"Lorena"
O silêncio do corredor daquela casa era quebrado apenas pelas batidas descompassadas do meu coração. Ficar perto daquele homem estava cada vez mais difícil, principalmente depois do que eu fiz na boate. Foi um ato de pura ousadia e falta de bom senso tirar a minha calcinha no camarim e enfiá-la no bolso do paletó dele antes de encerrar a noite. Mas eu adoraria ter podido ver a cara do grande Érick Albelini, o senhor do tempo, controlador obssessivo, encontrando a calcinha no bolso. Será que ele ficou chocado? Ou irritado?
Então um pensamento cruzou a minha mente e eu levei a mão à boca. E se ele não tivesse visto e enviado o Paletó para a lavanderia? Aquela calcinha ia ser assunto de fofoca pela casa. Eu precisava procurar aquele paletó! Imagina se aquela calcinha caísse nas mãos da Adelaide! Não, eu tinha agido sem pensar, aquilo tinha sido uma idiotice!
Minha mente corria com o problema da calcinha, me distraindo de tudo a minha volta, enquanto eu tentava chegar rapidamente ao meu quarto. Eu teria que entrar no quarto dele na manhã seguinte e encontrar aquele paletó.
Eu alcancei a porta do meu quarto e segurei a maçaneta, mas um vulto bloqueou a luz do corredor. Antes que eu pudesse girar o metal frio, uma mão grande e de dedos longos se espalmou contra a madeira, logo acima da minha cabeça.
O cheiro o denunciou antes mesmo que ele falasse. Sândalo, couro e algo puramente ele que eu já sabia identificar como único. Um cheiro que, na boate, me fazia querer desafiá-lo, mas que aqui, no domínio dele, me fazia querer desmoronar.
- O mundo lá fora foi decepcionante, Lorena? - A voz dele saiu baixa e grave, cortando o silêncio.
- Sr. Albelini... o senhor me assustou. - Eu sussurrei, minha respiração curta.
Ele ignorou qualquer protocolo, sequer se preocupou que a Adelaide ou a Alice pudesse aparecer, apenas se aproximou mais, seu peito colando às minhas costas, o braço apoiado na porta sobre a minha cabeça, a outra mão tocando a minha cintura e me mantendo perto dele e a boca perigosamente no meu ouvido.
- Responde, Lorena. O seu final de semana foi mais interessante do que esta casa? Ou você estava ansiosa para voltar? - Ele sussurrou no meu ouvido como se me fizesse uma proposta indecente.
- Certamente o meu fim de semana não foi tão interessante quanto o seu. - Eu me enchi de coragem para responder.
- Ah, o meu foi muito interessante. - Ele suspirou, mandando um arrepio por todo o meu corpo. - Me diz, Lorena, você é tão doce quanto cheira?
Senti o hálito dele quente contra a curva do meu pescoço. O formigamento que a proximidade dele me causava era quase demais para que eu não me virasse e o beijasse ali mesmo. Mas eu não podia, eu era a babá e eu não podia perder esse emprego. Eu precisava desarmá-lo. Precisava que ele se afastasse antes que eu perdesse o pouco de sanidade que me restava.
- O senhor mesmo disse, não disse? - Forcei uma voz firme, embora minhas pernas parecessem feitas de gelatina. - Que o bolo de coco da sua mãe estava delicioso. Talvez o senhor tenha se excedido este fim de semana e esteja apenas com excesso de açúcar no paladar, Sr. Albelini. Confundindo o cheiro da cozinha com a sua funcionária.
Eu senti o corpo dele enrijecer contra o meu. O sarcasmo foi a minha defesa, mas para um homem como Érick, era um convite ao desafio.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite