"Lorena"
Eu terminei de descer as escadas com a Alice e parei diante da Adelaide. Ela estava lá, ignorar seria pior. Ela estava ainda mais sisuda, os lábios apertados e a postura de um militar.
- Bom dia, Adelaide. - Eu cumprimentei, me mantendo firme, esperando o bote.
- Bom dia... Srta. Valente. - Ela respondeu, e o "Srta. Valente" soou como se ela estivesse ruminando ódio. Ela se virou e começou a subir as escadas. Eu estava prestes a respirar aliviada e confiar nas palavras do Érick, de que eu não deveria me preocupar com a governanta, mas isso era apenas uma cortina de fumaça. Ela parou bem ao meu lado e falou baixo o suficiente para que apenas eu ouvisse: - Não fique muito confortável, Lorena. Esse é o meu território! - Ela fez uma careta e ainda balbuciou: - Já está impregnada com o perfume do patrão.
Ela se virou e continuou subindo.
O café da manhã foi uma tortura de silêncios e olhares pesados que me impediu de pensar em qualquer desculpa para fugir da armadilha da volta da escola. Mas talvez fosse melhor enfrentar logo aquela situação, ficar fugindo só me manteria caminhanto em terreno perigosa com o coração disparando a cada alarme soado.
Eu estava pronta para a "conversa no caminho de volta da escola", resignada a ter que lutar para manter o meu chefe longe e conservar o meu emprego, mas o destino resolveu me dar uma trégua, finalmente. O celular do Érick tocou antes de sairmos e pela agitação dele emquanto atendia, era importante.
- Vá com o motorista, Lorena. - Ele ordenou, a voz tensa, mas os olhos ainda fixos nos meus com uma promessa silenciosa. - Mas não pense que escapou. Antes de você sair para a sua folga do fim de semana, nós vamos terminar essa conversa.
Eu passei a manhã me esquivando de qualquer sombra que pudesse ser o Érick de volta e também da Adelaide me perseguindo. Mas a minha sorte não durou tanto. Quando eu voltei da escola com a Alice o carro dele estava lá, reluzente em frente a casa. Eu não conseguiria fugir por muito tempo.
Eu entrei com a Alice pela cozinha, os olhos da Adelaide como uma metralhadora apontada para mim enquanto passávamos. E quando chegamos a sala a Alice soltou a minha mão e correu em direção ao pai animada.
Mas Érick Albelini não era o único homem imponente trajando um terno sob medida naquela sala. Também estavam com ele o Julian e um terceiro homem que sempre estava com eles na boate. Ele era um dos mais genorosos, o mais fraco para a bebida e o que mais se divertia nas noites na boate. Não era suficiente que eu tivesse que me esquivar do Érick, do Julian e da Aelaide, agora tinha esse terceiro homem que poderia me reconhecer.
- Tá de brincadeira?! - O homem se levantou e caminhou em minha direção, parando há dois passos de mim. - Ela não é a babá!
Ele me olhou de cima a baixo e depois olhou para os outros dois. O Érick parecia mais mal humorado que de costume, como se fosse morder aquele homem a qualquer momento e o Julian tinha aquele sorriso de sempre que o fazia parecer menos ameaçador que o Érick, mas era só fachada, a verdade era que ambos eram homens dominantes e poderosos.
Mas o homem a minha frente tinha a mesma aura de poder e riqueza dos outros dois. E também era tão alto e tao bonito quanto. Os três juntos formavam um trio de tirar o fôlego e com certeza muitas mulheres se atiravam aos pés deles.
- Andrey, eu te disse que ela parecia ter sido contratada em uma agência de modelos. - O Julian se levantou, veio até mim e passou o braço pelos meus ombros. - Como vai, Lorena? - Ele perguntou muito amigável e me deu um beijo no rosto.
- Minha nossa! Eu preciso do telefone dessa agência, preciso contratar uma babá. - O homem a minha frente falou, parecendo sério.
- Você não tem crianças em casa, Andrey. - O Julian riu.
- Isso não é problema, eu posso comprar uma pela internet. Não posso? - Ele falou em tom amigável, me fazendo rir. - Sorrindo fica ainda mais linda! - Ele declarou e ofereceu a mão. - Eu sou o Andrey D'Ávila, ao seu dispor. - Ele se curvou gentilmente e deu um beijo na mão que eu coloquei sobre a dele.
- Lorena, senhor. - Eu me mantive cortês e profissional.
- Sabe, quando a esposa do Érick faleceu eu pensei que ele logo se casaria. Um homem jovem, com uma filha bebê, eu imaginei que ele procuraria alguém para dividir a responsabalidade. Até porque ele não era exatamente apaixonado pela esposa. Eles eram amigos, tiveram um namoro que não parecia sério, mas o meu falecido marido fazia gosto da união. Depois que o pai morreu o Érick se casou. Eles viviam bem, mas ela ficopu doente logo depois que a filha nasceu e foi trágico. - A senhora contava com uma espontaneidade, como se fôssemos amigas há muito tempo.
- Sinto muito. Eu sei como é difícil para a Alice. Certamente também deve ser para o seu filho.
- Ah, não! Para o Érick a vida seguiu. Ele diz que apenas gosta de não ser controlado por uma mulher. Mas quer saber o que eu penso mesmo? Eu penso que ele apenas não encontrou a mulher certa, aquela que vai virar o mundo dele de pernas para o ar. Mas também, você já viu como é mal humorado. - Ela me fez rir e eu até concordava em parte.
A D. Heloísa e eu conversamos por um tempo no jardim. Ela era tão calorosa, tão amavel, que por um momento eu senti que pertencia àquela família. Mas a culpa me atingiu logo em seguida: eu era uma mentirosa.
Depois da conversa no jardim, nós voltamos para a sala. Os papéis antes espalhados tinham sido recolhidos, um sinal claro de que aqueles homens haviam terminado o trabalho.
- Lorena, não se esqueça que temos uma conversa pendente. - O Érick me lembrou e eu estremeci, eu não me safaria dessa.
- Não seja chato, Érick! Nada de trabalho ou conversas com a Lorena hoje. Eu estou aqui com a Alice, a Lorena já pode ir aproveitar a folga dela, ela precisa descansar! Vá, querida, aproveite seu final de semana. - A D. Heloísa foi implacável e não deu chance para o filho questioná-la. Eu gostava mesmo daquela mulher.
Eu saí da mansão sentindo que tinha escapado da guilhotina por um milímetro. O ar fresco da noite nunca pareceu tão doce. Mas era sexta-feira. Noite da boate. Pelo menos eu sabia que esta noite eu não teria que enfrentar o Érick Albelini, o meu predador.
Ou assim eu pensava.

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