"Érick"
Eu fiquei estático na poltrona de couro, o peito subindo e descendo como se eu tivesse acabado de correr uma maratona. O gosto de absinto e o calor da boca da Scarlat ainda queimavam nos meus lábios, e o peso do corpo dela sobre o meu parecia uma marca gravada a ferro e fogo na minha pele. Que mulher era essa?
Pela primeira vez na vida eu não sabia o que dizer... ou o que fazer. Eu, Érick Albelini, tinha sido deixado sem fala, com o batom dela borrado no meu rosto, um sorriso bobo na boca e o desejo latejando de forma humilhante sob as minhas calças. E por alguns minutos eu apenas lutei para controlar o meu corpo.
- Santo Deus... - O Julian foi o primeiro a romper o silêncio, soltando o ar que parecia estar segurando há minutos. - Érick, eu acho que você acabou de ser... reivindicado.
O Andrey soltou uma risada baixa, mas não era o deboche de antes. Era um respeito relutante.
- Eu retiro o que disse, Érick. Esqueça a babá. Se você sobreviver a essa mulher, você é um herói. Ela não é um incêndio, ela é o próprio inferno!
Eu passei a mão pelo rosto, esquecendo completamente a educação e a polidez e limpando o rastro de batom com as costas da mão, mas meus olhos não saíram da porta por onde ela escapou.
- Eu aposto que essa capetinha vai tentar fugir. - Eu murmurei, minha voz saindo mais grave do que o habitual. - Ela pensa que pode me incendiar e sair caminhando como se nada tivesse acontecido. Mas ela não pode!
Eu virei o conteúdo do meu copo de uma vez, bati o copo sobre a mesa já me levantando, mas assim que me virei em direção à porta a mulher que tinha causado uma pane no meu sistema entrou. Com a maquiagem refeita e a postura profissional de sempre como se nada tivesse acontecido.
Ela não tinha fugido. Surpreendentemente ela tinha voltado. Ela estava me desafiando, medindo forças e se era esse o jogo que ela queria jogar, eu estava lá para ela e não entregaria a vitória.
O clima no camarote tinha mudado. O Andrey estava rindo baixo, dando tapinhas no meu ombro. Eu estava como uma estátua de gelo, prestes a rachar. Meus amigos me conheciam muito bem para saber o que aquela capetinha tinha despertado.
Eu me sentei novamente e meus olhos seguindo cada movimento daquela mulher como os de um predador que acaba de levar um golpe inesperado.
- Seu whisky, cavalheiro. - Ela me ofereceu o copo e falou com a voz aveludada, com uma calma irritante, como se apenas eu tivesse sido desestruturado com aquele beijo. - Deseja mais alguma coisa, cavalheiro? Ou o seu tempo "caro" já se esgotou?
O Julian soltou um assobio, claramente se divertindo com a minha audácia. Ela estava medindo forças comigo... e na frente dos meus amigos, o que me deixava ainda mais louco. Eu estendi a mão, segurando o seu pulso antes que ela pudesse se afastar.
- Você acha mesmo que pode simplesmente fazer isso, me provocar e atiçar, e continuar agindo como se fosse uma estranha, Scarlat? Como se cinco minutos atrás não estivesse sentada no meu colo me beijando como se quisesse me foder aqui mesmo? - Eu sibilei, a minha voz carregada de algo perigoso demais para nós dois, porque eu estava a ponto de prendê-la contra a parede daquele camarote e fode-la sem me importar com quem estivesse olhando.
- Eu sou a sua anfitriã, cavalheiro. Meu trabalho é garantir que o senhor tenha uma noite... inesquecível. - Ela se inclinou mais para perto, deixando o perfume de absinto e fumaça inundar os meus sentidos. Então ela sussurrou apenas para que eu ouvisse: - Mas eu não estou à venda. E eu não recebo ordens.
Ela puxou o pulso com um movimento firme e continuou atendendo os outros dois como se o beijo de minutos atrás nunca tivesse acontecido, servindo dose após dose das bebidas mais exóticas e extravagantemente caras daquela boate.
Eu era pura fúria e desejo bruto e não escondia de ninguém. E ela me deixou em brasa a noite inteira, nos servindo, sorrindo para o Andrey, rindo das piadas do Julian, mas me mantendo a uma distância controlada. Eu fui ficando como um animal enjaulado, indócil andando pelo camarote.
- Sua última dose do pecador desta noite, cavalheiro! - A Scarlat se aproximou de mim com uma dose dupla de absinto.

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