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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 42

"Lorena"

Eu saí do escritório, fechando a porta com um clique suave que pareceu um trovão no corredor silencioso, como se gritasse para todos o que tinha acabado de acontecer ali dentro. Eu encostei as costas contra a porta por um segundo, as pernas ainda tremendo. Um choque de realidade me atingiu, eu precisava de um sutiã. Eu fui depressa ao meu quarto e vesti outro sutiã, eu já estava me sentindo desnorteada, não precisava me sentir nua.

Enquanto eu caminhava de volta em direção às escadas, eu cruzei com Adelaide parada como uma estátua no primeiro degrau, me observando como se pudesse ler meus pensamentos. Ela me lançou um olhar afiado, de quem sabia o que tinha acontecido e não concordava com aquilo.

- A senhorita demorou no escritório. - Ela comentou, o tom carregado de quem tinha uma suspeita. - Já está quase na hora da meninavoltar da escola.

- O Sr. Albelini queria... esclarecer algumas coisas sobre o meu currículo. - Eu respondi, passando por ela sem parar, com medo de que ela pudesse ler a verdade na minha pele.

Entrei no quarto da Alice ainda nervosa. Érick Albelini estava colecionando pedaços de mim. Ele tinha a calcinha da Scarlat e o sutiã da Lorena. Ele estava cercando as minhas duas vidas, fechando o cerco sem nem saber que ambas as peças pertenciam à mesma mulher.

Eu precisava sair. Precisava de ar, de realidade, de qualquer coisa que não tivesse o cheiro dele e a intensidade avassaladora que ele emanava. O meu celular tocou no bolso do vestido, era uma mensagem do Dr. Mariano.

“Lorena, algo suspeito aconteceu no seu processo. Preciso que venha à minha casa agora. É urgente.”

As palavras do advogado martelaram na minha cabeça. Suspeito. Urgente. Na minha nova realidade, "urgente" geralmente significava uma nova intimação ou mais uma dívida a pagar. Mas o "suspeito" me deu um calafrio diferente.

Eu olhei para o relógio. Eu ainda tinha tempo até a Alice sair da escola, conseguiria ir falar com o advogado e depois podia ir direto para a escola. Mas, eu precisava de autorização. Eu desci as escadas e fui direto para a cozinha.

Parei na entrada da cozinha, respirei fundo e criei coragem, o máximo que ela diria seria "não"... não, talvez ela me humilhasse na frente dos outros empregados. Mas eu precisava tentar. A Adelaide estava de costas.

- Adelaide? - Chamei, tentando manter a voz o mais neutra possível.

Ela se virou devagar, os olhos pequenos e astutos, inquisidores. Seu olhar me fez querer me encolher. Ela olhou para o meu vestido e subiu o olhar para o meu rosto, como se procurasse pela evidência da minha indiscrição com o patrão.

- Eu recebi uma mensagem do meu advogado. É um assunto de família urgente. Preciso sair por duas horas antes da Alice voltar da escola. Posso ir direto para buscá-la, inclusive. - Era uma meia verdade, mas mentir já estava se tornando uma constante na minha vida. Mas com Adelaide, era muito mais difícil, a mulher parecia um detector de mentiras ambulante.

A Adelaide largou um bule de prata que segurava com um estalo seco. Ela caminhou até mim, parando a uma distância desconfortável, quase invasiva.

- Assunto de família? - Ela arqueou uma sobrancelha, o olhar caindo para a altura do meu peito. Eu gelei. Será que o Érick tinha me deixado uma marca ali? - Engraçado... você mal saiu do escritório do Sr. Albelini, com a aparência mais culpada possível, e agora está com pressa de sair.

- Eu não estou com a aparência culpada, Adelaide. Só estou com pressa. - Eu me defendi impaciente.

- Cuidado, senhorita. - Ela me repreendeu. - Eu conheço o seu "tipo". Mulheres que... trocam favores, duram muito pouco em casas respeitáveis como esta.

O insulto ardeu como uma surra de açoite. Eu queria gritar com ela e me defender, mas eu apenas a encarei, com o pouco de dignidade que ainda tinha e tentando não chorar.

- Adelaide, se quiser, pode ligar para o advogado e confirmar. Te dou o nome dele, o telefone você encontra fácil na internet. - Eu respondi, a voz tremendo de indignação contida. - Posso ir ou terei que incomodar o Sr. Albelini para pedir uma autorização por escrito?

A Adelaide soltou um som de desdém e voltou para o que quer que estivesse fazendo.

- Vá. Mas se a Alice chegar e você não estiver com ela, eu mesma farei questão de assegurar ao patrão que você é incapaz de cuidar da menina. E eu garanto que ele vai me ouvir, afinal, eu já estou aqui há muito tempo e vi babás melhores serem demitidas por muito menos.

Eu saí da cozinha sem olhar para trás, o coração batendo na garganta. Eu não tinha tempo a perder batendo boca com a Adelaide, eu precisava chegar ao Dr. Mariano. Precisava saber o quanto mais eu estava encrencada.

Eu consegui um taxi rapidamente e quando me sentei no banco de trás do veículo eu abri a janela e respirei fundo. Entre a intensidade de Érick Albelini e a animosidade da Adelaide, eu estava me sentindo completamente sufocada.

Eu me recostei no sofá, sentindo o mundo girar. O que estava acontecendo ali?

- Quem faria isso, Lorena? - O Mariano me encarou, os olhos curiosos por trás dos óculos. - O que estão fazendo não sai de graça, alguém está gastando um bom dinheiro com isso. Eu só não sei ainda se isso é bom ou ruim para você.

- Eu... eu não tenho certeza. Alguém que o Carlos Eduardo tenha prejudicado pode estar nervoso por não estar recebendo todo o dinheiro de volta? Ou alguém que não aceitou um acordo? - Eu precisava me preparar para qualquer hipótese, mas meu coração gritava o nome do Érick.

- Pode ser, mas seja quem for, essa pessoa não está brincando. O problema é que, enquanto o processo estiver na delegacia, você fica em um limbo jurídico. Se eles encontrarem algo que te incrimine por tabela, você cai junto com o Carlos. E como você...

- Como eu não posso garantir que o Carlos Eduardo não me amarrou nisso também, eu posso ser presa. - Eu concluí sentindo o chão sumir sob os meus pés.

- É... infelizmente se é alguém com boas ou más intenções não importa tanto, mas o resultado disso pode ser desastroso.

- O que eu faço?

- Confia em mim, seja o que for, eu não vou te abandonar. - Ele segurou a minha mão com delicadeza.

Nós conversamos mais um pouco, mesmo assim, quando eu saí da casa do Mariano eu sentia como se estivesse encurralada. Ainda que fosse o Érick, agindo como meu salvador, o preço dessa salvação poderia ser minha ruína.

Mas outra coisa me angustiava. O que aconteceria se e quando essa mesma investigação batesse na porta da boate Infernal?

Eu olhei para o relógio e já não tinha mais tempo, era hora de buscar a Alice e voltar para aquela casa.

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