"Lorena"
Eu saí da casa do Mariano sentindo o peso de uma tonelada sobre os ombros. Peguei um táxi de volta, pedindo para o motorista voar em direção à escola da Alice. Eu precisava recuperar o fôlego e fingir que não estava preocupada, que meu nome não estava sendo jogado em uma mesa de delegacia neste exato momento.
O trajeto de táxi até a escola de Alice foi um borrão de ansiedade. As palavras do Mariano ainda ecoavam: limbo jurídico, delegacia, investigação. E a pergunta dele para a qual eu imaginava a resposta: quem estava fazendo isso? Eu me sentia como se estivesse caminhando sobre uma camada fina de gelo que quebraria e me faria afundar a qualquer momento.
Quando o táxi parou, meu coração deu um salto. O sedã preto já estava lá, estacionado. O motorista do Érick, aquele mesmo senhor do escritório, estava postado ao lado da porta traseira. Ele não disse nada, apenas inclinou a cabeça e me ofereceu um sorriso quase imperceptível. Ele não falava muito, mas observava tudo.
Eu respirei fundo e caminhei em direção aos portões. Era hora de focar na Alice, na minha função, e ser o melhor para aquela doce garotinha.
- Srta. Valente! - O chamado veio de uma voz masculina e jovial, quebrando o transe do meu pânico.
Eu me virei e vi o professor de educação física da Alice. Ele era o oposto do Érick, bronzeado, com um sorriso fácil e uma energia solar e acolhedora, o tipo de pessoa agradável e fácil de lidar. Mas hoje, eu não queria lidar com ele, eu estava tensa, preocupada e não muito disposta a ser sociável, não depois daquela manhã perturbadora.
- Oi, Professor Renato. Como vai? - Eu tentei sorrir, mas sentia os olhos do motorista do Érick cravados nas minhas costas.
- Você está bem? Parece preocupada. - O professor se aproximou, um jeito amigável, se mantendo à distância de um braço.
- Estou bem, obrigada. Em que posso ser útil, professor? - Eu tentei manter o tom profissional, mas ele me pegou de surpresa.
- O que você acha de começar deixando essaformalidade de lado e sermos apenas Renato e Lorena? - Ele deu um sorriso amplo, como um convite a aceitar sua proposta.
- Claro, Renato. - Eu sorri gentilmente, o coitado também não tinha culpa do que estava acontecendo comigo.
- Eu estava esperando por você, sei que você busca a Alice todos os dias. - Ele coçou a nuca, quase sem graça, mas foi em frente. - Vai ter um grupo de trilha no próximo sábado, pensei que você pudesse gostar de sair um pouco dessa rotina de babá. O que me diz?
Se ele soubesse que a minha vida de babá não tinha nada de rotina, talvez nem falasse comigo. Eu estava pronta para recusar o convite, mas antes que eu pudesse responder a Alice surgiu correndo pelo portão, parando bruscamente ao nos ver. Seus olhos pequenos saltavam de mim para o professor, com uma curiosidade que me deu um calafrio.
- Oi, minha menina linda! - Eu me abaixei para abraçá-la, tentando cortar o assunto e desencorajar o professor.
- Professor Renato, o que você quer com a Lorena? - A Alice perguntou diretamente para o professor, a voz alta o suficiente para que o motorista ouvisse.
- Só fiz a ela um convite para uma trilha no fim de semana, Alice. - O professor riu, sem graça.
- A Lorena não gosta de mato, nem de mosquito. Ela gosta de ler. - A Alice sentenciou, um tantinho irritada com o professor, segurando a minha mão com força. Ela realmente era como o pai. - Não é, Lorena?
- É... realmente eu não sou uma pessoa muito habilidosa com a natureza. - Eu sorri um tanto sem graça.
- Ah! - O professor olhou para a Alice com um sorrisinho de quem percebia o ciúme dela em dividir a babá. - Mas eu também gosto de ler. Talvez nós possamos tomar um café em um dos seus dias de folga. Me passa o...
- Vamos, Lorena, o papai está nos esperando e ele detesta atrasos! - A Alice não esperou o professor terminar de falar e tentou me puxar.
- Renato, me desculpe, mas eu tenho que ir. Até mais. - Eu me despedi dele antes de me virar para acompanhar a Alice.
Assim que eu entrei no casso, eu me virei para a menina.
- Você sabe que não foi muito educada com o seu professor, não sabe? - Eu perguntei e ela me deu um sorrisinho de quem sabia perfeitamente o que tinha feito.
- Lorena, o papai realmente não gosta de atrasos. - Ela insistiu naquilo, mas eu sabia que tinha mais.
- Foi apenas um convite educado, senhor... - Eu respondi, sentindo o suor frio na nuca. - Eu recusei, é claro.
- É claro. - Ele ecoou, mas o tom era de pura descrença. Seus olhos sobre mim como se me prendessem. - Alice, termine o seu almoço e vá esperar a Lorena na sala de estudos. Eu preciso falar com ela.
Nada mais foi dito, mas eu sabia que de alguma forma eu estava encrencada. Assim que Alice terminou e saiu saltitante, a Adelaide entrou para recolher os pratos. Ela tinha ouvido tudo. Eu vi o brilho de malícia nos olhos dela. Ela parou ao meu lado, fingindo organizar os guardanapos, e inclinou-se o suficiente para que sua fala não soasse mais que um comentário sem malícia.
- Realmente, Srta. Valente, você atrai muita atenção masculina. - A Adelaide soltou o veneno, a voz falsamente doce e um sorriso cínico ao olhar para mim. - Primeiro o advogado querendo vê-la, agora o professor da escola... eu me pergunto, Lorena, como você tem tempo para tantos... admiradores? Ou será que foi com o professor que você realmente foi se encontrar hoje cedo e ficou com vergonha de contar?
Eu me levantei bruscamente, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente. A humilhação queimava meu rosto.
- Adelaide, isso é um absurdo! - Eu tentei protestar, mas Érick levantou a mão, silenciando a sala.
Ele não olhou para Adelaide. Ele olhou para mim. A fúria dele era como um bloco de gelo.
- Saia, Adelaide. - Ele ordenou, baixo.
- Mas, senhor... - A Adelaide tentou se fazer de inocente, como se só quisesse juntar os pratos.
- Saia. - O tom de comando foi absoluto.
A Adelaide se retirou apressada, mas o estrago estava feito, a insuinuação maldosa posta de um jeito que qualquer um poderia distorcer como bem quisesse. Eu estava trêmula, segurando a borda da mesa, de cabeça baixa. O Érick levantou-se devagar, contornando o móvel até parar a centímetros de mim. Ele não me tocou, mas a pressão da sua presença era esmagadora.
- Nós não terminamos aqui, Lorena. - Ele sibilou, o rosto a milímetros do meu. - À noite, depois que você colocar a Alice na cama, eu estarei no seu quarto. E você vai me explicar exatamente por que outros homens acham que têm o direito de convidar a minha babá para passear.

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