"Lorena"
No fim da tarde, sob as ordens daquele Albelini tirano e a supervisão da governanta intragável, minhas coisas foram mudadas de quarto. E eu sabia exatamente o que aquilo parecia para cada um. Para o Érick, ele tinha apenas me colocado ao seu alcance, para a Adelaide era um privilégio que me igualava a uma amante interesseira, para a Alice era a alegria de me ter por perto, mas para mim, não era mais do que estar aprisionada em uma gaiola dourada.
Sim, uma gaiola de ouro! O novo quarto era luxuoso e três vezes maior que o anterior. Tinha uma vista privilegiada para o jardim e um banheiro que parecia um spa. Mas, para mim, cheirava a confinamento. Estar ali significava que eu não daria um passo sem os olhos atentos de Érick Albelini sobre mim.
- Instalada a seu gosto, senhorita Valente? - A voz de Adelaide cortou o silêncio, carregada de um veneno que ela mal se dava ao trabalho de esconder. Cada vez que ela pronunciava a palavra "senhorita" antes do meu nome parecia haver uma ironia quase desvelada.
- É um quarto bonito, Adelaide. Mas eu estava bem onde estava. - Eu respondi, tentando manter a voz firme enquanto guardava minhas poucas roupas no closet imenso.
- Imagino que sim. Mas veja pelo lado positivo... - Ela deu um passo à frente, baixando o tom, a face contorcida em um sorriso cruel. - O trajeto para os favores noturnos ficou bem mais curto agora, não é? O patrão realmente é um homem generoso com quem sabe... entretê-lo.
Eu parei o que estava fazendo e me virei para ela.
- Adelaide, por que você não gosta de mim? O que eu fiz, que desde o primeiro instante você me trata assim, querendo me ver pelas costas o quanto antes?
Mas ela não respondeu, apenas deu um sorriso frio e saiu, me deixando ali sem uma resposta e ainda mais angustiada do que já estava. O insulto havia me atingido, não porque eu me preocupava com o que ela pensava, mas porque eu não tinha idéia do que o Érick pretendia fazer comigo.
Entretenimento. Era isso que eu era para ele? Uma distração conveniente que agora ele queria manter à mão? Senti as lágrimas queimarem e, por um momento, a fachada de mulher contida se desmoronou, restando apenas a Lorena ferida, porque naquele momento, a ofensa da Adelaide trouxe à tona o envelope de dinheiro deixado sobre a mesinha de cabeceira para a Scarlat, a pressa com que ele deixou o quarto da babá depois de usá-la... depois de me usar. Era isso, eu tinha me tornado o brinquedinho do milionário poderoso que comprava tudo o que queria.
Eu me sentei no banco que tinha dentro do closet e deixei as lágrimas caírem. Nem o Carlos Eduardo havia me causado uma dor tão grande e olha que aquele canalha me deixou sem teto! Mas o Érick feriu algo ainda mais profundo na minha alma e estava doendo muito mais.
Eu estava chorando silenciosamente quando a porta se abriu de novo. Era a Alice.
- Lolô? Você está triste? - A pequena se aproximou, com os olhos arregalados. - Você não queria dormir perto de mim?
Eu engoli o choro, limpei as lágrimas rapidamente e forcei um sorriso, pegando as mãos dela e a puxando para se sentar ao meu lado. A minha menina não tinha culpa de nada e se ela estava feliz por me ter ainda mais perto, que se danassem os outros. Mas foi bem naquele momento que a ideia nasceu. Se o grande Sr. Abelini achava que me ter por perto facilitaria o acesso ao meu corpo, ele estava muito enganado.
- Claro que eu quero, meu amor. O problema na verdade... - Eu baixei a voz, como se contasse um segredo. - É que esse quarto é tão grande que eu tenho até um pouco de medo.
- Você não precisa ter medo, Lolô. Eu protejo você! - A pequena respondeu prontamente.
- Sabe que eu estou tendo uma ideia, e se você dormir aqui comigo essa noite? Nós podemos fazer uma noite do pijama e você pode me maquiar. O que acha? - Eu sugeri e vi aqueles olhinhos azuis faiscarem de alegria.
- Siiiimmmm! Isso vai ser muito divertido. - Ela deu pulinhos ao meu lado.
- É, muito divertido! Mas vai ser um segredo nosso, combninado? - Eu perguntei e ela fez que sim eufórica. - Toca aqui. - Eu coloquei a mão aberta para cima e ela bateu a mãozinha na minha e depois pulou no meu pescoço, me oferecendo um abraço do mais puro e genuíno amor.
O resto da tarde passou rápido, mas eu consegui me manter fora da vista da Adelaide. No entanto, na hora do jantar, ele estava lá, na cabeceira da mesa, como um rei em seu castelo. O cheiro da sua colônia invadiu o meu nariz como se me desafiando a esquecer como aquele demônio daquele homem era gostoso. Sim, ele era uma delícia, mas o meu orgulho ferido estava gritando mais alto que o meu tesão reprimido naquele momento.
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