.

- Santo Deus... - O Julian foi o primeiro a romper o silêncio, soltando o ar que parecia estar segurando há minutos. - Érick, eu acho que você acabou de ser... reivindicado.

O Andrey soltou uma risada baixa, mas não era o deboche de antes. Era um respeito relutante.

- Eu retiro o que disse, Érick. Esqueça a babá. Se você sobreviver a essa mulher, você é um herói. Ela não é um incêndio, ela é o próprio inferno!

Eu passei a mão pelo rosto, esquecendo completamente a educação e a polidez e limpando o rastro de batom com as costas da mão, mas meus olhos não saíram da porta por onde ela escapou.

- Eu aposto que essa capetinha vai tentar fugir. - Eu murmurei, minha voz saindo mais grave do que o habitual. - Ela pensa que pode me incendiar e sair caminhando como se nada tivesse acontecido. Mas ela não pode!

Eu virei o conteúdo do meu copo de uma vez, bati o copo sobre a mesa já me levantando, mas assim que me virei em direção à porta a mulher que tinha causado uma pane no meu sistema entrou. Com a maquiagem refeita e a postura profissional de sempre como se nada tivesse acontecido.

Ela não tinha fugido. Surpreendentemente ela tinha voltado. Ela estava me desafiando, medindo forças e se era esse o jogo que ela queria jogar, eu estava lá para ela e não entregaria a vitória.

O clima no camarote tinha mudado. O Andrey estava rindo baixo, dando tapinhas no meu ombro. Eu estava como uma estátua de gelo, prestes a rachar. Meus amigos me conheciam muito bem para saber o que aquela capetinha tinha despertado.

Eu me sentei novamente e meus olhos seguindo cada movimento daquela mulher como os de um predador que acaba de levar um golpe inesperado.

- Seu whisky, cavalheiro. - Ela me ofereceu o copo e falou com a voz aveludada, com uma calma irritante, como se apenas eu tivesse sido desestruturado com aquele beijo. - Deseja mais alguma coisa, cavalheiro? Ou o seu tempo "caro" já se esgotou?

O Julian soltou um assobio, claramente se divertindo com a minha audácia. Ela estava medindo forças comigo... e na frente dos meus amigos, o que me deixava ainda mais louco. Eu estendi a mão, segurando o seu pulso antes que ela pudesse se afastar.

- Você acha mesmo que pode simplesmente fazer isso, me provocar e atiçar, e continuar agindo como se fosse uma estranha, Scarlat? Como se cinco minutos atrás não estivesse sentada no meu colo me beijando como se quisesse me foder aqui mesmo? - Eu sibilei, a minha voz carregada de algo perigoso demais para nós dois, porque eu estava a ponto de prendê-la contra a parede daquele camarote e fode-la sem me importar com quem estivesse olhando.

- Eu sou a sua anfitriã, cavalheiro. Meu trabalho é garantir que o senhor tenha uma noite... inesquecível. - Ela se inclinou mais para perto, deixando o perfume de absinto e fumaça inundar os meus sentidos. Então ela sussurrou apenas para que eu ouvisse: - Mas eu não estou à venda. E eu não recebo ordens.

Ela puxou o pulso com um movimento firme e continuou atendendo os outros dois como se o beijo de minutos atrás nunca tivesse acontecido, servindo dose após dose das bebidas mais exóticas e extravagantemente caras daquela boate.

Eu era pura fúria e desejo bruto e não escondia de ninguém. E ela me deixou em brasa a noite inteira, nos servindo, sorrindo para o Andrey, rindo das piadas do Julian, mas me mantendo a uma distância controlada. Eu fui ficando como um animal enjaulado, indócil andando pelo camarote.

- Sua última dose do pecador desta noite, cavalheiro! - A Scarlat se aproximou de mim com uma dose dupla de absinto.

Saí do camarote ignorando as perguntas dos dois. Eu não queria conversa, não queria bebida, não queria mais nada. Eu precisava encontrá-la. Eu precisava mostrar a ela que, embora ela pudesse começar o incêndio, era eu quem decidia quem sairia vivo das chamas.

Eu caminhei pelos corredores da boate, sentindo o cheiro dela no ar. Eu a encontraria. E quando a encontrasse, não haveria amigos assistindo, nem música alta, nem disfarces. Seria apenas eu e aquela mulher ardendo juntos.

Mas, ao chegar perto do camarim principal eu dei de cara com o Barão.

- Ela já saiu, Albelini. - O Barão informou como se soubesse exatamente quem eu estava procurando. E ele sabia. - Ela disse que o "cavalheiro" já teve o que merecia por hoje.

A fúria brilhou nos meus olhos.

- Para onde ela foi?

- Você sabe as regras, Érick. O que acontece na Infernal, fica na Infernal. O Barão deu um sorriso enigmático.

Eu dei as costas para ele e saí da boate. Ela tinha fugido. De novo.

Voltei para o meu carro, a mente em um turbilhão. A Scarlat era o caos que eu desejava, mas ao entrar no silêncio do meu veículo... não foi o cheiro de absinto que eu senti, o meu carro cheirava a coco e açúcar mascavo, o cheiro da Lorena estava impregnado ali. A Lorena... doce, silenciosa e distante voltou a me assombrar e para me irritar, invadindo o meu tempo com a Scarlat, como se ela também me reivindicasse, como a outra havia feito quando me beijou, porém de uma forma mais silenciosa, exatamente como ela era.

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