"Érick"
Enquanto eu dirigia para casa, sentindo o cheiro da Lorena no espaço confinado do carro e o gosto do absinto da Scarlat na boca, foi impossível não pensar, não comparar as duas. A "santa" e a "pecadora". Uma me incendiava. A outra me acalmava. E o pior de tudo é que, enquanto eu dirigia de volta para casa, tudo pareceu se misturar e o gosto do batom da Scarlat na minha boca pareceu, por um segundo de loucura, ter o mesmo sabor de doçura que o perfume da babá... coco e açúcar mascavo. Eu estava enlouquecendo!
Eu estava atordoado, o perfume de uma, o beijo da outra, mas a sensação que dominava meu corpo era o rastro do calor da Scarlat. Aquela mulher tinha acabado de me desarmar na frente dos meus amigos. Ela me montou, me beijou como se fosse a dona da minha alma, desarrumou meu cabelo e minha sanidade... e depois? Ela evaporou. A frieza dela após o incêndio que causou em mim era o que mais me enfurecia.
Eu entrei em casa como uma tempestade. O estalo da porta principal ecoou pelo hall silencioso, e eu não me surpreendi ao ver a sombra da Adelaide perto da escada. Ela sempre estava lá, como um corvo vigiando a moralidade da minha casa.
- Sr. Albelini? O senhor chegou tarde. Aconteceu algo...
- Saia da minha frente, Adelaide! Ou eu terei que te lembrar de novo que esta é a minha casa? - A minha voz saiu como um trovão contido, cortando qualquer tentativa de conversa. - Que mania de perambular pelo escuro vigiando os passos de todos! E se eu ouvir o som dos seus passos ou da sua respiração perto de mim pelos próximos dias, você pode começar a empacotar suas coisas. Fui claro?
Ela empalideceu e recuou para as sombras. Eu não queria eficiência agora. Eu queria silêncio para tentar calar a voz da Scarlat na minha cabeça. Eu subi as escadas enfurecido e me tranquei no meu quarto. Foi quando eu senti um volume estranho no bolso do meu paletó. Eu enfiei a mão e puxei um pedaço de tecido fino, escuro e delicado.
- Ah, sua demoniazinha! - Eu praguejei observando a minúscula calcinha de renda preta com um delicado padrão floral em minha mão.
Aquela capetinha estava sem calcinha quando voltou para o camarim, por isso os movimentos curtos e lentos, cheios de cuidado. E ela deixou esse presentinho no meu bolso! O tecido exalava o perfume dela, absinto, fumaça e aquele toque de perigo que eu não conseguia definir.
O cheiro da Scarlat invadiu meus pulmões, mas, por uma fração de segundo, minha mente me traiu. O tremor que senti no corpo da Scarlat quando a prensei contra o meu... era o mesmo tremor que senti na Lorena na cozinha.
- Não pode ser... - Eu sussurrei para a penumbra. - Essas mulheres vão me deixar louco!
Como era possível que o fogo de uma me lembrasse tanto o gelo da outra? Eu buscava a Scarlat para esquecer a obsessão pela babá, mas a minha cabeça começava a misturar as duas. Como isso era possível? Como a minha mente misturava a personalidade da babá, uma mulher doce e resiliente, tão contida, que observava mais do que falava, que parecia ter medo de mim, com a personalidade daquela devassa da Scarlat, uma mulher insolente, dominante, magnética, que ditava as regras e me desafiava o tempo todo?
Não, aquelas duas mulheres eram opostos completos. Uma jamais seria como a outra. Não fazia sentido a minha mente me trair assim e fazia menos sentido ainda que eu desejasse as duas. Não mesmo! Até porque eu não era um homem de muitas mulheres, muito menos me metia com mais de uma de cada vez, isso era uma complicação que eu não queria na vida. No entanto, aqui estava eu, ardendo pela "pecadora" e buscando redenção na "santa".
Eu passei o restante do final de semana em um estado de irritabilidade que nem o sorriso da Alice ou a paciência da minha mãe conseguiram aplacar. E não ajudou muito que a minha mãe tivesse preparado um bolo de coco para o lanche de sábado à tarde. Eu agia mecanicamente, tentando fazer das duas o centro da minha atenção, mas a minha mente estava trancada na gaveta da mesa do meu escritório, junto com uma calcinha de renda preta e um dossiê de fraude financeira.
E não ajudava muito que a cada meia hora a Alice mencionasse o nome da babá, meu estômago dava um nó e a minha cabeça entrava em curto circuito.
Eu me peguei várias vezes com o celular na mão olhando para o número da Lorena enquanto a gaveta da minha mesa estava aberta expondo a calcinha da Scarlat. Eu pensei em chamar a Lorena de volta para cuidar da Alice, para que assim eu pudesse voltar à boate para procurar a Scarlat, mas eu me lembrava do quase beijo que eu dei na babá ali mesmo contra aquela mesa de carvalho e sentia o meu coração disparar com a vontade de sentir os seus lábios contra os meus.
No fim eu desisti de chamar a Lorena de volta, porque eu já não sabia se eu queria chamá-la para prendê-la nos meus braços e finalmente tomar aquele beijo, ou se queria que ela cuidasse da Alice para que eu fosse atrás da Scarlat. Eu estava me tornando um canalha! Eu queria as duas e não poderia ter as duas... mais cedo ou mais tarde eu teria que decidir por uma e só tinha um jeito de decidir: eu beijaria a babá, provocaria o fogo nela, eu precisava saber se por baixo daquele mar calmo poderia haver um oceano tempestuoso como aqueles olhos prometiam quando ela defendeu a minha filha.


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